lavrar o mar


praia de mira_companha do zé monteiro

praia de mira_companha do zé monteiro

 

já foi tempo de serem os homens, vieram mais tarde os bois

agora é tempo de tractores, a agricultura essa, é a mesma que o francês, ferdinand dennis, tão bem descreveu e que raul brandão citou no livro “os pescadores”

“– Que estranho país é este onde os bois vão lavrar o próprio oceano?”

(praia de mira; companha do zé monteiro”

espera


 

s. josé

s. josé

 

 

aqui onde o mar é tudo

que eu em terra

este varado

sequer poiso de gaivotas

nada

nada: é ser isto

 

um barco

é coisa feita para mar e ondas

gritos e sobressaltos

viagens mesmo se quase ali

 

não

não esta coisa deitada à espera

do sol

dos homens

 

à espera de ser

 

(praia de mira; companha do zé monteiro; barco de mar s. josé)

sempre


 

agostinho trabalhito (canhoto)

agostinho trabalhito (canhoto)

 

canhoto de alcunha

não é parco nas mãos ambas

ele é redes

ele é remos

ele é tudo o que o arrais pedir

ele é o sorriso

frente às vagas

o abraço que abraça todos

 

à tona do rosto

o mar salga-nos os olhos

só de o ver

ele é o rosto de todos os rostos

da gente de mar

 

ele é o rosto

dos pescadores portugueses

 

agostinho

vamos?

onde queiras cravo

 

é assim sempre

 

 

(torreira; companha do marco; 2010)

marco silva o arrais dos mil ofícios


reparar o saco

reparar o saco

o arrais marco silva e o camarada agostinho trabalhito (canhoto) reparam os estragos feito aos saco durante o lanço.

um dos motivos porque esta companha consegue subsistir deve-se ao facto do arrais marco silva, ser um homem dos “não sei quantos” ofícios: construção naval, reparação de máquinas e motores, fazer e reparar redes e, sendo sempre o arrais da companha.

confesso que conheço poucos, como ele, que vão “a todas”

(torreira; companha do marco; 2010)

o carregar do saco na zorra (I)


o saco voa, a zorra é pista

o saco voa, a zorra é pista

braços abertos cega
correu mar
trouxe peixe ou não
na boca imensa
estômago ávido

leve
muito leve
vogou

peixe se o houve
dele cuidaram para a outra fome
e de festa foi o ter havido

esvaído no areal
pesado de tanta areia e mar
espera dos homens os braços
que o libertem
e o levem onde o sol
o tornará de novo ave
para novas viagens

a zorra
a zorro o levará

(torreira; companha do marco; 2010)