o homem queria
pescar um barco
sonhava
com uma cana na mão
arma sua única
sonhava
que um dia
não sabia quando
iria apanhar
um barco
peixe
era coisa
que todos
quem não sonha
assim
não sonhou nunca
(torreira; porto de abrigo)
esgota-se o gesto
no movimento
suspende-se a mão
no instante
a voz
queda-se por onde
os amigos
quem passa
quem sabe
das horas a
largar
alar
safar
arrumar?
feitas
as contas
a paga
não chega
para
partes e
são de mar
do alto
os dias de pão
que trarás
que comerão
(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)
a cabrita baixa é uma das artes mais duras da ria de aveiro.
é uma arte mariscadora de arrasto pelo fundo que exige muita força de braço, jogo de cintura e muita resistência.
são frequentes as lesões no músculo do cotovelo, por isso a posição da mão que sobre ele se fecha.
o sofrimento é visível no rosto de ana tripas.
na ria é assim
(torreira; cabrita baixa; 2012)
são estes os momentos mais dramáticos e “fotográficos” da xávega, aqueles em que procuramos um momentâneo equilíbrio entre a amizade e a
admiração dos que dentro do barco vão, e a força do mar a espumar raiva.
é uma divisão entre o espectáculo e a amizade/admiração.
para o que der e vier, com eles e com todos para que saibam como é, o imaginem pelo menos: estou lá e procuro fazer o melhor. isso lhe devo como amigo.
se as faço a eles as devo, se não as faço melhor é porque é muito difícil ser-lhes semelhante na arte.
(torreira; companha do marco; 21010)
inventar um país
para este povo
o que ergue a bandeira
mesmo se longe
o que deu o sangue
mesmo se errado
o que se deu todo
e se sente enganado
inventar um país
não é
destruir um povo
inventar um país
é ter de
se necessário
recomeçar de novo
é urgente
(torreira; porto de abrigo)
repararam as redes
aparelharam o barco
estudaram o mar
fizeram-se a ele
venceram-no de novo
lançaram a rede
regressaram a terra
arribaram e ganharam de novo ao mar
alaram o aparelho
suaram muito
foram todos e todos forma um
o saco trouxe peixe
ajoelharam-se
curvaram-se
suaram de novo
reaprenderam a contar
mediram escolheram
separaram sonharam
partem agora
para novo desafio
o dos homens
o do preço
da lota
ganham-lhes menos vezes
que às força indómitas do mar
chamam-lhe mercado
eu digo “ladrões!”
(torreira; companha do marco; 2010)