sabem a sal estes dias onde os olhos se prendem em que me perco no encontro de mim sou sal também
(torreira; 2011)
um urso de peluche na bica da proa da bateira a coluna sofrida de tanto um sorriso e um abraço enormes pescará ainda enquanto o corpo que outra arte não sabe reparte o amor entre os seus e a ria por vezes queixa-se mas de dores reclama da balança do intermediário do roubo descarado do pão transformado em carros de luxo a democracia ainda não chegou à ria aqui a dita dura é ela que decide o quê quando e por quanto são estes os homens livres aos olhos de quem chega admira a beleza da paisagem regista-a e divulga mas é de lama que se trata aqui anda vem aprender a ria
(torreira; 2008)
"sou feio mas sou moderno" alfredo amaral
aqui te digo amigo que me orgulho de te ter como saber a tua história o que foste o que és de pequenino aos pés da tua mãe a ver trabalhar o mar agora já homem a dar duro no pão o mar que ela agora não vê a tua mãe alfredo a ana é agora tua filha onde o mar é teu irmão e pai saber como és mais que tu sabendo-te sorrindo jamais exigindo quem conhecendo-te te poderá dizer não? que todos os filhos sejam como tu sem serem como tu é desejo que fica é palavra que deixo é desejo abraço-te e sorrio porque tu és feio mas és moderno quando há tantos modernos horrorosos
(torreira; 2011)
vejo-me ainda no olhar o outro nas palavras nos silêncios descubro-me e descubro escuto-me ouvindo eu sou já o cresci em mim ao sê-lo também nos que me rodeiam sou com o prazer de me ser não sei de solidão somos muitos em mim seremos ainda quando um não for assim a memória de um tempo para além de
(torreira)
estou muito longe de tudo muito perto de mim encho-me de mar e não há palavras que digam sequer parte do que sinto quem sou é outro sendo o mesmo que fui mas muito maior que eu lavei todo o meu corpo no mar limpei-me das impurezas urbanas reencontrei o vernáculo dos homens que não viram as costas às ondas pesco neles o pão para estas palavras poucas e ofereço-vos do muito que sou agora o tanto que me ofertaram estou muito longe de tudo mais eu que nunca
(torreira; 14 de junho de 2012)
a nossa gente
come da terra os frutos
mais amargos
regados a suor
caminha sobre as águas
como se terra fosse
a nossa gente
partiu para onde onde não queria
sempre em busca
do que na terra não havia
avaro o mar negava
o que também a ria
falo do pão
a nossa gente
é anfíbia e sobrevive
no segredo dos dias
por onde passam
raros
raios de sol
trazidos de outros países
a nossa gente
cresceu fora da terra mãe
onde vem morrer
as saudades de aqui
não ter vivido
a nossa gente
é nossa
mesmo se esquecida
é nossa
mesmo se maltratada
é nossa
a nossa gente
é gente
recuso outro tempo que não o meu sou o agora e o aqui na inquietação de querer melhor sou a pedra no vidro o prego no sapato não mudo de passeio mudam não ponho máscaras sou-me irritantemente por vezes sei e nunca é demais não procuro encontro reencontro vomito quisera ser o grito