os moliceiros têm vela (15)


a palavra e o silêncio

a palavra e, ao longe, o silêncio

a palavra e, ao longe, o silêncio

um homem calado
é uma estátua fúnebre
plantada numa praça

as pombas agradecem
mais um poiso
e de branco a vestem

amanhã dirão de ti
o teu silêncio de hoje

herança amarga
a tua

a palavra enche o tempo e o espaço

a palavra enche o tempo e o espaço

(ria de aveiro; torreira; s. paio, setembro, 2014)

os moliceiros têm vela (14)


era uma vez …… num país longe da murtosa

o a rendeiro a mostrar o que vale

o a rendeiro a mostrar o que vale

avô, onde nasceste?
na murtosa, meu filho
posso ver no face?
podes filho, está lá

avô, que barco é este?
qual meu filho?
o que está na página da tua terra
esse, meu filho, não sei
acho que deve ser um barco novo
no meu tempo eram os moliceiros

então não era este barco, avô?
não, filho, já te disse que não conheço
mas tu estavas lá quando apareceu este barco?
estava, filho
e deixaste que a tua terra tivesse como símbolo
um barco que não conheces?

mostra-me uma foto de um moliceiro

tão lindo!

sabes filho, nunca imaginei que um dia
tivesse um neto que me fizesse esta pergunta

olha avô agora é tarde para ti
mas se me arranjares a foto de um moliceiro
vou pô-la na minha capa
para um dia dizer aos meus filhos
que na terra do meu avô havia
o barco mais belo do mundo:

o moliceiro

avô, eu gosto muito de ti
mas ……

e ficou em segundo lugar, grande ti zé, em 3 regatas, ganhou 2

e ficou em segundo lugar, grande ti zé, em 3 regatas, ganhou 2

(ria de aveiro; regata do s. paio; setembro, 2014)

porque vai haver um amanhã

crónicas da xávega (34) – um homem


de que massa és feito, massa?

de que massa és feito, massa?

quantos homens são
um homem?

não há azinheiras
à beira mar
nem se ouve o cante
de mais ao sul
a solidão morre na areia
sem outra voz
que a do homem
da corda

enterram-se os pés
pesado o fardo
traiçoeiro o caminho
mas um homem
um homem

quando deixa de o ser?

com a massa do massa, não se faz mais nenhum

com a massa do massa, não se faz mais nenhum

(torreira; companha do marco; 2012)

os moliceiros têm vela (12) – a propósito


para onde uns vão, já outros de lá regressam

para onde uns vão, já outros de lá regressam

“já vi fracassar o que era mais razoável
e triunfar o que era mais absurdo”

J. W. Goethe

entre o preto e o branco, quantos níveis de cinzento?

entre o preto e o branco, quantos níveis de cinzento?

(ria de aveiro; regata do s. paio; 2014)

postais da ria (51) – sou murtoseiro


 muito dura a vida na ria

muito dura a vida na ria

a minha gente
fez da água terra

atravessou o mar
em busca de outras terras

a minha gente
é desta terra
mas muitos
aqui não nasceram

a minha gente
fala de amor
quando diz

sou murtoseiro

o olhar só vê a beleza, não vê a dor

o olhar só vê a beleza, não vê a dor

(ria de aveiro; torreira)

postais da ria (50) – da liberdade


a sobrevivência na ria de aveiro

a sobrevivência na ria de aveiro

ser em cada dia
as mãos por dentro
limpas de brumas

caminhar
solto de amarras
compromissos silenciosos
aspirações irreveladas

a liberdade é um grito
contra os muros
um voo puro de ave
num céu desconhecido

nada mais te digo

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(ria de aveiro; torreira; cabrita baixa)

murtoseiros


o ti zé rebeço prepara a vela do seu moliceiro. irá ganhar a regata

o ti zé rebeço prepara a vela do seu moliceiro. irá ganhar a regata

cuidam da palavra
como se da vida
guardam a palavra
dada

filhos da terra
para longe foram
que outra vida
quiseram aos seus dar

foram tudo
para serem alguém
foram tantos
sempre muitos

regressaram cansados
à raiz dos dias
à memória sofrida
do pão pouco
da partida

são murtoseiros

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(torreira; regata da ria, junho, 2014)

os moliceiros têm vela (7) – mudam-se os tempos ……


moliceiros no s. paio, anos 90

moliceiros no s. paio, anos 90

farão para aí uns dois anos, pelo verão, fazia eu o meu passeio pela beira ria quando, no areal em frente ao estaleiro do mestre zé rito, dou pelo domingos da grila a fazer uma caldeirada de enguias.

ele e um grupo de amigos tinham ido fazer uns lanços de chincha, para fazer uma caldeirada que, agora ao lume, perfumava aquele pedaço de praia remoçada.

de repente vieram-me à memória os tempos em que ia com a família, para a ilha do amoroso, fazíamos uns lanços de chincha e havia sempre enguias para saborear numa caldeirada à maneira.

levávamos as batatas, os temperos, talheres, toalhas, bebidas e pão. as enguias eram apanhadas na hora, lavadas e amanhadas à beira ria. havia areia na ilha e era com ela que se agarravam as enguias para serem amanhadas.

um brasido, uma panela, os saberes culinários dos meus tios césar e arcênsio, e a caldeirada era saboreada por uma família que a ria juntava.

foi essa memória que o domingos reavivou com a sua caldeirada. perguntou-me se queria almoçar com eles, mas eu já tinha almoçado, não recusei foi a prova do molho: estava boa. claro que a receita do domingos, era a receita do domingos, tinha-lhe até permitido ganhar um primeiro prémio num concurso de caldeiradas de enguias – palavras dele.

ora bem, eu tinha na minha posse a receita da caldeirada de enguias à murtoseira, deixada pelos meus tios avós e que o meu pai passou a escrito e eu guardei. para a publicar faltava-me apenas uma foto para a ilustrar. claro que aproveitei.

único problema, a receita do domingos leva pimentos e a tradicional, que eu transcrevi, não, mas a ideia estava lá. além disso os pimentos passavam meio desapercebidos na imagem.

no dia 25 de fevereiro, de 2013 publiquei no meu blog ahcravo.com um artigo intitulado “caldeirada de enguias à murtoseira”, ilustrado com a foto da caldeirada do domingos.

houve então quem pegasse no facto de a foto ter os pimentos para se indignar, porque a receita tradicional não os tinha.

interessante que os puristas, que então reclamaram pelo facto de verem, lá perdidos, uns pedaços de pimento, gostem agora da nova imagem de marca do município, tão fiel que é à traça de um moliceiro.

mudam-se os tempos …… ou será que mudou mais alguma coisa

ahcravo_Scan20116

(torreira, s.paio)