as rosas do orelhas


 
o amor dos pescadores da torreira às suas bateiras vai ao ponto de as decorar com os adereços mais belos, sejam eles religiosos (nas pinturas decorativas), seja nas cores com que as pintam, seja ainda no ponto mais alto e emblemático da bateira: a bica da proa.

 

o henrique “orelhas” – terá apelido de família certamente, mas é pela alcunha que toda a gente o conhece – prepara o ramo de rosas que irá colocar aos pés da senhora de fátima que encima a bica.

é esta a gente que nos faz sentir gente também e lastimar aqueles que “lá do seu império” os não acarinham e compreendem.

fica neste registo a minha singela homenagem a todos os pescadores da torreira que me recebem no seu meio como amigo e “da casa”.

(ria de aveiro; torreira; marina dos pescadores)

(torreira; marina dos pescadores; 2010)

s. paio 2010 _ regata das bateiras à vela


as bateiras da torreira

com a diminuição do número de moliceiros aparelhados para poderem participar em regatas ( alguém saberá porquê…. ), as bateiras são o grande festival de velejar na ria.

pelo s. paio, na torreira, realizam-se as únicas regatas de bateiras à vela da ria de aveiro, este ano vão decorrer no dia 3 de setembro, sábado, pelas 16h, dependendo da maré.

é um espectáculo a não perder, de terra ou no meio delas em plena ria.

(ria de aveiro; canal de ovar; torreira)

quando o mar trabalha na torreira_marine


                                          (torreira; anos 90)
olho o peixe
salta na rede
estrebuchando na agonia do sufoco

também isto devo aprender
a linguagem da morte
não me será jamais estranha

gostaria de brincar
com aqueles peixes prateados
as minhas bonecas de menina
vivas

mas
este não é lugar de brincar

no meu rosto
a mulher que deste tamanho já sou
contempla o trabalho que a rede encerra
em que participei
com as migalhas que tinha para dar

como são grandes estes dias!
com eles cresço e fico maior
mulher do mar


(do meu livro "quando o mar trabalha")

quando o mar trabalha na torreira_henrique da bóia


(henrique da bóia; torreira; anos 90)

há quanto tempo não sonho

afinal o mar não é de vinho
e o ti borras nunca foi à américa

ficámos onde nascemos

lembro-me de
criança ainda
ajudar a minha mãe na escolha do peixe
ver no meu pai
o eu de amanhã

as dunas
eram então o meu esconderijo
agachado no seu ventre espreitava
o futuro

era o mar
que me chamava

efémero


espuma do tempo
isto somos
tudo e nada
o momento o diz

onde fomos
ainda seremos?
onde somos
seremos o que fomos?

quando não formos
quem será
o que fomos?

sento-me
em frente ao mar
não penso
sento-me
apenas

isso sou
hoje
aqui
onde estou

um homem sentado
a olhar o mar

(torreira; 2010)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

quando o mar trabalha na torreira_flávia


sou
a que nunca ficou em casa
nunca foi ao mar

sou
a que ajuda a empurrar o barco
a que o espera em terra

sou
a que escolhe o peixe
e entre duas picadas de peixe aranha
se levanta
e nasce na areia um outro rio

sou
a mãe
a mulher
a filha
a viúva

sou
a mulher da arte
que a arte não lembra

(torreira; anos 90)

quando o mar trabalha_incerto fruto


é este o fruto
que o mar dá

prateadas cores
rebrilhantes ao sol
falam de mar

aguardam o transporte
as caixas

atento o arrais
calcula o lanço

deu
não deu
volto hoje
espero outra maré

é este o fruto
incerto 
que do mar tiro

 (sabes das mãos e dos frutos? lembras-te do eugénio?)