estória da ria


 

jim

jim

esgota-se o gesto

no movimento
suspende-se a mão
no instante

a voz
queda-se por onde
os amigos
quem passa

quem sabe
das horas a
largar
alar
safar
arrumar?

feitas
as contas
a paga
não chega
para

partes e
são de mar
do alto
os dias de pão
que trarás
que comerão

(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)

8 de março de 2014 (1)


ana tripas a cabritar

ana tripas a cabritar

a cabrita baixa é uma das artes mais duras da ria de aveiro.

é uma arte mariscadora de arrasto pelo fundo que exige muita força de braço, jogo de cintura e muita resistência.

são frequentes as lesões no músculo do cotovelo, por isso a posição da mão que sobre ele se fecha.

o sofrimento é visível no rosto de ana tripas.

na ria é assim

(torreira; cabrita baixa; 2012)

não digas nada


o lançar da cabrita

o lançar da cabrita

 

não digas nada

queda-te onde

olha apenas

sente tudo

sente

 

o silêncio

por dentro

enche-se de

palavras

que

nunca dirás

porque nada dirão

do que viste

 

depois parte

não digas o como

não o saberás

diz que venham

tão só isso

 

não digas nada

 

(ria de aveiro; torreira; cabrita alta)

pancada de mar


barco de mar maria de fátima

barco de mar maria de fátima

são estes os momentos mais dramáticos e “fotográficos” da xávega, aqueles em que procuramos um momentâneo equilíbrio entre a amizade e a
admiração dos que dentro do barco vão, e a força do mar a espumar raiva.

é uma divisão entre o espectáculo e a amizade/admiração.

para o que der e vier, com eles e com todos para que saibam como é, o imaginem pelo menos: estou lá e procuro fazer o melhor. isso lhe devo como amigo.

se as faço a eles as devo, se não as faço melhor é porque é muito difícil ser-lhes semelhante na arte.

(torreira; companha do marco; 21010)

é urgente


torreira, porto de abrigo

torreira, porto de abrigo

 

inventar um país

para este povo

o que ergue a bandeira

mesmo se longe

o que deu o sangue

mesmo se errado

o que se deu todo

e se sente enganado

 

inventar um país

não é

destruir um povo

 

inventar um país

é ter de

se necessário

recomeçar de novo

 

é urgente

 

(torreira; porto de abrigo)

eu digo “ladrões!”


marco silva, albina e trovão

marco silva, albina e trovão

repararam as redes

aparelharam o barco

estudaram o mar

fizeram-se a ele

venceram-no de novo

lançaram a rede

regressaram a terra

arribaram e ganharam de novo ao mar

alaram o aparelho

suaram muito

foram todos e todos forma um

o saco trouxe peixe

ajoelharam-se

curvaram-se

suaram de novo

reaprenderam a contar

mediram escolheram

separaram sonharam

partem agora

para novo desafio

o dos homens

o do preço

da lota

ganham-lhes menos vezes

que às força indómitas do mar

chamam-lhe mercado

eu digo “ladrões!”

(torreira; companha do marco; 2010)