os moliceiros têm vela (23)


como eu gosto deles

velas ao vento, pouco, deslizam

velas ao vento, pouco, deslizam

o seu lugar favorito
é a janela virada ao sol
atentos observam

de tudo bebem e se fazem
são
o repositório por excelência

rígido o corpo atento
olhos abertos
buscam a presa do dia

da janela registam
um deslize
um passo em falso
um quase erro

súbito saltam e

falo dos gatos

pinto-os e são mais meus

pinto-os e são mais meus

(torreira; regata do s. paio; setembro, 2012)

crónicas da xávega (38)


as mãos

a saco aproxima-se da praia, os bordões apertam as mangas. quem sabe se peixe?

a saco aproxima-se da praia, os bordões apertam as mangas. quem sabe se peixe?

regresso sempre às mãos
às mãos e ao peso
que sobre elas
tudo

ao pão suado salgado
sofrido esmifrado

aos braços ferramenta
aos escravos da fome
dos filhos do hoje
do manhã do nunca
do sonho
do desespero
da esperança

regresso sempre às mãos
nem sempre
vazias

as cores da esperança, do esforço, do salgado suor dos homens do mar

as cores da esperança, do esforço, do salgado suor dos homens do mar

(torreira; companha do marco; 2012)

os moliceiros têm vela (22)


dos amigos

como se num baile

como se num baile

sê verdadeiro com todos
os amigos
o tempo dir-te-á quem

uma pedra bateu na janela
estilhaçou o vidro
o vento bateu-te no rosto

atirada de dentro da casa comum
por mão amiga dita
feriu-te mais o sentir que o saber

joeira os homens
como o agricultor o milho
não desistas de ti

há mais caminhos que pedras

dancem e brilhem os olhos de tanto

dancem e brilhem os olhos de tanto

(torreira; regata do s. paio, setembro; 2014)

postais da ria (56)


falo de ti

os árduos caminhos do pão

os árduos caminhos do pão

admito que penses
sei que existes
e por isso deves

admito que tenhas opinião
sei que existes
e por isso deves

admito que deves
admito que penses
até admito que admitas
que eu pense que tu existes
e a tua opinião
é escrava dos teus

interesses

pesados os passos, perdidos

pesados os passos, perdidos

(ria de aveiro; torreira; cabrita de pé)

postais da ria (54)


eis a questão

o silêncio da ria convida

o silêncio da ria convida

ser ou não ser
não é a questão
ambos são

fazer ou não fazer
essa sim
a grande questão

faz-se o homem como caminho
fazendo-se
fazendo

o silêncio que a ria respira
é uma forma de ser
o silêncio que do homem transpira
é o seu não ser

eis a questão

a beleza da ria surpreende

a beleza da ria surpreende

(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (17)


os moliceiros têm vela (17)

voa meu barco voa

o sermar já nas mãos do zé papa-lamas

o sermar já nas mãos do zé papa-lamas

há um barco menina
vogando nas águas da ria
cabelo ao vento
corpo aberto ao sal

voa meu barco voa
não deixes que te cortem as asas
és belo demais

de bica erguida
corta o tempo a direito
que mais não é que outro vento

deixa os homens não o serem
e sê tu mesmo se contra eles

ahcravo_DSC_5881_sermar zé papa-lamas
(ria de aveiro; regata da ria; junho, 2014)