barco de mar


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sábias mãos
do mar conhecedoras
foram concebendo o barco
a pedido
que é o mar que pede o barco
que o homem pede ao mestre

de mestre a aprendiz
de geração em geração
do diálogo entre mar e homem
homem e mar
o barco cresceu e diminuiu
transformou e se faz
 
engenharia esta de mestrança
onde o cálculo não de régua
mas de pau de pontos
e as peças de moldes herdados
 
que o mar pede o barco
que o homem o sente e o ajusta
que o diálogo o fez
 
barco de mar
do mar da nossa costa ocidental
da pancada
da onda
da mão

(torreira, 2009)

há mulheres aqui


ti miguel bitaolra e rui rapina
dão-se as mãos
dão-se as gerações
no amor ao mar
cresce-se com ele
dentro

atado aos pulsos
marcado nos rostos
salgando os pés
gatinhando na areia
 
no mar se fazem homens
no barco a iniciação das ondas
baptismo a pedido
há mulheres aqui
há mulheres aqui

no esticar da corda
no esforço conjunto
há mulheres aqui
onde a terra acaba
mas os homens não
 
há mulheres aqui

(torreira, 2007)

a vida do pescador


colher as redes da solheira
não têm outro relógio
que as marés
outra companhia
que a da mulher
filho ou parente

que esta arte
não dá para companheiros

são os últimos
pescadores da ria
têm todas as idades
começam novos
orgulhosos da primeira bateira
e acabam quando já não

correm o mundo
em busca do pão que a ria
já não dá
encontra-los no bacalhau
no arrasto
em todo o mundo
da islândia à terra do fogo
são senhores do mar

é esta a gente
da laguna
daqui partem
e são mestres
aqui chegam
para serem esburgados
pelos intermediários
 
-isto não é um poema
é a vida do pescador-

(torreira)

ser só ser


os rios das cores
no lento saborear
deste estar aqui
longe e perto de
ser só ser só

trazer na língua o sal
roubado algures

ter tudo sem nada
querer possuir
e ser feliz
por ser assim

olhar tudo e tudo ser
na alegria plena
de estar vivo e ver

as cores bailam-me
diante dos olhos
são rios que nascem
sem ânsias de foz

sorrio
por entre as nuvens
dos dias
inúteis
no lento saborear
deste aqui estar

(torreira; 2011)

xávega_os ganchos no arribar (II)


mais rápido

 aqui temos um exemplo em que se podem ver os ganchos já presos, mas com as cordas pendentes, a tracção ainda não foi iniciada e a demora fez com que o barco fosse colhido à ré, pela onda seguinte.

vê-se assim a importância da rapidez de execução deste procedimento, sob pena de poderem acontecer situações como esta, mais graves se a onda for maior ou ainda, em casos extremos, o barco dar de bordo.

o caminho das ondas


maria de fátima
 
curva-se o mar
à bravura dos homens
quebram-se sobre
o barco as ondas
e passam
 
seguem os homens
o seu destino
indiferentes
sabem que ainda não
 
um dia
cheios de tanto terem sido
será o último
ficará o vazio de não ser
alojado no não ir
 
o homem é
onde o mar também
 
(torreira; companha do marco; 2010)

as flores da virgem


a virgem na bica da proa_renovação do ramo

a fé dos pescadores revela-se nos mais pequenos detalhes, mas há um, nas companhas de xávega, que é emblemático: a imagem do santo padroeiro (mais vulgar a nossa senhora de fátima) na bica da proa rodeado por um ramo de flores.

serão de plástico as flores, que impensável seria naturais, mas mesmo assim vão-se degradando com a fúria dos elementos, por isso, de tempos a tempos, é preciso renovar o ramo e, quiçá a imagem – embora isto seja muito raro, só em caso de acidente e destruição da imagem.

é  o momento em que os homens do mar acarinham a sua protecção como se de uma mãe.

(torreira; companha do murta 2006)

quando o mar trabalha na torreira


ti tiago branco (falecido)

vem mar
traz contigo
as marés as ondas

venham as gaivotas
na areia medrosas de tanta fúria
e deixem
pegadas que o vento apagará

juntos
caminharemos ao encontro
do amanhã

lá onde eu não estarei
falarão de mim
os murmúrios do vento
o rebentar das ondas

e
quem sabe
talvez os homens