ir ao mar com o marco (1)


 

 

encostado ao castelo da proa vai um homem com máquina fotográfica

encostado ao castelo da proa vai um homem com máquina fotográfica

 

quando o mar permite e o arrais consente, lá vai o fotógrafo dentro do barco, sentir o silêncio do mar e documentar o fazer do lanço.

neste registo pode-se ver que o barco navega paralelo à costa, em direcção a norte, procurando uma boa entrada.

pela bica da ré, o vitó vai controlando a primeira corda do reçoeiro que, neste caso é mais fina que os restantes rolos – não vai ser necessária para alar o aparelho, destina-se somente a permitir que o barco faça a entrada mais a norte. depois é recolhida e enrolada separadamente.

o mar estava calmo, por isso me deixaram ir, por isso fui. que fotografar pancadas de mar, de terra, é uma coisa, levar com elas em cima …não é conveniente, nem o arrais pode correr esse risco.

 

(torreira; companha do marco; 2011)

 

as raízes


uma bateira aproxima-se enquanto me afasto

uma bateira aproxima-se  e eu… abraço raul

 

os rostos os gestos

as palavras os abraços

surgem ágeis

 

porém os nomes

fogem-me

 

a memória

os anos desgastaram-na(me)

 

para além do querer

o ser assim

esta coisa cheia de tantos

sem nome já

onde resistem imagens e emoções

 

como se chama?

 

alguns

reconstrução penosa e lenta

vêm vindo pela mão

da imagem e enchem-se de si

de mim de nós

a palavra forma-se sem pressas de

o nome regressa

sem mais ajuda

 

mas

como esquecer as raízes?

 

 

2011, um ano inovador para a xávega na torreira


 

um saco a secar e outro na zorra. sempre prontos

um saco a secar e outro na zorra. sempre prontos

 

2011 é um ano que serve de referência a qualquer história da prática da xávega na torreira, e que passa sem margem de dúvida pelas alterações introduzidas na companha do marco.

1. composição da companha

tradicionalmente as companhas da torreira eram compostas por gente da terra (marco e zé murta) ou de ovar (pepolim).

nas companhas da torreira, os homens oscilam entre a ria e o mar, consoante o que estiver a dar mais ganho. sendo o mar incerto, por feitio, e a ria incerta conforme o tipo de pescaria disponível e as interdições.

não é por isso fácil, manter uma companha pronta a trabalhar sempre que o mar permite. nem sempre o pessoal arrisca um dia no mar, quando na ria há ganho garantido.

em 2011, o marco decidiu ir buscar pescadores a cortegaça e a esmoriz, que se juntaram aos membros da companha que, sendo da torreira, só se dedicavam à xávega, no tempo da safra. a forma como foi constituída a companha em 2011, é inovadora em relação ao tradicional da torreira.

2. a muleta

também neste aspecto o marco inovou. em lugar da muleta tradicional, de uma só vara, ou de optar por uma muleta em metal em forma de “V”, como na praia de mira, adoptou um sistema, da sua autoria, que é constituído por duas varas de madeira, com extremidades adaptadas para encaixar em “cápsulas” fixas a bombordo e a estibordo, na metade traseira do barco e ao tractor. delas falarei em detalhe noutra altura

 

(torreira; companha do marco; 2011)

para ti, mãe


 

 

no cabeço da ria, dois homens cirandam (joeiram) ameijoa. longe de mim e eu deles

no cabeço da ria, dois homens cirandam (joeiram) ameijoa. longe de mim e eu deles

 

no joeirar do tempo
não encontro nenhum dia em que
o teu nome se não inscreva
dizer-me é dizer-te
ser é seres

a nitidez seria ficção
neste reler agora dos percursos
os anos somaram-se e nós neles ainda
cada vez mais carregados de memórias
risos lágrimas beijos ternura atritos
ilusões e desilusões

somos tudo
porque tudo fomos sendo
a perfeição fica para quem mentir
é uma certa forma de reinventar o passado
e (desen)cantar o amor

ofereço-te os sorrisos
e vou guardando as lágrimas
certamente não serei o que quererias
que tivesse sido

mas não é isso
o que acontece entre o filho que se fez
e o que a mãe para ele sonhou ?

ouve mãe: eu sou

dos moliceiros


moliceiro “dos netos”, à vara o seu proprietário, o ti abílio carteirista

os moliceiros sempre tiveram três formas de se deslocarem na ria:

– com vento, à vela

– sem vento

1- à vara
2- à sirga (ajudada ou não por vara)

sem vento e se andava por dentro dos canais da ria, onde a vara calava, um dos camaradas ia para terra, atava uma corda, a que se chamava sirga, ao barco (golfião ou onde pudesse) e os dois iam levando o barco.

se a falta de vento ocorria onde a vara não calava, era somente com a ajuda corda que o barco era arrastado pela ria. do nome da corda, à forma de tracção, ficou a designação: andar à sirga

moliceiro “dos netos”, à vara o seu proprietário, o ti abílio carteirista

bota!


 

 

barco de mar maria de fátima

barco de mar maria de fátima

à porta do mar
não se bate
nem se pergunta
se se pode entrar

entra quem sabe
porta dentro
a casa invade
toma por suas
janelas e paredes

haver dentro delas
pão que fará sorrir
quem em torno da mesa
é motivo que baste
para que o arrais grite

bota!

 

(torreira; companha do marco; 2010)

o encontro


ao fundo o ti alfredo bitaolra, o alfredo amaral enrola a corda da calima

ao fundo o ti miguel bitaolra, o alfredo amaral enrola a corda da calima

não se desfazem os nós
que o mar fez
entrelaçaram-se as vidas
enquanto o forem
tempo houver

os que chegam
chegaram há muito
eram outros
quando
lembro-me de miúdos
a gatinhar da areia

os que partem
não partem nunca
afastam-se apenas
para serem o outro
o que foram
na memória contada
à mesa dos dias
onde entre dois copos
recrescem nas palavras

não se despedem nunca
marcam encontro onde

(torreira; companha do marco; 2010)

talhar o aberto


 

obrigado, tina rodrigues

aurora brandão

não sei o que não sei
e o não saber não custa
porque o não sei

o cultivar da ignorância
não é a ignorância do cultivado
é saber até onde posso

impossível saber tudo
bom saber muito
óptimo saber que sei

mas
já nem isso
perco-me demais
para me encontrar um pouco

não sei o como
sei que funciona
um dia vou saber mais
para ficar a saber o mesmo

talvez
fique feliz
talvez

 

(ria de aveiro; toreira; porto de abrigo)

 

obrigado tina rodrigues

o princípio da incerteza


alar da solheira (joão costeira)

estou de novo em plena ria
o joão ala as redes
suspenso do que nelas emalhado
poderá vir
terá largado num sítio bom?
terá tido sorte?

não há certezas
para além do saber da arte

o princípio da incerteza
pode ter sido enunciado por um físico
aplicado às ciências quase exactas
mas é dele que a pesca artesanal se faz
sem saber de ciência alguma

o joão continua sem pressas
braçada a braçada
a rede entra no barco

nada mais lhe resta que ter tido
sorte

(ria de aveiro; torreira; alar da solheira)