crónicas da xávega (109)


falo a língua do sal

a escolha é sábia

a escolha é sábia

não digo da pedra
que é água
do vento que areia

digo-te que o que é
não deixa de ser
só porque o nomeias
de forma diversa

lutei pelos dias claros
em todos os olhos
não semeies nuvens
onde sol poisou

falo a língua do sal

saber escolher é saber do ganho

saber escolher é saber do ganho

(torreira; companha do marco; 2012)

postais da ria (111)


hoje é o dia

o espelho da ria

o espelho da ria

um dia
verás o que nunca viste
um dia
o inesperável acontecerá

então
dirás não o que sabes que é
mas o que gostarias que fosse
com isso tentarás confundir
o que queres com o que tens

então
quererás que a tua mentira
vença a evidência dos factos
seja a verdade que não existe
para continuares a ser o que já não

seres o que não és foi coisa
que te levou à ilusão de tentares ser
o que sendo nunca serias

hoje é o dia de ouvires
que já te ouvimos quanto baste

uma ria de homens e barcos, a minha ria

uma ria de homens e barcos, a minha ria

(torreira; regata das bateiras; s. paio; 2012)

postais da ria (109)


o pescador escolhe bivalves com o redenho da cabrita dentro de água, depois de lavado das lamas

o pescador escolhe bivalves do redenho da cabrita, dentro de água, depois de lavado das lamas

“Sim, o teu olhar também
é um material,
a erosão ou as mãos de ou-
tros poderão talhá-lo de
acordo com o que sabem
e o que não sabem, o que
esperam e o que são capazes
de imaginar”

José Luís Peixoto, in “Em teu ventre”

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(ria de aveiro; torreira; cabritar)