tem de mudar


quantos anos a olhar o chão

ana?

 

da barraca para o mar

o alfredo criança ainda

a teus pés de mãe

 

são de areia os teus caminhos

de areia o chão da barraca

de areia a tua vida

esboroa-se por entre os dedos

o  trabalho

sem outros frutos que não o parco peixe

 

quantos anos a olhar o chão

ana?

quantas como tu de cabeça

baixa?

 

habitas ao pé do sonho de muitos

mas só isso

que teu é o pesadelo dos dias

de seres da casa o homem

e de teres criado o teu filho

a força de braço

só os teus

 

será já tarde para ti

a mudança

mas nunca é tarde para quem te vê

sentir que tem de

 

(torreira; companha do marco; 2010)

não há liso (o vitor revisitado)


vitor caravela

 
como são longos os dias
longe do mar
olho o teu retrato
e estás de novo ao meu lado
 
um sorriso nos lábios
a alegria de estar aqui
no mar
no nosso mar, vítor
 
há dias em que a tristeza
e a memória
fazem maré cheia
e são ondas e ondas
em que se não vislumbra um liso
 
porque tem de ser assim?
 
vamos resistindo
deixando pelo caminho
amigos, família
a solidão cresce
vítor
 
como são longos os dias
longe do mar
a solidão cresce
vítor
a solidão cresce

serem aqui gente


as mulheres-meninas da torreira

 

mulheres-crianças-meninas

ao peso das redes e das cordas

crescem na areia

beijando o mar

 

sabem das férias

o sabor a sal

a escamas no rosto

o corpo inteiro é

 

resistem

que mais se lhes não pede

não as chamam

vêm

não lhes pedem

fazem

 

crianças-meninas-mulheres

sorriem brincam são mais

no serem aqui

gente

 

(torreira; companha do murta)