A tragédia dos golfinhos na Torreira em 19/07/2013: interrogações e preocupações


 

foto jn 20-07-13

foto jn 20-07-13

 

 

A primeira pergunta que esta publicação pode suscitar é: porquê só agora? Porque o momento é este e não outro.

 

Que fique ainda claro que há duas coisas que me movem: a defesa da xávega e a defesa dos golfinhos. As dúvidas que procurarei expor ao longo do que a seguir escrevo, se esclarecidas, serão um contributo para o esclarecimento geral e final.

 

É verdade que não estive presente quando os factos se deram e que, como tal, não são minhas as fotos que foram divulgadas, só cheguei quando os golfinhos mortos aguardavam no atrelado e a polícia marítima ainda não tinha chegado.

 

Por tudo isso, não farei afirmações, limitar-me-ei a levantar questões suscitadas pelas entrevistas dadas ao Jornal de Notícias e à RTP, por aqueles que testemunharam todo o drama: os membros da companha.

 

Vejamos a reportagem do JN da autoria de João Paulo Costa:

 

Um cardume com cerca de 50 golfinhos, seguia de norte para sul. estava a um quilómetro da costa. passou por trás das redes, mas, de repente, inverteu a direcção e entrou nas redes, ficando preso”, conta ao JN, Bruno Murta, proprietário da companha envolvida no acidente. “ De imediato, entramos na água. Felizmente o mar estava calmo e deixou-nos com pé. Cortámos as redes e libertámos uns 40 golfinhos”

 

É óbvio que as duas citações têm um intervalo no tempo, que não foi respeitado na escrita, é impossível entrar na água, no nosso mar e com pé, até um quilómetro da costa. Resta portanto saber o que poderá ter acontecido no intervalo de tempo que medeia entre o entrar dos golfinhos nas redes, a cerca de um quilómetro da costa, e o “De imediato …..”.

 

A um quilómetro da costa as mangas da rede estão ainda completamente abertas, e as cordas que as puxam para terra (reçoeiro e mão de barca) distam cerca de 300 metros, é neste momento que as decisões têm de ser tomadas para tentar a libertação do grupo de golfinhos. as minhas dúvidas são as seguintes:

 

  • parou-se o puxar (alar) das redes para deixar os golfinhos passarem ou saírem?
  • se se parou e os animais não saíram largou-se uma das cordas, deixou-se ir à deriva e a rede abriu completamente, perdendo-se o lanço, mas deixando os animais fugir do cerco?
  • se os golfinhos estavam dentro do saco, foi-se lá de barco, ou chamaram-se os nadadores salva vidas, que já vi com um semí-rigido e com a ajuda deles rasgou-se o saco para os animais saírem?

 

Se tudo isto foi tentado e nada resultou então estamos perante, não um acidente, ou um erro, mas uma impossibilidade de salvamento em tempo.

 

  • continuou-se a puxar (alar) a rede?

     

Se a rede continuou a ser puxada (alada), então condenaram-se os golfinhos a virem dentro dela e chegarem à praia, onde aconteceu o relatado na frase que começa com “ De imediato….” e aconteceu o que só podia acontecer nessas circunstâncias.

 

Aliás, Marlene Murta, uma das donas da companha, na entrevista à RTP esclarece esta dúvida ao referir que o “imediatamente” é quando o saco chega à praia.

 

(ver : http://www.RTP.pt/noticias/index.php?article=668029&tm=8&layout=122&visual=61)

 

Ainda segundo a notícia do JN só houve 11 golfinhos mortos, ora no dia seguinte, veio outro morto no saco e não sabemos nada em relação aos que foram devolvidos ao mar e em que condições.

 

Ainda na notícia do JN é referido que, cito, “O comandante da capitania de Aveiro, Santos Oliveira, lamenta o acidente e diz que a capitania nada pode fazer, porque a xávega é uma arte autorizada”.

 

É aqui que a minha preocupação se centra: “ a culpa é da xávega”!!!!!!!!

 

No momento em que a União Europeia anda “em cima” das companhas por causa das capturas, não desejadas, dos “jaquinzinhos” e em que se conseguiu que todos os partidos, com assento parlamentar, aprovassem uma recomendação ao governo, que permite a venda do peixe miúdo do primeiro lanço e do que se fizer na maré seguinte, repondo a tradição, sem pôr em causa a sustentabilidade do carapau na nossa costa, e garantindo que as, pelo menos, 22 companhas existentes em Portugal continuem a trabalhar, um “caso” como este pode afectar muito negativamente a ideia que a Comissão Europeia tem da xávega e a imagem que dela têm as pessoas, cada vez mais sensíveis a situações como esta.

 

Ouvimos tantas vezes falar em “erro médico”, mas nunca se põe em causa a medicina, investiga-se o indiciado. Não é estranho que, neste caso, sem qualquer investigação, uma entidade responsável, ponha logo em causa a xávega?

 

Por isso, como estudioso e amante da xávega e defensor dos direitos dos animais, não podia deixar de me colocar estas interrogações e esperar que aqueles que tão bem sabem o que se passou, e como, me ajudem a entender tudo, respondendo às questões que levanto.

 

Questiono tudo e todos, por hábito intelectual, até não me restarem dúvidas. Seria até interessante que o “Jornal de Estarreja” promovesse um debate sobre este tema, onde todos pudessem serenamente analisar o que aconteceu e apontar caminhos para que tal não se repita.

 

Não sou, nunca fui, nem serei mentiroso, mas sou uma pessoa minimamente informada e que pensa. Por isso gostava de ver esclarecidas totalmente as minhas dúvidas. Todas as achegas, concretas e precisas, e que vão para além de meras considerações do tipo “se….”, ou insulto, serão bem vindas.

 

Até lá, se acontecer alguma coisa, a mim ou ao meu carro, será provavelmente a um quilómetro da costa.

 

 

Anexo:

 

Reportagem do JN 

 

jn 20-07-13

jn 20-07-13

os mais pobres dos pobres?


e bota para dentro

e bota para dentro

serão os pescadores da xávega “os mais pobres dos pobres”?

por favor, diz o que pensas disto, que eu penso assim:

de há uns tempos a esta parte, circulam na net e na comunicação local, textos em que os pescadores da xávega são referidos como sendo “os mais pobres dos pobres”.

que um autor, usando da sua liberdade de criador use esta frase poderá ser compreensível, mas não aceitável, que autoridades locais também a usem começa a ser algo discutível e a ser matéria, no mínimo, de debate.

das comunidades piscatórias que conheço, e que são constituídas por uma fatia significativa da comunidade piscatória da xávega, não encontro nelas abundância ou fartura, mas também não é a miséria a característica dominante. na sua maioria os pescadores das companhas são reformados, que procuram na pesca uma contribuição adicional para o rendimento do agregado familiar – ou foram emigrantes, ou pescadores do arrasto ou do bacalhau, ou ainda, no caso da torreira, fazem vida entre ria e mar.

se eles fossem “os mais pobres dos pobres”, como classificaríamos os sem abrigo urbanos, a pobreza urbana onde há reformas de miséria e tudo tem de ser comprado. não conheço maior miséria que esta: a urbana. ser pobre e viver numa cidade é ser “muito pobre”.

se se quer destacar os pescadores da xávega dos restantes portugueses, não penso que esta seja a melhor forma, nem a mais motivadora, para manutenção e defesa de uma arte que é ameaçada de extinção a cada dia. fale-se, isso sim, da sua bravura e das adversidades que dia a dia atravessam quando defrontam o mar.”

a tua opinião conta, a minha, sendo esta, poderá ser revista se me provarem que estou errado.

em comentário dá tua opinião

obrigado

xávega faz um bom lanço na assembleia da república


arribar

arribar

a primeira fase de qualquer lanço de xávega conclui-se com o arribar do barco. perigoso o largar, só com muita coragem e saber se consegue, largar as redes no sítio certo e trazer peixe no saco conclui o lanço e torna-o “bom” ou “mau”.

vem isto a propósito da aprovação, por unanimidade, na assembleia da república, no passado dia 7 de junho de uma recomendação, cujo resumo transcrevo da “visão online”, até se encontrar disponível na página da assembleia da república o texto definitivo.

 “Parlamento pede regime de exceção para pesca por arte xávega

Lusa – Esta notícia foi escrita nos termos do Acordo Ortográfico
15:13 Sexta feira, 7 de Junho de 2013 |

Lisboa, 07 jun (Lusa) – O parlamento aprovou hoje por unanimidade um projeto de resolução recomendando ao Governo que peça à União Europeia a criação de uma exceção para a pesca por arte xávega, permitindo-se a venda de peixe de tamanho abaixo do permitido.

A posição – que resultou de uma articulação entre todos os partidos, à exceção de “Os Verdes” – pretende ainda que seja possível a venda do produto do primeiro lanço de tamanho inferior ao legalmente permitido (12 centímetros, no caso do carapau).

Atualmente, os pescadores devem devolver ao mar o peixe de dimensão reduzida – já morto – e aguardar pela mudança de maré para reiniciar a atividade. O que o parlamento agora defende é que esse peixe, mesmo, possa ser vendido de imediato”

depois do modo de actuação, quase persecutório, das autoridades marítimas no ano ano passado em relação às capturas da xávega, conforme aqui foi relatado- https://ahcravo.wordpress.com/2012/07/17/querem-matar-a-xavega/_, o presidente da câmara municipal de mira, dr. joão reigota, tomou a iniciativa de juntar pescadores de toda a costa e representantes do grupo parlamentar do partido socialista, tendo em vista sensibilizar a comissão parlamentar de agricultura e mar, para a situação vivida pelo sector.

em simultâneo era criada a associação portuguesa de xávega (APX) e eleito presidente o arrais da praia de mira, josé vieira.

dava-se início a um processo que envolveu pescadores e autarcas, de espinho à caparica, e todos os partidos com assento parlamentar.

depois de debate na comissão parlamentar sobre as propostas dos partidos, no dia 7 de junho foi aprovada por unanimidade na comissão, e posteriormente no parlamento, a recomendação, cuja notícia se transcreve e que, segundo o informado, satisfaz, na minha modesta opinião, as aspirações dos pescadores e consigna o procedimento tradicional – se no primeiro lanço do dia predominar o peixe miúdo (jaquinzinhos, na sua maioria), a pesca é suspensa até à maré seguinte, não se realizando mais de 2 lanços por dia, sendo o peixe vendido e não destruído.

resta agora ao governo, com base na recomendação aprovada, e apoiado por todos os deputados portugueses no parlamento europeu, solicitar à comissão europeia que seja contemplado, em sede regulamento, o regime de excepção aprovado pelo parlamento português.

retire-se daqui uma lição: quando as vontades se unem e os homens lutam pela defesa dos seus interesses legítimos e históricos, é possível fazer um lanço.

o saco ainda não chegou a terra, não se sabe se o peixe é muito ou pouco, mas o barco, esse já arribou e todos, homens de terra e de mar, estão de parabéns, formaram uma companha ganhadora.

22 de maio de 2013_naufrágio no furadouro


hoje, dia 22 de maio de 2013, a xávega está de luto, dois pescadores morreram, no furadouro, quando o barco “jovem” da “companha do jacinto” se preparava para vencer a pancada de mar a 150 metros da costa.

transcreve-se a notícia do jornal online ovarnews.com

Pescadores foram surpreendidos por uma onda, conta sobrevivente

Os pescadores eram experientes, mas foram surpreendidos por uma onda, contou à Rádio Renascença, um dos sobreviventes, João Fonseca.

“O barco ia para aí a 150 metros da costa. A maré calhou mal e o barco levantou, entrou uma vaga no barco e encheu o barco de água. Foi uma embarcação próxima que veio socorrer”, descreve o pescador à emiddora.

“Toda a tripulação era experiente. Era o segundo lance do dia. É um mar conhecido, só que na altura correu mal. Não deu para galgar o mar. A primeira vaga encheu o barco de água, a segunda pôs as pessoas fora do barco.”

O vereador Vítor Ferreira, da Câmara de Ovar, confirmou à Renascença que a bordo seguiam sete pessoas. Os outros cinco tripulantes, salvos por uma embarcação, sofreram ferimentos e foram assistidos no local por elementos do INEM e dos bombeiros.

Vítor Ferreira avançou ainda que os serviços da autarquia estão no local para prestar todo o apoio às famílias. “Segundo as informações que recolhi, o próprio mestre da embarcação hesitou em ir para o mar, mas infelizmente são famílias com algumas carências e dificuldades e arriscam, apesar do conhecimento profundo que têm do mar”, disse. (Ler mais in Renascença)

Embarcação que naufragou cumpria normas de segurança

O presidente da Junta de Freguesia de Ovar, Joaquim Barbosa, assegura que a embarcação de arte xávega que naufragou esta manhã cumpria todas as normas de segurança. Dois mortos e três feridos ligeiros foi o resultado do naufrágio que ocorreu a sul da praia do Furadouro, em Ovar.

Em declarações à Antena1, o autarca explica que o problema foi os pescadores terem ficado emaranhados nas redes e nas cordas. “No meio da confusão, com o frio e com a precipitação, as coisas não são fáceis e eles acabaram por não ter o discernimento total para se poderem salvar uns aos outros”, afirma Joaquim Barbosa.

Dois mortos em naufrágio de barco xávega no Furadouro

Uma embarcação que se dedica à pesca da arte xávega naufragou, nesta madrugada de quarta-feira, a sul da praia do Furadouro, em Ovar, causando duas vítimas mortais. Testemunhos recolhidos no local, dizem que o barco “virou de banco”, na segunda vez que se fazia ao mar.

Segundo a mesma fonte, o alerta foi dado cerca das 7h30. A embarcação, conhecida como o “Arrastão do Jacinto”, com cinco pessoas a bordo, virou-se no momento da saída da praia para o mar, devido a um golpe fortíssimo de mar”, explicou o comandante da Capitania do Porto de Aveiro, Luciano Oliveira.

Um bote que andava no mar por perto, na mesma altura, à pesca do robalo, foi quem prestou o primeiro socorro ao “Jovem”, mas o Benjamim Carriola e o Jacinto Moreira, pescadores do Bairro do Lamarão, em Ovar, e de Cortegaça, ficaram debaixo da embarcação, emaranhados nas redes, no momento do naufrágio, não foi possível salvar.

Segundo o mesmo responsável, morreram dois homens, de 43 e 64 anos. Os restantes três tripulantes sofreram ferimentos e foram assistidos no local por elementos do INEM e dos Bombeiros de Ovar.

O comandante adiantou ainda que na altura do acidente as condições do mar e do vento “não eram gravosas”. (¨*com Lusa) (Ouvir na TSF)

 

rosa maria (borras)


 

 

rosa maria (borras)

rosa maria (borras)


e há toda uma história
nesta alcunha

o ti manel borras (manuel maria da silva), pescador da torreira, era natural do monte, de onde trazia a alcunha “patacas”, mas a vida dá muitas voltas.

a história é longa, mas ao ti manel, com muito que se possa dizer dos finais da sua vida, há algo que não se lhe pode negar: o ser uma “figura” da torreira, cuja história de vida tem sido muito deturpada por muitos.

àqueles que dizem que nunca foi pescador, quero que saibam que tenho na minha posse a digitalização das suas matrículas, retirada do arquivo da marinha, bem como notícia, no jornal da terra, de naufrágio de que foi vítima.

(torreira, 2009, à memória do arrais zé murta)

pcp apresenta proposta de resolução sobre a xávega na assembleia da república


 

praia de mira

praia de mira

Projecto de Resolução N.º 576/XII/2ª

Recomenda ao governo que proceda a alterações regulamentares de modo a permitir, na arte xávega, a venda do produto do primeiro lance em que predominem espécimes que não tenham o tamanho mínimo legalmente exigido

Quinta 17 de Janeiro de 2013

Preâmbulo

A portaria nº 1102-F/2000 aprovou o Regulamento da pesca por arte envolvente-arrastante. Esta pesca só pode ser exercida através da arte xávega. Esta portaria regulamenta o Decreto Regulamentar nº 43/87 de 17 de julho, alterado pelo Decreto Regulamentar nº 7/2000 de 30 de maio, sobre conservação de recursos. Estamos assim perante matéria regulamentar de competência governativa o que inibe a apresentação de um projeto de lei. Isto foi determinante na escolha do instrumento legislativo que ora utilizamos.

O regulamento referido, no seu artigo 7º, denominado “Interrupção dos lanços”, especifica claramente que “Sempre que nas capturas de um lanço predominem espécimes que não tenham o tamanho mínimo legalmente exigido, a atividade da xávega será interrompida até ao virar da maré.” Esta interrupção é importante para a preservação dos recursos, contudo, o pescado já capturado, não pode ser vendido por incumprimento da regulamentação que estabelece os tamanhos mínimos de desembarque.

Estas capturas não são evitáveis uma vez que esta é uma arte cega em que é impossível aos pescadores preverem as espécies e o tamanho do pescado que virá no lance. No entanto, a sua devolução ao mar não corresponde a uma ação de proteção dos recursos, uma vez que o peixe que já foi retirado do mar, não poderá ser devolvido por se encontrar morto, mas também não poderá ser comercializado. Esta inibição da venda, não representa, neste caso concreto, uma ação de salvaguarda dos recursos, mas poderá resultar numa melhoria da rentabilidade da atividade uma vez que foram despendidos meios para efetuar o lance.

A captura de espécimes de tamanho abaixo do regulamentado não é intencional e a inibição da sua venda não tem qualquer efeito positivo sobre a preservação dos recursos nem é dissuasora da realização da atividade, mas pode fazer diferença face aos custos com o lançamento da rede. Assim a rejeição de um lance neste enquadramento não tem efeito sobre a preservação das espécies e por isso a sua venda, não sendo lesiva, teria toda a utilidade. É, contudo, fundamental que seja garantida a interrupção da atividade da xávega até ao virar da maré (o que a portaria já prevê) para que os princípios originais das portarias regulamentares sejam salvaguardados.

Uma alteração desta natureza poderá implicar revisão das portarias que estabelecem os tamanhos mínimos de desembarque (Portaria nº 27/2001, de 15 de Janeiro, alterada pelas Portarias nº 402/2002, de 18 de abril, nº 1266/2004, de 01 de outubro, e nº 82/2011, de 22 de fevereiro), o que implicará também a ação junto de Bruxelas, uma vez que a definição de tamanhos mínimos de captura emana de regulação comunitária.

Esta é uma matéria de relevância que tem levado à intervenção de autarquias locais e ao acompanhamento de entidades representativas do setor, nomeadamente do Sindicato dos Trabalhadores da Pesca do Norte e da Federação dos Sindicatos do Setor da Pesca. Também já determinou a intervenção de deputados de diferentes Grupos Parlamentares, nomeadamente daqueles que constituem a maioria parlamentar que suporta o governo, pelo que é previsível, que esta iniciativa legislativa colha amplo consenso.

Nestes termos, ao abrigo das disposições constitucionais e regimentais aplicáveis, os Deputados abaixo assinados do Grupo Parlamentar do PCP apresentam o seguinte Projeto de Resolução:

A Assembleia da República recomenda ao Governo, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição da República:

1. Proceda às alterações regulamentares de modo a que, na arte xávega, o produto do lanço que determina a interrupção indicada no artigo 7º da Portaria nº 1102-F/2000 de 22 de novembro, sendo único e irrepetível até mudança de maré, possa ser vendido.

Assembleia da República, em 17 de janeiro de 2013

 

http://www.pcp.pt/recomenda-ao-governo-que-proceda-altera%C3%A7%C3%B5es-regulamentares-de-modo-permitir-na-arte-x%C3%A1vega-venda-do

xávega, não a matem


a xávega nas estradas de portugal

a xávega nas estradas de portugal

não há muitos dias deparei-me, no quiosque de uma estação de serviço, com um exemplar do mapa de estradas de portugal, 2013, e que tinha no rosto a foto anexa.

o barco, s. paio, foi um dos últimos barcos movido só a remos da praia da torreira e um dos primeiros a utilizar motor (o outro foi o óscar miguel, do arrais joão da calada). o proprietário era o arrais manel fumante, de seu nome manuel maria da cunha, e a companha terá trabalhado até por volta de 1995 – segundo informações de joão da calada.

é este o portugal onde vivo. no momento em que o governo, com a informação muito subtilmente passada na comunicação social de que irá deixar de ser possível comercializar peixe miúdo, nomeadamente o jaquinzinho ou carapau pipi, decreta a condenação desta arte de pesca, a sua imagem é utilizada para promover o país.

a xávega, embora já sem os bois, continua a ser uma arte de pesca praticada num único país do mundo: portugal. a beleza e a dureza da faina fazem parte da nossa memória colectiva e são um emblema dos pescadores portugueses e de todo um povo.

obedecendo a todas as normas legais, nacionais e europeias, a malhagem das redes da xávega continua a trazer carapau com tamanho inferior ao determinado pela união europeia para a costa atlântica, muito maior que o permitido para o mediterrâneo – nós pescamos carapau no atlântico e os espanhóis no mediterrâneo !!!!!!!!!! (não).

não querendo aqui falar de outras embarcações que se dedicam, ao longo da costa e ao largo, à pesca do carapau, seria bom dizer que o carapau miúdo capturado pelas xávegas, tem um defeito: é visível, fica ali na areia aos olhos de quem por perto esteja e dos fiscais atentos. já os do alto ……

sempre foi tradição entre os arrais da xávega, até para salvaguardar a sua sobrevivência, que, se no primeiro lanço do dia só viesse carapau miúdo, não se faria mais nenhum lanço até depois do almoço, e que se se voltasse a repetir a abundância do mesmo carapau, a pesca nesse dia era suspensa. o peixe era vendido e, embora não desse muito, sempre dava algum para a companha.

em 2012, sabe-se lá porquê, as autoridades resolveram começar a exercer uma fiscalização exacerbada em todas as praias onde ainda existem companhas de xávega e a controlar de forma apertada os tamanhos do carapau – tudo o que fosse menos de 12cm tinha de ser enterrado na areia, deitado ao mar, ou, se apreendido, depois de aplicadas as respectivas coimas, lixiviado e destruído.

note-se que estamos muito acima do tamanho dos jaquinzinhos e na dimensão do carapau que “habitualmente” é capturado pelas companhas, impedir a sua comercialização é impedir a manutenção da xávega como arte de pesca e forma de subsistência de muitas famílias.

com tanta gente a passar fome, isto é no mínimo um atentado à consciência de qualquer um. ainda se o peixe ao ser devolvido ao mar continuasse vivo…. mas tal é impossível: peixe na praia é peixe morto ou condenado a tal.

mas, nas grandes superfícies, lá estão à venda os jaquinzinhos! claro que com etiqueta espanhola, como a medida no mediterrâneo é menor…..

dizem alguns que a xávega, ao efectuar estas capturas, põe em causa a sustentabilidade da fileira do carapau na nossa zona de pesca exlusiva, mas se nem sequer esgotámos, em 2012, a quota imposta pela união europeia para o carapau, como é possível que a sua sustentabilidade esteja em causa?

a associação portuguesa de xávega, criada em novembro de 2012, que representa todas as companhas da nossa costa, tem vindo a desenvolver iniciativas, junto do governo e do parlamento, para que esta situação seja alterada e se mantenha a capacidade de subsistência desta forma secular de pesca e uma das maiores atracções turísticas das praias da costa ocidental portuguesa.

é pois tempo de apoiar todas as acções que conduzam a uma reavaliação das normas aplicadas às capturas da xávega e deixar para outras calendas as discussões teóricas sobre designações de artes e barcos.

enquanto descendente de pescadores da xávega (ou chamem-lhe o que quiserem) e admirador destes homens e mulheres que teimam, sem qualquer apoio, em continuar a ganhar o pão com os saberes herdados dos seus antepassados, queria deixar aqui o meu apelo a todos os que andam distraídos em guerras de emails e outras, sobre denominações e terminologias, que o importante neste momento não é de como se chama, é de como se continua.

diria um pescador: quantas vezes mais fácil é defrontar o mar do que convencer os homens

querem matar a xávega


barco de mar da xávega

Ontem, dia 16 de Julho, pelas 16 horas decorreu na Câmara Municipal de Mira uma reunião do executivo camarário com patrões e arrais de xávega, da costa portuguesa, que debateu as novas regras aplicar ao tamanho (do carapau) e quotas de pescado (sarda), e a forma como podem afectar a sobrevivência desta arte de pesca artesanal e centenária na nossa costa.

A xávega tal como é praticada na costa ocidental portuguesa é única no mundo e pode estar definitivamente condenada ao desaparecimento, caso lhe sejam aplicadas as regras anunciadas.

O responsável pela convocação da reunião foi o patrão e arrais José Vieira da Praia de Mira.

A reunião apoiada e patrocinada pela Câmara Municipal de Mira, foi presidida pelo Presidente da autarquia, Dr. João Reigota, ladeado por dois vereadores do executivo municipal, nomeadamente pelo Dr. Luís Grego que representa a autarquia no sector das pescas.

O tema que preocupava todos os pescadores, arrais, patrões e vendedores presentes, foi provocado pela intenção de ser levada à prática, ainda este ano a exigência de que 90% do carapau pescado pelas companhas, tenha a medida mínima de 15 cm – a medida actual é de 12 cm.

Estiveram presentes todas as praias onde a xávega ainda se pratica:

Paramos: 1 (companha)

Espinho : 1 (companha)

Vagueira: 1 (companha do filho do João da Murtosa)

Furadouro: 1 (companha)

Torrão do Lameiro : 1 (companha)

Torreira: 2 (companhas)

Praia de Mira: 6 (companhas)

Vieira de Leiria: 2 (companhas)

Pedrógão: 2 (companhas)

Perfazendo 18 companhas.

Considerando que o número de companhas, estimado em conversa com os pescadores presentes, a trabalhar na costa é de 22, as presenças foram em número muito significativo.

Se as medidas anunciadas e constantes de diplomas legais, forem aplicadas, a pesca artesanal de xávega desaparece da costa ocidental portuguesa, onde se constituiu como património cultural ao longo de séculos e da qual dependem, directamente, mais de 400 famílas e indirectamente muitas mais, que vivem da atracção turística que esta arte atrai.

Os presentes aproveitaram para relatar experiências vividas no seu dia a dia de pescadores e vendedores, e que são completamente aberrantes. Vejamos alguns exemplos:

– As redes têm a malhagem legal e os barcos estão devidamente licenciados, pelo que operam dentro de todas as normas exigidas legalmente, contrariamente ao que por vezes se pretende transmitir à opinião pública.

– A pesca artesanal é cega, assenta na experiência do arrais, mas não escolhe o peixe que vai ser capturado, é o que vier na rede. O que não acontece com os barcos de pesca industrial equipados com aparelhos que lhes permitem detectar os cardumes e o tipo de peixe. Na xávega a frase mais ouvida quando o barco vai ao mar é : “ O arrais tem fé neste lanço”.

– O peixe uma vez chegado à praia, mesmo se ainda com vida, é peixe que não sobrevive se lançado de novo ao mar. É peixe morto para todos os efeitos. No entanto, se não tiver a medida, não pode ser vendido, não pode ser enterrado na areia e se for lançado ao mar como as autoridades marítimas exigem, vai poluir as praias a sul, para onde o peixe morto é arrastado pela corrente dominate de norte, poluindo-as e pondo em causa muitas bandeiras azuis.

– Mas o que é um peixe sem medida? Trata-se do apreciadíssimo “jaquinzinho” ou “pelim” – que já regalou algum secretário de estado. Ora é tradição entre os arrais que se o primeiro lanço der só peixe miúdo, não se faz mais nenhum durante a manhã, só voltando a fazer-se novo lanço à tarde. Se o pescado se mantiver pára-se a pesca.

– O interessante é que este peixe pode ser adquirido nos hipermercados, devidamente embalado, oriundo da vizinha Espanha e com a denominação de peixe do “Mediterrâneo”, onde é consumido abertamente em restaurantes.

– Para cúmulo o carapau de 15 cm de comprimento, capturado pelas traineiras no outono, não é utilizado para consumo, mas sim para a transformação em farinha.

– Num país onde há quem passa fome, deitar peixe ao mar é crime. Foi por isso proposto que o peixe sem medida, pescado nos primeiros lanços pudesse ser vendido e repartido com instituições de solidariedade social, ou famílias carenciadas. Esta proposta não foi questionada pelos presentes.

Os presentes delegaram no executivo da Câmara de Mira a sua representação junto das entidades competentes, nomeadamente nas Autoridades de Controle Pesqueiro, tendo sido informados que já estava agendada reunião entre representantes do executivo e os responsáveis da área da Figueira da Foz.

Comprometeram-se ainda os representantes da autarquia em convidar deputados dos círculos de Coimbra, Leiria e Aveiro – círculos eleitoriais das zonas onde a xávega ainda se pratica – para uma reunião com os presentes, onde se debateria a situação vivida pelas companhas, caso seja levado à vante o pretendido.

Parece que tudo se está a conjugar para que esta arte de pesca artesanais desapareça e, repito, com ela seja posta em causa a sobrevivência de muitas famílias e seja liquidado mais uma importante património histórico, único em todo o mundo, servindo sempre os interesses de países terceiros e dos grandes industriais de pesca.

Que fique bem claro: as companhas de xávega cumprem em todos os aspectos – aparelho (redes e melhagem) e barco – toda a legislação em vigor. Operam legalmente na costa e não desenvolvem, por isso mesmo, quaisquer actividades clandestinas ou ilegais.

É a própria natureza da arte e o seu modo artesanal de proceder que indirectamente é posto em causa por legislação e legisladores que desconhecem, mais uma vez, a realidade . . . . . . . ou talvez não.

xávega_os ganchos no arribar (II)


mais rápido

 aqui temos um exemplo em que se podem ver os ganchos já presos, mas com as cordas pendentes, a tracção ainda não foi iniciada e a demora fez com que o barco fosse colhido à ré, pela onda seguinte.

vê-se assim a importância da rapidez de execução deste procedimento, sob pena de poderem acontecer situações como esta, mais graves se a onda for maior ou ainda, em casos extremos, o barco dar de bordo.

xávega_do largar


arrais zé murta (falecido)

à espera do “liso” o arrais zé murta, segura o reçoeiro, enquanto a muleta “ampara” a bica da ré.

quando estiver de feição a largar, o arrais dará ordem ao tractor para empurrar a muleta e irá deixando correr o reçoeiro, que faz também fixe em terra.

chama-se “liso” ao intervalo entre sequências de ondas, estas sucedem-se com frequências que são lidas pelo arrais ( 3, 5, 7….).

ler o mar é arte de arrais

(torreira; companha do murta; 2006)