crónicas da xávega, torreira (13)


 

o ti américo e a chegada da manga do reçoeiro

o ti américo e a chegada da manga do reçoeiro

 

queria pensar menos
o tempo das máquinas
não é fim do tempo dos homens
é um outro tempo
onde o mesmo homem é outro

queria pensar menos
viver mais à tona dos dias
boiar por aí
sem âncora
nem raízes

que tempo é este
onde o pão para uns
é uma mesa onde milhões se perdem
em condicional
ou domiciliariamente acomodados
enquanto para outros
é arrancado com raiva aos dias
que começam com o sol?

queria pensar menos
– o ti américo, acelera no alar da manga do reçoeiro e todo ele é o instante –

 

(torreira; companha do marco; jun, 2014)

crónicas da xávega, torreira (12)


 

o barco de mar maria de fátima, do arrais marco silva

o barco de mar maria de fátima, do arrais marco silva

dos homens

 

não basta crescer no tempo

ser maior no tamanho

contar mais dias

 

o homem

ou cresce por dentro

ou é a desilusão de o não ser

 

“que coisa é o homem?”

perguntava drummond

apetece dizer de alguns

nada mais que coisa

nada mais e muito já é

 

estendo os olhos pela areia

sigo rastos efémeros

e pergunto

 

porquê?

 

(deitado na areia, o maria de fátima ouve-me cúmplice e leva-me para longe de tudo isto. estou no meio de um mar, onde só ele sabe levar-me. sonho sem vontade de acordar)

crónicas da xávega, torreira (11)


 

 

a escolha e eu ... ando por aí

a escolha e eu … ando por aí

 

meditação à beira mar

 

olho agora tudo com o desprendimento
de quem nada mais tem a perder
que a si mesmo
e é tão pouco

se da vida esperei muito
dos homens nunca esperei tanto
mas é tão pouco o que deles vejo hoje
que ser mais um
é pedir de menos a mim próprio

não trago a verdade no bolso
nem a história é coisa que dono tenha
olho sinto e não entendo

continuo a gritar
dentro de um pesadelo

quem me roubou o sonho?
(torreira; companha do marco; jun, 2014)

crónicas da xávega, torreira (10)


 

 

 

há quem trabalhe e quem queira mandar no que desconhece

o delmar viola repara o saco da xávega

falta-lhe a cadeira de coiro
recostável com rodinhas
falta-lhe o ar de quem julga saber
e por isso fala do alto da sua ignorância pesporrenta
ditando leis de que ignora
o como e porquê
não é um senhor

sabe que sem redes reparadas
não há peixe
que sem ele não há janta

corpo miúdo franzino
seco e com genica
conhece quase toda a gente
não é de silêncios
uma conversa é sempre bem vinda

chama-se delmar
de alcunha é viola

não sei há quanto tempo
o conheço
(torreira; companha do marco; jun, 2014)

crónicas da xávega, torreira (8)


 

 

 

o maria de fátima

o maria de fátima

estão lusas as águas
aquietado o mar
longe o peixe

é este o tempo de terra
da espera

dias virão
de peixe haver
o mar trabalhar

vejo ouço e sei
espero que nos dias a vir
não aconteça
o que não desejo

mas
como aqui se diz

“vós é que sabeis”

 
(torreira; companha do marco; jun,2014)

 

 

notícias da xávega, torreira (7)


 

arribar não é coisa fácil, para quem em terra tem de garantir a segurança dos que no barco

arribar não é coisa fácil, para quem em terra tem de garantir a segurança dos que no barco

 

chama-se aurora
traz nas veias sangue de arrais
faustino de nome próprio
homem de estórias muitas
com nome de rua
e descendentes abonde

 
chama-se aurora
mulher do mar da torreira
senhora do seu nariz
senhora de um físico
que põe em respeito
qualquer um
e faz dela

 

mulher de mar
mulher da torreira
na companha

 

(torreira; companha do marco; jun 2014)

 

 

notícias da xávega, da torreira (3)


 

 

quim baía

quim baía

os dias correm com sol
e norte muito à tarde
o costume nesta costa
vai-se ao mar quando
se pode
pesca-se o que a sorte ditar

“deus ajuda quem faz por isso”
a voz do arrais

o quim sorri
sorri sempre
não lhe conheço outra expressão
no rosto

gosta de fotografia
da sua
mais que nenhuma outra
vê todas as que pode
sorri

hoje
é o dia de ser aqui
o rosto da notícia
(torreira; companha do marco; 2014)