alfredo amaral


"sou feio mas sou moderno"
alfredo amaral
aqui te digo amigo
que me orgulho de te ter como
saber a tua história
o que foste  o que és
de pequenino aos pés da tua mãe
a ver trabalhar o mar
agora já homem
a dar duro no pão

o mar que ela agora não vê
a tua mãe alfredo
a ana
é agora tua filha
onde o mar é teu irmão
e pai

saber como és mais que tu
sabendo-te
sorrindo
jamais exigindo
quem conhecendo-te
te poderá dizer não?

que todos os filhos
sejam como tu
sem serem como tu
é desejo que fica
é palavra que deixo
é desejo

abraço-te
e sorrio
porque tu és feio
mas és moderno

quando há tantos modernos
horrorosos

(torreira; 2011)

o poema


moliceiro zé rito_torreira
o poema
nasce devagar
sem pressas
de ser
paciente
vai juntando palavras
dando colorido
aos dias que habita

o poema
é uma criança ainda
quando brinca na brancura
do papel
e faz sorrir quem o lê

escuta
fala-se
entrega-se
procura-se em

isso lhe basta
e já foi

(torreira)

para além de


vejo-me ainda no olhar
o outro
nas palavras
nos silêncios
descubro-me e descubro

escuto-me
ouvindo
eu sou já o
cresci em mim
ao sê-lo também

nos que me rodeiam
sou
com o prazer
de me ser
não sei de solidão
somos muitos em mim

seremos ainda
quando um não for
assim a memória de um tempo
para além de

(torreira)

mais eu que nunca


companha do marco, 14 de junho de 2012
estou muito longe
de tudo
muito perto
de mim
encho-me de mar
e não há palavras
que digam sequer parte
do que sinto

quem sou
é outro
sendo o mesmo que fui
mas muito maior que eu
lavei todo o meu corpo no mar
limpei-me das impurezas urbanas
reencontrei o vernáculo
dos homens que não viram as costas
às ondas

pesco neles o pão
para estas palavras poucas
e ofereço-vos
do muito que sou agora
o tanto que me ofertaram

estou muito longe
de tudo
mais eu que nunca

(torreira; 14 de junho de 2012)

a nossa gente


irene vasca, torreira

a nossa gente
come da terra os frutos
mais amargos
regados a suor
caminha sobre as águas
como se terra fosse

a nossa gente
partiu para onde onde não queria
sempre em busca
do que na terra não havia
avaro o mar negava
o que também a ria
falo do pão

a nossa gente
é anfíbia e sobrevive
no segredo dos dias
por onde passam
raros
raios de sol
trazidos de outros países

a nossa gente
cresceu fora da terra mãe
onde vem morrer
as saudades de aqui
não ter vivido

a nossa gente
é nossa
mesmo se esquecida
é nossa
mesmo se maltratada
é nossa

a nossa gente
é gente

o grito


reflexos marina pescadores torreira
recuso outro tempo
que não o meu
sou o agora e o aqui

na inquietação de
querer melhor

sou
a pedra
no vidro
o prego
no sapato
 
não mudo de passeio
mudam
não ponho máscaras
sou-me
irritantemente
por vezes sei e nunca
é demais

não procuro
encontro
reencontro
vomito
 
quisera ser
o grito

que povo é este ?


à espera . . .  e já se foram
talvez de palavras se faça
o discurso
mas com actos se concretiza
assim se faz o homem
tragam-me um

diz-me que terra é esta
onde já poucos morrem
porque menos nascem?
terra de partida
terra em que não há pobres
dizem
porque misérias muitas

os moliceiros esguios elegantes fermosos
os mais belos barcos do mundo
não eram barcos
eram casa
ave
pão na mesa

que povo é este que tem
de buscar as suas memórias
em arquivos de museus que não os seus
que povo é este que tão fraca gente
à frente tem

vou ainda ao meu encontro
no desencontro de estar aqui

(torreira e dois moliceiros que já não existem – nem o dono)

o moliceiro é pessoa


painel do moliceiro “pardilhoense”
o artista traça meticulosamente
as linhas que nos trazem o rosto
a  memória das palavras
simples
das mensagens
complexas

dir-te-ei um livro
vogando sobre águas mansas
levando cultura na proa
pandas as velas
cheias de poemas
 
o moliceiro
é pessoa

(o pintor josé manuel oliveira a pintar um dos painéis da proa do moliceiro “pardilhoense”)

ergo-me árvore


o peso das raízes
prende a nuvem ao sonho
gota a gota
sobre os dias cai o ser aqui

de novo
reencontro nas redes
as mãos
safando limos caranguejos bastos

a vida
depois do grito negro
do choco
na face

os homens são-me agora
mais próximos
deito-me ao comprido da ria
braços abertos
num abraço retido no fundo de mim

ergo-me por dentro
cresço árvore onde água

(o peso da solheira; torreira)

as mãos ainda e sempre


falo agora de outra escrita
de outras letras
de outras linhas
de outro poema
da vida

ainda e sempre
as mãos
serão destino dos olhos
construtoras de caminhos
e carícias
fábricas de pão
fêmeas
 
rudes e ásperas
ternas e solidárias
as mãos
rasgadas pelos sulcos
da ria
do mar
da terra
 
são ainda mãos
mães de pai de mãe
de dar
as mãos
 
olho-as
guardo-as no fundo de mim
para tas ofertar
como se oiro
como se sol

as mãos

(torreira)