xávega
o momento
alfredo amaral
"sou feio mas sou moderno" alfredo amaral
aqui te digo amigo que me orgulho de te ter como saber a tua história o que foste o que és de pequenino aos pés da tua mãe a ver trabalhar o mar agora já homem a dar duro no pão o mar que ela agora não vê a tua mãe alfredo a ana é agora tua filha onde o mar é teu irmão e pai saber como és mais que tu sabendo-te sorrindo jamais exigindo quem conhecendo-te te poderá dizer não? que todos os filhos sejam como tu sem serem como tu é desejo que fica é palavra que deixo é desejo abraço-te e sorrio porque tu és feio mas és moderno quando há tantos modernos horrorosos
(torreira; 2011)
companha do marco, em colaboração com jorge bacelar
são estes os heróis
que o hino canta
ainda o sol não nasceu
já o arrais lê o mar
na pauta das ondas
estuda ritmos e pausas
lisos, lhes chama
afinada a companha
estudada que está a sinfonia
todos a executam a seu mando
vão seguros
ao encontro do incerto pão
aprenderam a ler o mar
antes das primeiras letras
sem o saberem
deixam escrito na espuma dos dias
um canto imenso à grandeza
de ser homem aqui
onde por vezes parece que já não
Poema de ahcravo
mais eu que nunca
estou muito longe de tudo muito perto de mim encho-me de mar e não há palavras que digam sequer parte do que sinto quem sou é outro sendo o mesmo que fui mas muito maior que eu lavei todo o meu corpo no mar limpei-me das impurezas urbanas reencontrei o vernáculo dos homens que não viram as costas às ondas pesco neles o pão para estas palavras poucas e ofereço-vos do muito que sou agora o tanto que me ofertaram estou muito longe de tudo mais eu que nunca
(torreira; 14 de junho de 2012)
o colocar da muleta
barco de mar
sábias mãos do mar conhecedoras foram concebendo o barco a pedido que é o mar que pede o barco que o homem pede ao mestre de mestre a aprendiz de geração em geração do diálogo entre mar e homem homem e mar o barco cresceu e diminuiu transformou e se faz engenharia esta de mestrança onde o cálculo não de régua mas de pau de pontos e as peças de moldes herdados que o mar pede o barco que o homem o sente e o ajusta que o diálogo o fez barco de mar do mar da nossa costa ocidental da pancada da onda da mão
(torreira, 2009)
há mulheres aqui

dão-se as mãos dão-se as gerações no amor ao mar cresce-se com ele dentro atado aos pulsos marcado nos rostos salgando os pés gatinhando na areia no mar se fazem homens no barco a iniciação das ondas baptismo a pedido há mulheres aqui há mulheres aqui no esticar da corda no esforço conjunto há mulheres aqui onde a terra acaba mas os homens não há mulheres aqui
(torreira, 2007)
o dia do rui
companha do marco (2009)
20 de junho de 2009
o mar estava manso e os mais temerosos arriscaram uma saída.
de entre todos o herói da festa foi o rui – de luva erguida.
será este “o dia em que o rui foi ao mar”
ganhar o pão
chega o saco à praia
com ele a esperança
de um bom lanço
farto de carapau
paga de tantas horas
de suor duas vezes salgado
chega o saco à praia
mas a mais das vezes
só rede
que peixe
as traineiras de noite
tomaram de assalto
invasoras da costa onde
outrora piratas
também
é este o momento
em que o mar
pagará ou não
a quem no mar tentou
mais uma vez
ganhar o pão
(torreira; 2007)








