ser
o teu tempo chegará
quando tempo for
sê sem tempo
(torreira; companha do marco: 2011)
nota dos dias que correm
ontem morreram quatro pescadores num arrastão à entrada da barra da figueira. problemas de concepção da barra.
ontem um locutor de televisão tentou assassinar o bom nome de um cidadão. problemas de concepção do mundo.
hoje não sei que país é este onde tudo isto pode acontecer e ficar impune.
(torreira; companha do marco; 2014)
de como não devia ser
não sei se te sabes
se sou eu que te não sei
mas é nestes desencontros
que o presente morre
e se assassina o futuro
não me comovem as lágrimas
que não nascem das mãos
escrevo-te pregos e arame
instrumentos cortantes
ferramentas tuas de sangue fazer
o meu tempo é hoje
o teu também o será
mas são dias tão diferentes
(arribar; torreira; companha do marco; 2015)
as mãos do meu país
as mãos do meu país
sangram o pão que comem
andam descaídas desempregadas
cansadas depois de tanto e agora
as mãos do meu país
falam pouco ouvem muito calam
há quem queira matar a memória
das mãos do meu país
as mãos do meu país
no domingo vão sair à rua
quero ouvi-las a dizer o que querem
as mãos do meu país
(torreira; companha do marco; 2015)
escorro água e sal
desfaz-se a pedra em água
corre por entre os dedos areia
as paredes tremem e é de vento
o telhado onde antes casa
digo-te que não mereço
como não merecem aqueles
a quem nada resta senão
o serem como são por não
poderem ser de outro modo
voltaremos um dia e será manhã
até lá esperamos que o sol
se ponha devagar
e seja noite quando for
escrevo-te do exílio de mim
da memória de um tempo outro
que já não existe nem voltará
ao passado o que dele é
o futuro dir-se-á no tempo certo
o vento é de sul
o mar entrou no barco
escorro água e sal
(torreira; companha do marco; 2015)
a mão de barca ao alador
quando o barco de mar arriba, traz com ele a “cala” – corda – chamada “mão de barca”, com a qual o fecho da xávega se fecha em terra.
o levar da extremidade da “mão de barca” até ao alador, tem de ser feito a força de braços, é um momento delicado porque a corda tem de se manter tensa e o esforço é enorme.
todos os que podem são necessários para este momento.
(torreira; companha do marco; 2014)