marco valente


marco valente "marquito"

marco valente “marquito”

 

o “marquito” para se diferençar do arrais marco. teria nesta altura 17 anos e o mar já lhe era familiar como se coisa de brincar. era, e é, de ir a todas, desde que o deixem.

a ele devo a designação que me integrou definitivamente na companha, quando no fim das minhas férias me perguntou:

– agora para onde é que vai, ti cravo?

não é fácil adquirir este estatuto, não se tira em nenhuma universidade que não a da vida. o grau de “ti” só os mais velhos, que merecem respeito e são da nossa gente, a ele têm direito.

obrigado marquito por me teres incluído na família

 

(torreira; companha do marco; 2010)

xávega, o saco, as nassas e as caixas


 

 

 

o arrais marco  silva a apanhar peixe com uma nassa

o arrais marco silva a apanhar peixe com uma nassa

 

o peixe é apanhado do saco, no canto inferior esquerdo ainda se vê o porfio, com a ajuda de redenhos, com aro de metal, as nassas,  e despejado para caixas grandes.

depois é espalhado no atrelado ou num oleado, e escolhido para caixas mais pequenas – cerca de 10 kg cada – por tamanhos e espécies.

para ir para a lota o peixe tem de ser lavado, e há duas formas de o fazer: num depósito grande com água do mar, de onde é retirado com caixas de carregar fruta (por causa das aberturas por onde sai a água), ou colocado dentro destas caixas, que são depois mergulhadas em água.

depois de lavado o peixe é finalmente colocado dentro de caixas de plástico com capacidade para cerca de 10 kg, cada.

(torreira; companha do marco; 2010)

pescar em terra?


 

salvador rodrigues (tito) e a mulher partem para a faina

salvador rodrigues (tito) e a mulher partem para a faina

(meditação com a ria em fundo)
não te ofereço os dias
em que habitas
deram-te aos dias e neles
habitarás
e serás ou não

a casa será à tua medida
fa-la-ás se por ela fores

o pescador faz-se à ria
sem saber se de peixe virá servido
faz os dias onde a sorte
por vezes mora

jamais pescará em terra

 

(ria de aveiro; torreira)

xávega, a cavala


saco cheio de cavala

saco cheio de cavala

já o disse noutra altura que onde anda cavala, não há carapau, porque foge de ser comido. um lanço de cavala não é um lanço rentável, porque o mercado de consumo directo e da restauração, não a valorizam e o grande consumidor, o mercado conserveiro, depressa fica saturado e paga a preços baixos.

quando o salmão está na moda como peixe saudável, os inconvenientes do seu consumo já foram divulgados pelo investigador do ipma,Carlos Cardoso, na conferência do dia mundial da alimentação, em 2012, em na fundação calouste gulbenkian, alertou para o facto de este peixe, embora rico em ómega 3, também o é em ómega 6, ácido que tem um efeito pró-inflamatório em muitas doenças.

na mesma conferência o investigador catalão, José Domingo aconselha o consumo de peixes que “até têm um preço económico” como a sardinha, a cavala, a anchova, o biqueirão, ou de moluscos como a lula e o polvo….”. ver a notícia em:

 

http://www.publico.pt/sociedade/noticia/porque-e-que-e-melhor-comer-sardinha-do-que-salmao-1567566

 

uma das formas de apoiar os pescadores das xávegas da nossa costa passa pela promoção de pratos saudáveis que tenham por base a cavala.

é um desafio aos empresários de restauração das praias onde a xávega ainda se pratica. na figueira da foz, onde a cavala é proveniente da pesca das traineiras, esta promoção já é feita a nível local.

enviem-me receitas de pratos com cavala, acompanhadas de fotos, e eu divulgá-las-ei

 

(torreira; companha do marco; 2010)

 

zé pedro miranda


 

o paulo agarrrado à escota da vela do moliceiro

o zé pedro a agarrar a escota da vela do moliceiro

 

 

filho do alfredo miranda, a quem devo o manual do curso para arrais da ria e que muito jeito me tem feito, e neto do mestre zé rito – antigo moliceiro e actualmente mestre construtor de bateiras e moliceiros no estaleiro da torreira – o zé pedro é um verdadeiro homem da ria.

atento a toda as obras do avô, tem sempre um reparo a fazer, mas é a velejar e ao leme dos moliceiros que se sente bem.

aos 14 anos de idade, ao leme do moliceiro do ti manel valas, primo do avô, ficou em segundo lugar na regata do s. paio da torreira, de 2013.

é em putos como ele, com a tradição no sangue, a arte nas veias e a cultura que vão adquirindo na escola, que a ria continuará a viver.

 

(torreira; 2013)

xávega, o porfio


 

o agostinho trabalhito a cortar o porfio

o agostinho trabalhito a cortar o porfio

 

o saco do aparelho da xávega, é parcialmente fechado/cosido com uma linha mais grossa, de nylon, o porfio.

no fim de cada lanço o porfio é cortado para melhor se tirar o peixe e, depois de esticado na areia e seco o aparelho, porfia-se/fecha-se de novo o saco.

neste registo o agostinho tabalhito corta à navalha ( das que cortam como manda a lei ) o porfio, que ele depois voltará a coser.
(torreira; companha do marco; 2010)

o saco e a calima (1)


 

delmar viola

delmar viola, a desamarrar a calima

 
preso à extremidade do saco está o arinque/bóia que o sinaliza, a calime/a.

quando o saco chega à praia e está ser rebocada para lugar seguro, no momento em que a sua extremidade se torna visível, é preciso desamarrar a calime/a.

é isso que o delmar viola está a fazer

 

(torreira; companha do marco; 2010)

a fala silenciosa dos bois


 

 

mansa força bruta

mansa força bruta

 

somos agora outros
não tantos
não tão possantes
marinhões ainda
força
mansa e bruta
bois juntos
juntas de

memória de ter sido
nos genes tão só
cuidai disso quando
de nós quiserdes
o que fomos
sem o sermos

reviver não tem de ser
sofrer

(recriação da xávega, torreira, setembro 2013)

a lição


 

o fernando nuno a repara as redes da solheira

o fernando nuno a repara as redes da solheira

 

(o drama do redeiro

“quanto mais malhas faço
mais buracos ficam”)

 

sabe-te aqui
um aprendiz da vida
das coisas simples
que não carecem de escola outra

em cada dia
comer o pão
suado
é lição bastante
de sabedoria

ouve

(torreira; porto de abrigo)