palavras


 

 

 

o moliceiro manuel silva recuperado pelo mestre zé rito

o moliceiro manuel silva recuperado pelo mestre zé rito

que de novo trazem
as minhas palavras
para além de minhas serem?
já tudo foi escrito
mortos estão os mestres

novidade
se há no que escrevo
é o facto de ser eu a escrevê-lo
prazer
se há no que escrevo
é tu o entenderes e fazeres teu
o sentir que nelas vai

se escrevo é apenas porque
me é tão necessário
(embora por vezes me canse de)
como respirar
é falar com ninguém falando para muitos

parto com o que trouxe
palavras
(ria de aveiro; torreira)

ir ao mar com o marco (6)


 

largados os rolos, o calão inicia o largar da rede

largados os rolos, o calão inicia o largar da rede

 

largados já foram todas os rolos do reçoeiro, chegámos ao local definido pelo arrais para fazer o lanço. para tentar a sorte, para tentar ser ouvido por deus nas preces que fez ao largar.

a distância da costa a que se faz o lanço depende da “intuição” do arrais, ou do resultado de lanços anteriores da companha ou de outras vizinhas.

é claro que quanto mais longe da costa forem lançadas as redes, mais área é “varrida”, maior a probabilidade de um cardume ser apanhado, de  mais peixe “vir” na rede. mas, e isto é muito importante, quando se trata de pesca artesanal, é a sorte que decide. de outros factores falarei noutro momento.

o calão da manga do reçoeiro vai ser lançado ao mar, repare-se na função de “passadiço encaminhador” desempenhada por um bordão, que um camarada segura e se apoia numa furação feita na beirada do barco.

tudo agora é lento, preciso, o motor quase parado, o silêncio é interrompido somente por algum reparo do arrais no largar das redes.

este é, para mim, o momento que justifica o ter vindo. a sensação de não estar em lado nenhum e em toda a parte, é agora.
(torreira; companha do marco;2011)

ser no instante


dentro das bateiras, homens e mulheres. foram à ameijoa ou ao berbigão. viveram para continuar a viver. estou na ria sem lá estar

 sei do tempo o ter sido
o ser ainda hoje o agora
o instante tudo o que

regresso sempre
aos mesmos locais
e já nada é o que recordo
revivo e não sou já
nada é

fui onde já não
aí permanece a memória
a viagem é irrepetível

viver é tão só
ser no instante

dentro das bateiras, homens e mulheres. foram à ameijoa ou ao berbigão. viveram para continuar a viver. estou na ria sem lá estar

(torreira)

ir ao mar com o marco (5)


 

 

e o reçoeiro vai saindo do barco enquanto nós entramos pelo mar

e o reçoeiro vai saindo do barco enquanto nós entramos pelo mar

vamos agora mar adentro, o reçoeiro corre por bombordo, pelo bordão que o ampara para que não se fira e siga sem nós.

 

vêem-se os rolos de corda do reçoeiro, na metade da ré do barco, por baixo dos quais estão as mangas.

 

note-se que o barco está na perpendicular à praia e na direcção do tractor que ala o reçoeiro.

 

cada vez mais longe da praia, mais perto do silêncio e, quem sabe, de algum cardume de carapau que encha o saco.

 

 

(torreira; companha do marco; 2011)

ir ao mar com o marco (4)


 

o reçoeiro laçado na bica da ré

o reçoeiro laçado na bica da ré

 

no registo anterior mostrava-se o reçoeiro com uma volta dada no escalamão de estibordo, para ficar preso enquanto o barco navega paralelo à costa.

neste registo, feito noutra ida ao mar, o arrais marco deu, na bica da ré, uma volta ao reçoeiro, para o prender. esta é a prática mais habitual.

o mesmo processo é utilizado no arribar do barco, só que agora a cala (corda) é a mão de barca, prendendo-a ou largando-a o arrais controla a aproximação do barco da praia, esperando boas ondas que, ao jeito do surf, o levam até à areia.

 

 

(torreira; companha do marco; 2011)

ir ao mar com o marco (3)


rumo ao norte

rumo ao norte

continuamos a navegar para norte, paralelos à praia. o reçoeiro vai amarrado com nó simples no escalamão de estibordo  e faz um arco, bem visível no mar.

na praia, o tractor do reçoeiro corre pela areia, arrastando a zorra com o pessoal do reçoeiro.

acompanha o barco até ele virar para poente, mar adentro.

começa depois a alar o reçoeiro e mantém-no tenso durante todo o processo de alagem.

a companha de mar está a postos e a uma ordem do arrais, que vai ao motor, lá iremos.

 
(torreira; companha do marco; 2011)

ir ao mar com marco (2)


o horácio a ler o mar

o horácio a ler o mar

 

 

à minha frente o horácio, a quem ao princípio apelidei de filósofo sem lhe saber o nome, olha o mar.

olha e vê, adivinha o onde, pensa o como. ele é o homem mais à proa, dele podem ser algumas indicações para quando o barco se fizer ao largo.

caminhamos, se assim se pode dizer, paralelamente à praia e em direcção ao norte, largar a rede a norte, deixar que ela venha para sul com a corrente dominante e fazer com que o saco chegue a terra no mesmo sítio de onde o barco partiu e tudo estará a postos.

essa a arte da arte

 

(torreira; companha do marco; 2011)

confissão


deixar morrer, recuperar ou vender para os canais de aveiro?

chega o dia em que conjugar
os verbos no pretérito
é forma quotidiana de
falar dos dias
somos mais o que fomos do
que o que pensamos vir a ser

somos porque fomos
e no que fomos o termos sido
seja um sorriso hoje
a saudade não cabe no tempo contado
cabe no tempo a descontar
por não haver tanto quanto houve

caminho cansado por vezes
mas com os bolsos cheios de dias
distribuo sorrisos quando digo de mim
histórias que podem parecer inventadas
mas que como eu

estão vivas

deixar morrer, recuperar ou vender para os canais de aveiro?

(ria de aveiro; torreira)