torreira
que sustem o homem?
as flores da virgem
a fé dos pescadores revela-se nos mais pequenos detalhes, mas há um, nas companhas de xávega, que é emblemático: a imagem do santo padroeiro (mais vulgar a nossa senhora de fátima) na bica da proa rodeado por um ramo de flores.
serão de plástico as flores, que impensável seria naturais, mas mesmo assim vão-se degradando com a fúria dos elementos, por isso, de tempos a tempos, é preciso renovar o ramo e, quiçá a imagem – embora isto seja muito raro, só em caso de acidente e destruição da imagem.
é o momento em que os homens do mar acarinham a sua protecção como se de uma mãe.
(torreira; companha do murta 2006)
quando o mar trabalha na torreira
quando o mar trabalha na torreira
atentos olhos
escutam movimentos
esperam a voz
a ordem o mando
tensas as cordas
fechado o cerco
as redes iniciarão
o regresso
maestro desta música
o arrais olha o mar
sente as correntes
no deslizar das bóias
na sinfonia das redes
os andamentos
é o mar que os dita
o arrais quem os traduz
assim aprendi
música
neste areal de luz
(torreira; século XX)
xávega – o recolher do peixe
o retirar o peixe do saco com recurso a “xalavares” é o primeiro passo dos últimos de um lanço.
a ele segue-se a escolha, a lavagem e o enchimento das caixas, que serão negociadas com o intermediário e/ou levadas à lota.
enganam-se aquele que pensam que o pescador ganha bem porque o peixe é caro. entre a venda ao intermediário e a venda ao público o preço pode ser multiplicado por mais de 10 vezes.
enquanto os pescadores não se organizarem e forem eles próprios a fazer a venda directa na lota, com exclusão de intermediários, ganham muito os que fazem pouco e ganham pouco os que trabalham muito.
mas isto não passa de um sonho, no que se refere à pesca artesanal. nunca houve organização e não é agora, quando são tão poucos, que vai haver. a subsistência da xávega, não é um milagre, mas é um mistério alimentado com muito suor e reformados.
(torreira; companha do murta; 2006)
longe de mim
trago no corpo
o sal do verão
bailes de mar
nos olhos
estou vivo
outono dentro de outono
continuo ainda
a ser corpo
virá a chuva
os dias mais curtos
o céu mais carregado
a angústia serena
agora
virá também o oiro
semeado nas vinhas
que não verei
porque longe do mar
tudo
o que é longe do mar
é longe de mim
até estas palavras
o são cada vez mais
(torreira; sol outonal)
o soltar do arinque
os arinques
o necas
(torreira; 2010)
responde pelo nome de necas, é o cão do alberto trabalhito (trovão).
cão de pesca, cão de pescador, acompanha o dono em todas as suas saídas para ganhar na ria o pão, nem sempre o melhor.
é um animal compenetrado nas suas funções e segue com atenção, quase como se fiscalizando e controlando, todas as acções dos donos.
neste registo íamos largar redes solheiras.










