as medidas do tempo


(torreira; 2011; o descanso da guerreira)

contas o tempo
em máquinas
e outros artefactos

acaso pensaste
no tempo de ser?

quantas horas
tem um minuto de dor?
quantos meses
um dia de fome?
quantos anos
um sorriso de uma criança?

quantos séculos
se inscrevem
nos rostos crestados
pela terra e o sal?

são de gente
os ponteiros
do meu relógio

diverso tempo
este
onde a morte
espreita

o desígnio


conquistar os dias
um a um
vencer-se
para vencer
erguer-se

falo de homens
dos que muitos
a bordo de barcos nasceram
neles foram criados
e homens se fizeram
 
falo de moliceiros
nome dos homens
e dos barcos
que ambos se confundem
na labuta e no tempo
 
conquistar o futuro
sendo no presente
esse o desígnio

(regata da ria; 2011)

o moliceiro é bandeira


à vara ou à vela, são dois dos modos de impulsão mais vulgares do moliceiro
unem-se os homens
dão-se as mãos
fazem-se nós
limpa-se a sombra
renasce-se

o moliceiro
é bandeira
amor paixão
modo de vida foi
de memórias pleno
mais que eles
é todos os que antes o foram

uniram-se os homens
cuidem-se os que
ti zé rebeço, um homem da ria, a ria feita homem

estranha forma de pensar cultura


o vento
o norte pai dos dias quentes
da costa ocidental
nesse dia
não se fez sentir

lentos os barcos
sulcaram a ria
sem pressas de tempo
como se dele não soubessem

horas muitas
quase noite
quando a aveiro chegaram
mal sabiam então
que no ano seguinte
seria noite
logo pela manhã

e a regata
a regata
seria negra

que este é um país
onde se enterram os vivos
por ser mais fácil
cuidar dos mortos

chamam-lhe alguns
cultura

(regata da ria; 2011)

em 2012 a regata seria cancelada “por falta de verbas”

vem aprender a ria


raul bastos
um urso de peluche
na bica da proa da bateira
a coluna sofrida de tanto
um sorriso e um abraço
enormes

pescará ainda
enquanto o corpo
que outra arte não sabe
reparte o amor entre os seus
e a ria

 
por vezes queixa-se
mas de dores
reclama da balança
do intermediário
do roubo descarado do pão
transformado em carros de luxo

a democracia
ainda não chegou
à ria
aqui a dita dura
é ela que decide o quê
quando e por quanto

são estes os homens livres
aos olhos de quem chega
admira a beleza da paisagem
regista-a e divulga
mas é de lama
que se trata aqui

anda
vem aprender a ria

(torreira; 2008)