amo


 

apanha de ameijoa japónica na torreira

 

amo

o meu amor não é porém

explicitado em carícias ou volúpias

acolhidas no seio de palavras

metáforas ou onomatopeias

ansiedades frustrações e quejandos

sentimentos

 

numa linha apenas

encontrar as palavras certas

afiadas prontas a cortar rasgar

desentupir a cegueira de cinzentas

figuras gaspáricas e coélhicas

 

monstros de spielberg

provocatoriamente depositados

em país longínquo dele e tão nosso

para nos impingirem histórias

do maléfico autor fmi/merkel

parceria infalível em qualquer filme de terror

 

amo

a limpidez líquida do suor

que ganhou o pão

assim as minhas palavras

 

cabrita alta_o documentário


joão manuel brandão

limpo de todos
os artifícios
o homem surge
dos confins de si mesmo
no resgate do pão

entre o esgar de dor
e o sorriso
ele existe
no abraço da vida
no silêncio da ria

pisa a fronteira
de si

———————

com o documentário

;

o nosso mar


(torreira; 2007)

cumpriram-se os dias
plenos de sal
séculos escritos sobre as ondas
um povo à beira mar
se fez e aí cresceu

aqui todo o destino tem sabor a espuma
escamas recobrem os homens
mulheres outras estas
as que o mar fez
 
restam poucos
restam muitos
restam os que são e sabem ser
pescadores
apanhados
nas malhas de uma europa
que não a sua
 
afogar-se-ão
ou não?

quem se faz ao mar e o vence
será que vai morrer a ver o mar crescer
sem o poder galgar?
 
falo de homens
não de burocratas
falo do nosso mar

quem vence o mar vence sempre