que povo é este ?


à espera . . .  e já se foram
talvez de palavras se faça
o discurso
mas com actos se concretiza
assim se faz o homem
tragam-me um

diz-me que terra é esta
onde já poucos morrem
porque menos nascem?
terra de partida
terra em que não há pobres
dizem
porque misérias muitas

os moliceiros esguios elegantes fermosos
os mais belos barcos do mundo
não eram barcos
eram casa
ave
pão na mesa

que povo é este que tem
de buscar as suas memórias
em arquivos de museus que não os seus
que povo é este que tão fraca gente
à frente tem

vou ainda ao meu encontro
no desencontro de estar aqui

(torreira e dois moliceiros que já não existem – nem o dono)

o moliceiro é pessoa


painel do moliceiro “pardilhoense”
o artista traça meticulosamente
as linhas que nos trazem o rosto
a  memória das palavras
simples
das mensagens
complexas

dir-te-ei um livro
vogando sobre águas mansas
levando cultura na proa
pandas as velas
cheias de poemas
 
o moliceiro
é pessoa

(o pintor josé manuel oliveira a pintar um dos painéis da proa do moliceiro “pardilhoense”)

ergo-me árvore


o peso das raízes
prende a nuvem ao sonho
gota a gota
sobre os dias cai o ser aqui

de novo
reencontro nas redes
as mãos
safando limos caranguejos bastos

a vida
depois do grito negro
do choco
na face

os homens são-me agora
mais próximos
deito-me ao comprido da ria
braços abertos
num abraço retido no fundo de mim

ergo-me por dentro
cresço árvore onde água

(o peso da solheira; torreira)

as mãos ainda e sempre


falo agora de outra escrita
de outras letras
de outras linhas
de outro poema
da vida

ainda e sempre
as mãos
serão destino dos olhos
construtoras de caminhos
e carícias
fábricas de pão
fêmeas
 
rudes e ásperas
ternas e solidárias
as mãos
rasgadas pelos sulcos
da ria
do mar
da terra
 
são ainda mãos
mães de pai de mãe
de dar
as mãos
 
olho-as
guardo-as no fundo de mim
para tas ofertar
como se oiro
como se sol

as mãos

(torreira)

barco de mar


SONY DSC
sábias mãos
do mar conhecedoras
foram concebendo o barco
a pedido
que é o mar que pede o barco
que o homem pede ao mestre

de mestre a aprendiz
de geração em geração
do diálogo entre mar e homem
homem e mar
o barco cresceu e diminuiu
transformou e se faz
 
engenharia esta de mestrança
onde o cálculo não de régua
mas de pau de pontos
e as peças de moldes herdados
 
que o mar pede o barco
que o homem o sente e o ajusta
que o diálogo o fez
 
barco de mar
do mar da nossa costa ocidental
da pancada
da onda
da mão

(torreira, 2009)

há mulheres aqui


ti miguel bitaolra e rui rapina
dão-se as mãos
dão-se as gerações
no amor ao mar
cresce-se com ele
dentro

atado aos pulsos
marcado nos rostos
salgando os pés
gatinhando na areia
 
no mar se fazem homens
no barco a iniciação das ondas
baptismo a pedido
há mulheres aqui
há mulheres aqui

no esticar da corda
no esforço conjunto
há mulheres aqui
onde a terra acaba
mas os homens não
 
há mulheres aqui

(torreira, 2007)

a vida do pescador


colher as redes da solheira
não têm outro relógio
que as marés
outra companhia
que a da mulher
filho ou parente

que esta arte
não dá para companheiros

são os últimos
pescadores da ria
têm todas as idades
começam novos
orgulhosos da primeira bateira
e acabam quando já não

correm o mundo
em busca do pão que a ria
já não dá
encontra-los no bacalhau
no arrasto
em todo o mundo
da islândia à terra do fogo
são senhores do mar

é esta a gente
da laguna
daqui partem
e são mestres
aqui chegam
para serem esburgados
pelos intermediários
 
-isto não é um poema
é a vida do pescador-

(torreira)

ser só ser


os rios das cores
no lento saborear
deste estar aqui
longe e perto de
ser só ser só

trazer na língua o sal
roubado algures

ter tudo sem nada
querer possuir
e ser feliz
por ser assim

olhar tudo e tudo ser
na alegria plena
de estar vivo e ver

as cores bailam-me
diante dos olhos
são rios que nascem
sem ânsias de foz

sorrio
por entre as nuvens
dos dias
inúteis
no lento saborear
deste aqui estar

(torreira; 2011)

xávega_os ganchos no arribar (II)


mais rápido

 aqui temos um exemplo em que se podem ver os ganchos já presos, mas com as cordas pendentes, a tracção ainda não foi iniciada e a demora fez com que o barco fosse colhido à ré, pela onda seguinte.

vê-se assim a importância da rapidez de execução deste procedimento, sob pena de poderem acontecer situações como esta, mais graves se a onda for maior ou ainda, em casos extremos, o barco dar de bordo.