esta vida de pescador…..
(torreira; porto de abrigo)
sei do momento a beleza
bebo-a insaciável de tanta
sei-a agora só
sinto-a como se coisa irreal
fugaz sem palavras para
recordo-a sempre que
sei que jamais se repetirá
que vendidos foram os barcos
levados os mastros
cortadas as bicas
não sei se ainda pousam
amputados de si
na ria do faz de conta
um dia foi assim
na ria
o sonho brilhou
(ria de aveiro; torreira; 2010)
a mesa
o respeito pelo pão
oferta merecida pelo trabalho
e a graça de deus
a fé e a coragem as armas
o respeito
a cabeça sob o sol inclemente
coberta sempre
descobre-se à mesa e na casa do senhor
não serei crente
mas crença maior não há
que a da gente do mar
a crença nestas gentes crente
é o abraço que nos une
rente ao mar
lavo-me neles
(torreira; companha do marco; 2010)
os lanços da manhã deram raia, o almoço foi caldeirada.
o arrais marco silva e o agostinho foram os mestres cozinheiros, o resultado foi uma grande lanço sobre a mesa onde toda a companha se deliciou.
é tradição murtoseira que o cozinhar do peixe seja coisa dos homens, é tradição serem eles mestres cozinheiros de peixe. seja tradição ou não, o que é facto é que nuca comi caldeirada tão bem feita.
momentos como este são inesquecíveis
(torreira; companha do marco; 2010)
somos quantos quisermos
não quantos queiram que sejamos
seremos o que merecermos ser
ou o que de nós quiserem
se de nós a razão
se juntos
a força
ergueram o barco enorme
e eram minúsculos
juntaram-se
foram maiores que o barco
ergueram-no
aos homens da ria
aos homens do mar
ser só
só
é coisa estranha
(o virar do moliceiro no antigo estaleiro do mestre zé rito, torreira; 2009)

venho de muito longe
de onde os meus de perdem
na memória de terem sido
por serem diminutos na sua grandeza
homens e mulheres da ria e do mar
venho de muito longe
não estranhes por isso o meu cansaço
o desalento
as velas pandas
sem ventos de sonho
prenhes de memórias apenas
nada sou
que importa de onde venho
trago-te estes momentos
porque
são grandes de mais
só para mim
(regata da ria; torreira; 2011)
(muito gosto eu de meditar com a ria em fundo!)
se algo sou
és tu
que me lês
que vês o que vi
que tens nome quando não
ser só
pode ser
ser muitos
sendo um deles
quebrar o silêncio
romper fronteiras
levar tudo até onde
falar de nós
isso busco
nada mais
fique para outros a arte
que eu apenas quero
ver e sentir
(ria de aveiro; torreira)
ao longe, o ti manel joão carrega mais um saco de berbigão. quem dera o pagassem bem