ao mar


o meu amigo agostinho

o meu amigo agostinho

( entre amigos:

 – agostinho, quando eu morrer as minhas cinzas vão para o mar, vão no maria de fátima
 – oh! cravo, nesse dia não vou ao mar. não te quero ver. )

regresso ao mar
regressarei sempre
mesmo quando
do regresso regresso não houver
e tudo não for mais que sal e água

os dias passam
de tanto passarem
passado que chegue já haverá
amores amigos ódios paixões
estórias quanto baste
no cozinhado apurado de ter sido

não esperem por mim
os que já foram
não se despeçam
os que cá ficam
vivam vivam vivam muito

o mais é não haver mar
(torreira; companha do marco; 2013)

ahcravo_DSC_3271_agostinho_2013

da cidade com o mar em fundo


horácio

horácio

as paredes não são quatro
enganaram-te quando da casa
to disseram
esquece os números
a parede é imensa e dentro dela
acontece e desacontece

um mundo fechado
onde os sorrisos crescem
e a vida se consome
numa solidão a que poucos

lembro-me agora do mar
e de como até as viagens por dentro
são partilhadas por todos

a cidade é um povoado de solidões
escondidas entre paredes

as casas são o disfarce perfeito
para a alegria das ruas

hoje está sol nas ruas

ahcravo_DSC_9472_horácio_marco 11
(xávega; torreira; companha do marco; 2011)

o princípio da incerteza


por momentos os cisnes de novo

por momentos os cisnes de novo

éramos jovens e voávamos
pelos dias
sem sobressaltos de amanhã
éramos um bando
voávamos assim

que ontem dentro do hoje?

o voo é agora incerto
as asas foram perdendo penas
a pena que eu tenho
de não as ter
é saber que as tivemos

rasamos os dias
sem saber onde e quando
poisaremos

o agridoce dos dias

(ria de aveiro; torreira; s. paio; 2014)

ainda há sol


xávega: o arribar da mão de barca

xávega: o arribar da mão de barca

não sei que te diga hoje
senão o inventar de mais um dia
em que tu e eu fomos
memórias muitas nossas onde?

semeámos os dias de nós
semeaste-me de ti

caminhas agora a meu lado
e sou eu quem te dá a mão
te ensino o por onde
te digo o como

vem
ainda há sol e caminho
para andar
(torreira; companha do marco; 2011)

o arribar da mão de barca

os afectos e as malhas


o agostinho e o porfio a fechar o saco

o agostinho e o porfio a fechar o saco

mandei escrever no braço
o amor por ti
não esqueço
nunca esquecerei
és-me enquanto me for
eu aqui pescador

tece o tempo
as malhas que os afectos
acolhem

malhas largas
os deixam ir sem saudades de
outras miúdas são
nelas se guardam os mais caros
os mais perto do coração

quem amiúda
as malhas alargadas?

ahcravo_DSC_8989_agostinho trabalhito_marco 1
(torreira; companha do marco; 2011)

sou mais um


um por todos e todos

um por todos e todos

do muito andado
ficou o ser daqui
sem aqui ter nascido
que é esta a terra onde as raízes
mergulham

é esta a minha gente

o sangue que me correr nas veias
enquanto
carreia sal destas águas
e das outras onde tudo começou

ser eu deles
serem eles de mim
sentimos alguns
sentimos muitos
sentimos os que

por isso me dói
tudo e tanto
por isso não assisto
sou mais um

(ria de aveiro; torreira; corrida de chinchorros; s paio 2014)

no dia mundial da fotografia


a manga cresce sobre a praia

a manga cresce sobre a praia

a luz existe

por mais ínfima

 

luminosos

os amigos

mãos rostos gestos

histórias sem tempo

 

o instante prolongado

na contemplação do registo

a memória

 

a luz cresce

no abraço nos afectos

nas raízes mais fundas

sou todos aqui hoje

 

(torreira; companha do marco; 2014)

ahcravo_DSC_0386_ti augusto_alar_marco 14