vive


são dois moliceiros e vêm à vara, o vento adormeceu

são dois moliceiros e vêm à vara, o vento adormeceu

 

escuta de novo

o silêncio

a beleza adivinha-se

senta-te dentro de ti

espera

 

deixa que os teus sentidos

se resumam a um só

a visão

vê tudo como se nunca mais

é único

és único

 

nada se repete

e tu

tu estás aqui agora

 

sorri apenas

 

 

(ria de aveiro; torreira)

 

 

pancada de mar na praia


 

barco de mar, maria de fátima

barco de mar, maria de fátima

o movimento lento do barco para entrar na água faz-se quando acontece um “liso”, entra o que pode e aguenta as pancadas necessárias até que surja novo “liso” que lhe permita avançar mais, ou a largar definitivamente.

as ordens do arrais são para terra – tractor e regeira – e para os homens do barco, todos têm de “aguentar” e manter o barco firme e perpendicular às ondas.

tudo se tornará mais rápido e fácil com alteração da muleta. a seu tempo veremos como.

até lá: “aguenta!!!!!!!!”

 

(torreira; companha do marco; 2010)

o arrais marco silva


 

 

marco silva

marco silva

 

em 2005, depois de ter regressado do luxemburgo, onde esteve emigrado, iniciou a sua vida como arrais e dono de uma companha de xávega.

ao barco que comprou e recuperou deu o nome da mãe, maria de fátima.

desde então tenho-o acompanhado sempre que estou na torreira e somos bons amigos.

a publicação dos registos da companha é feita sequencialmente, estão a chegar ao fim os registos mais relevantes conseguidos no anos de 2010, quando se aproxima a safra de 2014. tem sido assim deste então.

um abraço marco

(torreira; companha do marco; 2010)

o oiro da ria


anfíbia esta gente

anfíbia esta gente

 

a riqueza da ria tem variado ao longo do tempo: o sal, o peixe – nomeadamente as enguias-, o moliço, os bivalves.

nos últimos anos com o quase desaparecimento das enguias, o escassear do choco,  do linguado e da solha, têm sido os bivalves a matar a fome das gentes da ria e arredores.

a ameijoa, chamada “japónica”, que se tem reproduzido de forma surpreendente, é a espécie mais apanhada.

os preços por que são  comprados pelo revendedor, que tudo decide – quando, quanto e por quanto -, ainda vão dando para que as famílias sobrevivam nestes tempos de crise.

muitos são os que do desemprego transitam para a ria.

as licenças de mariscador, atribuídas a bateiras, estão congeladas motivando um aumento do preço de venda de bateiras com licença.

a cabrita baixa, apesar de dura, é a arte onde homens e mulheres povoam literalmente a ria, desde o instante que a “vara de apalpar” mostra que a água já chega só até ao peito, com a maré a vazar, até que seja apanhada a “encomenda” ou a enchente impeça que se continue a apanha.

isto claro nas zonas e nas épocas permitidas pelas autoridades.

(ria de aveiro; torreira; cabrita baixa)

irmãos


 

 

alberto trabalhito (trovão) e agostinho trabalhito (canhoto)

alberto trabalhito (trovão) e agostinho trabalhito (canhoto)

 

nem sempre é fácil juntar os dois num registo. ao remo ambos se preparam para o momento em que o barco larga da praia e o motor ainda não cala. são instantes em que só os remos impulsionam o barco até o motor ganhar calado e poder começar a trabalhar.

momento de grande perigo, embora o barco ainda tenho o fixe da muleta e da regeira.

as alcunhas – trovão e canhoto – alguém que saiba a história de cada uma, que a conte, eu agradeço.

(torreira, companha do marco; 2010)

massa


massa (joaquim rodrigues)

massa (joaquim rodrigues)

o seu nome, joaquim rodrigues, só há muito pouco o soube – coisas do face!

massa porquê? porque quando miúdo se lhe perguntavam de que gostava, respondia sempre: “massa com chouriça”.

as alcunhas têm sempre uma história por trás. a primeira ganha-se quando se nasce, a herdada. com o a idade pode-se ganhar outra, aquela a que se ganhou direito por se ser quem se é. pode demorar tempo, mas algo acontecerá e ela surgirá.

o massa é um espanto. ele canta, faz malabarismos, conta histórias hilariantes, sabe “mandar umas bocas”, é um dos maiores braços de trabalho da torreira. sempre alegre é capaz de dispor bem qualquer um.

no mar, um braço do massa é muito mais que um, é meia companha, quase um tractor, em cima de um palco dá show, na ria a cabrita é um brinquedo nas suas mãos.

a alcunha da minha família, que já não faz parte das existentes no dia a dia actual era/é “gorim”. gosto dela e por isso a ponho a seguir ao meu nome, embora saiba que esta teimosia de querer ser o que o último já foi é só isso: teimosia.

não sei se serei alguma vez recordado como gorim, mas o google terá o registo.

(torreira; companha do marco; 2010)

 

pancada de mar no cabeço


 

aí vai o maria de fátima

aí vai o maria de fátima

 

 

passado o lago, a pancada surge de novo, só que agora no cabeço.

para ganhar o largo valem os homens nos remos e o arrais no motor.

só se ganha ao mar quando de novo em terra

ao remo vai o alberto trovão e o agostinho trabalhito, ao motor o arrais marco silva

 

(torreira; companha do marco; 2010)