quando o mar trabalha na torreira


susana_neta manel matos

atentos olhos
escutam movimentos

esperam a voz
a ordem o mando

tensas as cordas
fechado o cerco
as redes iniciarão
o regresso

maestro desta música
o arrais olha o mar
sente as correntes
no deslizar das bóias

na sinfonia das redes
os andamentos
é o mar que os dita
o arrais quem os traduz

assim aprendi
música
neste areal de luz

(torreira; século XX)

xávega – o recolher do peixe


KONICA MINOLTA DIGITAL CAMERA

o retirar o peixe do saco com recurso a “xalavares” é o primeiro passo dos últimos de um lanço.

a ele segue-se a escolha, a lavagem e o enchimento das caixas, que serão negociadas com o intermediário e/ou levadas à lota.

enganam-se aquele que pensam que o pescador ganha bem porque o peixe é caro. entre a venda ao intermediário e a venda ao público o preço pode ser multiplicado por mais de 10 vezes.

enquanto os pescadores não se organizarem e forem eles próprios a fazer a venda directa na lota, com exclusão de intermediários, ganham muito os que fazem pouco e ganham pouco os que trabalham muito.

mas isto não passa de um sonho, no que se refere à pesca artesanal. nunca houve organização e não é agora, quando são tão poucos, que vai haver. a subsistência da xávega, não é um milagre, mas é um mistério alimentado com muito suor e reformados.

(torreira; companha do murta; 2006)

 

 

longe de mim


trago no corpo
o sal do verão
bailes de mar
nos olhos

estou vivo
outono dentro de outono
continuo ainda
a ser corpo

virá a chuva
os dias mais curtos
o céu mais carregado
a angústia serena
agora

virá também o oiro
semeado nas vinhas
que não verei
porque longe do mar

tudo
o que é longe do mar
é longe de mim

até estas palavras
o são cada vez mais

(torreira; sol outonal)

o necas


(torreira; 2010)

responde pelo nome de necas, é o cão do alberto trabalhito (trovão).

cão de pesca, cão de pescador, acompanha o dono em todas as suas saídas para ganhar na ria o pão, nem sempre o melhor.

é um animal compenetrado nas suas funções e segue com atenção, quase como se fiscalizando e controlando, todas as acções dos donos.

neste registo íamos largar redes solheiras.

as rosas do orelhas


 
o amor dos pescadores da torreira às suas bateiras vai ao ponto de as decorar com os adereços mais belos, sejam eles religiosos (nas pinturas decorativas), seja nas cores com que as pintam, seja ainda no ponto mais alto e emblemático da bateira: a bica da proa.

 

o henrique “orelhas” – terá apelido de família certamente, mas é pela alcunha que toda a gente o conhece – prepara o ramo de rosas que irá colocar aos pés da senhora de fátima que encima a bica.

é esta a gente que nos faz sentir gente também e lastimar aqueles que “lá do seu império” os não acarinham e compreendem.

fica neste registo a minha singela homenagem a todos os pescadores da torreira que me recebem no seu meio como amigo e “da casa”.

(ria de aveiro; torreira; marina dos pescadores)

(torreira; marina dos pescadores; 2010)

s. paio 2010 _ regata das bateiras à vela


as bateiras da torreira

com a diminuição do número de moliceiros aparelhados para poderem participar em regatas ( alguém saberá porquê…. ), as bateiras são o grande festival de velejar na ria.

pelo s. paio, na torreira, realizam-se as únicas regatas de bateiras à vela da ria de aveiro, este ano vão decorrer no dia 3 de setembro, sábado, pelas 16h, dependendo da maré.

é um espectáculo a não perder, de terra ou no meio delas em plena ria.

(ria de aveiro; canal de ovar; torreira)