a regeira e o bordão


 

 

 

ana amaral e alfredo neto

ana amaral e alfredo neto

nos barcos que se fazem ao mar apoiados por uma muleta de apoio simples, no golfião de estibordo (norte) é amarrada uma corda, chamada na torreira de “regeira”, que faz fixe à proa e é amarrada a um bordão espetado na praia e seguro por um dos camaradas.

este fixe impede que as correntes de norte virem a proa do barco para sul, deixando de estar perpendicular à ondulação criando uma situação de perigo. para isso tem de ser mantida tensa recorrendo a mudanças de posição do bordão.

concluído largar o homem da proa larga a regeira que é recolhida pelo camarada de terra e levada para sítio seguro.

em 2010, lembro-me, o ti alfredo neto era o homem de terra da regeira.

a carregar a regeira vão a ana amaral e o ti alfredo neto.
(torreira; companha do marco;

as longas manhãs da xávega


 

cacilda brandão

cacilda brandão

 

pelas 4 da madrugada o arrais vai até às dunas ouvir e sentir o mar. se estiver de feição chama a companha, agora por telemóvel, e ao raiar do dia já o barco está no mar.

são 3 os factores de que depende uma manhã de xávega:
– o estado do mar
– a qualidade e a quantidade da captura
– o preço de venda

se os 3 forem favoráveis, a companha poderá fazer até 3 lanços de manhã, o que implica trabalhar sem parar até ao meio dia, uma hora.

intervalo de hora a hora e meia para almoçar e volta-se de novo ao mar, se este o permitir. os lanços da tarde dependem, como os da manhã, dos mesmos factores.

as manhãs da xávega são longas quando se pode e se justifica pescar.
– o ti chico brandão, já falecido, foi pai de 9 filhos, a cacilda é sua filha e mulher de mar. braço de trabalho como poucos-

(torreira; companha do marco; 2010)

xávega, os rolos de corda


ti miguel bitaolra

ti miguel bitaolra

o reçoeiro e a mão de barca são das duas cordas (cordadas) que fazem fixe no calão e através das quais se faz a alagem do aparelho.

cada uma destas “cordadas” é consituída pela união de “rolos de corda” ou “peças de corda” com 220 metros de comprimento.
o arrais marco, chega a utilizar 8 a 9 rolos num lanço, ou seja a rede é largada entre 1760m e 1980m da costa.

o enrolar dos rolos, no momento da alagem e a sua disposição correcta durante o aparelhar do barco, garantem um desenrolar sem problemas durante o “largar” do aparelho.

(torreira; companha do marco; 2010)

pancada de mar


barco de mar maria de fátima

barco de mar maria de fátima

são estes os momentos mais dramáticos e “fotográficos” da xávega, aqueles em que procuramos um momentâneo equilíbrio entre a amizade e a
admiração dos que dentro do barco vão, e a força do mar a espumar raiva.

é uma divisão entre o espectáculo e a amizade/admiração.

para o que der e vier, com eles e com todos para que saibam como é, o imaginem pelo menos: estou lá e procuro fazer o melhor. isso lhe devo como amigo.

se as faço a eles as devo, se não as faço melhor é porque é muito difícil ser-lhes semelhante na arte.

(torreira; companha do marco; 21010)

mãos de peixe


mãos de peixe

mãos de peixe

 

é de cavala o lanço

farto e fraco

pesado na rede

parco no rendimento

 

os olhos dizem onde

as mãos vão como

 

aparta-se algum carapau

peixe de escolha

(assim dizem do robalo do linguado)

pela ponta da cauda

as lacraias

(peixe aranha)

um apertar do dedo se picado

pausa para conter a dor

 

o saber destas mãos

que sem qualquer protecção

são peixes no mar deles

 

mãos limpas

por mais que

mãos de peixe

mãos de mar

 

mãos

 

(torreira; companha do marco; 2010)

xávega, o largar da muleta


barco de mar maria de fátima

barco de mar maria de fátima

ao largar de forma tradicional, já o escrevi, o barco de mar tem três pontos de fixe em terra:

– a corda do reçoeiro

– a regeira (uma corda curta)

– a muleta

os três permitem que o barco se mantenha perpendicular à praia e às ondas, firme e com a bica da proa pronta a furar o mar. o perigo está no barco “dar de querena”, ou seja ficar de paralelo às ondas, o que fará com que vire com facilidade.

a muleta tradicional em madeira, apoia-se numa peça de metal existente na proa e é largada pelo arrais quando sente que o barco já não corre risco por estar “bem apontado ao mar”.

é o momento que aqui se regista, pode-se ver a flutuar a muleta, na zona inferior direita, que é puxada para terra por uma corda a que está presa.

(torreira; companha do marco; 2010)