perguntas improváveis (3)
o estado da arte
é governável?
o poço sem fundo
perde água?
quem fez
as frases feitas?
(ria de aveiro; murtosa; chegado)
boa noite
no meu peito já voaram
pássaros nuno
não me lembro quando
agora nenhum nidifica
sequer num ramo pousa
sorrio aos dias
aqueço-me numa réstia de sol
sempre que posso
nem sempre quando quero
escrevo-me devagar
nunca sei se
no meu peito já voaram
pássaros nuno
não me lembro quando
boa noite
(torreira; regata do s. paio; 2012)
lembro aqui o título do primeiro e, para mim melhor, livro de nuno camarneiro: ” No meu peito voam pássaros”. façam o favor de o ler
era uma vez um concelho, com uma comunidade piscatória distribuída por vária freguesias.
com o apoio de fundos comunitários, fizeram-se obras de remodelação e modernização dos vários portos de abrigo.
não se sabe porque carga de água, o porto com maior número de pescadores foi o último a ser remodelado/renovado. talvez até tivesse sido bom, porque as asneiras cometidas nas remodelações anteriores poderiam servir de emenda. poderiam, digo eu. é deste a estória que vos queria contar.
de há alguns dias para cá, comecei a ouvir conversas de pescadores em que só ouvia dizer mal da obra – pobres e mal agradecidos, dirá quem aqui chegar pela primeira vez -, que não dava para o número de barcos existentes, que não tinha espaço para os barcos manobrarem, que as atracações não eram de dimensão suficiente, que não passaria um ano sem que voltasse a ficar tudo assoreado, …… enfim, só miséria, para tantos milhões gastos.
tanto ouvi que comecei a fazer perguntas, mas só de uma me interessava saber a resposta:
pergunta: alguém pediu a vossa opinião quando foi feito o projecto?
resposta: não
para quem, como eu, geriu fundos comunitários, sabe que o projecto é a fase mais importante de qualquer investimento que queira deles beneficiar, como foi o caso. projecto mal feito é uma coisa inadmissível pelos gestores dos fundos, até porque é financiado por eles.
do projecto nasce um caderno de encargos, que se põe a concurso, é adjudicado e contratado. tudo o que fuja ao caderno de encargos perde o financiamento. um projecto mal feito ou é suspenso a tempo, ou depois de contratada a obra, só resta cumpri-lo.
regra de ouro: qualquer alteração ao caderno de encargos tem de ser assumida pelo “dono de obra”.
se quer mudar o que pôs a concurso, paga e pronto. os fundos não financiam asneiras, daí a importância do projecto feito à medida da sua localização e das necessidades dos utilizadores finais.
percebem agora o porquê da minha pergunta e como fiquei admirado com a resposta.
só tenho uma dúvida, trata-se de ignorância ou incompetência, ou das duas?
seja qual for a resposta, a verdade é que talvez se tenham “estragado” uns, poucos, milhões de euros.
gostava que esta estória tivesse um final feliz. gostava sinceramente e espero que tenha, mas é um final que, para já, me parece que pode sair caro. gostava de estar enganado.
a sério que gostava que isto fosse só uma estória, que não tivesse nada a ver com a realidade, ou que eu me tivesse enganado redondamente.
até lá, vou fazendo umas fotos
(algures no país das maravilhas)
o meu amigo ti zé rebeço e uma nota à parte
antes do início da regata da ria, o ti zé rebeço, fez uma pequena demonstração com o seu moliceiro.
aos 75 anos, a fazer 76, quem estava na marina de recreio, pôde admirar a energia e a arte do mais antigo moliceiro da ria.
na tripulação o mais jovem velejador de moliceiros, o zé pedro.
é extraordinário assistir ainda a provas desta natureza dadas por um homem que nasceu na ria e faz dela a sua bandeira.
parabéns ti zé, saibam vê-lo e entender a mensagem que transmite aos mais novos e aos que gostam de moliceiros: resistir até morrer.
(nota: entrei na página do município da murtosa e, no canto inferior do lado direito, está anunciado um edital intitulado “Elaboração de um Projecto de Regulamento de Utilização do Porto de Abrigo para Pescadores na Torreira” – http://www.cm-murtosa.pt/Templates/GenericDetails.aspx?id_object=7861&divName=900&id_class=900.
nestes casos é de norma e regra, publicitar a proposta da autarquia, ou da entidade responsável, e pedir aos munícipes, ou a todos aqueles cujo regulamento abrange, sugestões de alteração à proposta.
não é isso que acontece no edital. não é apresentada qualquer proposta e são pedidas sugestões, no prazo de 10 dias úteis. como o edital é de 18 de junho, as sugestões devem ser enviadas na semana que vem.
então a autarquias pede sugestões e não sugere nada? não existe, ao menos, um esboço de regulamento sobre o qual os munícipes se possam pronunciar?
nunca vi, nem sei se voltarei a ver noutros locais esta forma estranha de fazer a consulta aos munícipes. serão modernices, desconhecimento, ou traz água no bico?
não sou pescador, mas se o fosse, soubesse consultar a internet e tivesse alguma experiência sobre como funcionam este tipo de editais, fazia uma única sugestão:
QUERO SABER QUAL É A PROPOSTA DA CÂMARA MUNICIPAL.)
longe de tudo isto, o meu amigo ti zé rebeço, veleja na ria e no coração de todos os murtoseiros.
ele é a murtosa
(torreira; regata da ria; 2015)
o vencedor da regata da ria, 2105, foi o “Marco Silva”, na foto já depois de passar a bóia da meta
classificação final, ainda não publicada mas que registei
– Classe A
(moliceiros com as dimensões tradicionais)
1º Marco Silva
2º Zé Rito
3º A. Rendeiro
4º Dos Netos
5º Câmara Municipal Murtosa
6º O Amador
7º São Salvador
o moliceiro Pardilhoense, inicialmente inscrito, acabou por não participar
Classe B
(moliceiros de menores dimensões)
1º Pequenito
2º Eco Moliceiro
3º Sermar
a luta pelos dois primeiros ligares foi renhida. para dar uma ideia, o primeiro classificado fez o percurso da regata em 1h29m e o segundo em 1h30m.
foi uma regata com cada vez menos moliceiros, mas das mais disputadas.
estão de parabéns todos os moliceiros que vão resistindo, mas com destaque para o “Marco Silva”, do arrais marco silva, 1º lugar na primeira regata em que participa, e o “S. Salvador” que, depois de adquirido e recuperado por miguel matias, regressou às regatas.
(ria de aveiro; regata da ria; 2015)
moliceiros, uma paixão
(o coração tem razões
que a razão desconhece)
quero-te dizer que tens razão
é a paixão que move estes homens
que os faz serem maiores que eles
terem o tamanho do mundo
que sonharam e constroem a cada dia
quero-te dizer que tens razão
mas também que não há razão que explique
a razão de pensares como pensas
de estares onde estás
por isso és a irracionalidade personificada
quero-te dizer que tens razão
mas quero-te dizer que isso não basta
nunca a razão mudou o mundo
só o sonho e a paixão o fizeram
por isso de ti não espero a mudança
quero-te dizer
que o futuro começou ontem
e não me parece que o saibas
sou dos que sonham
e isso pode ser perigoso
aqui
(amanhã é dia de regata e, incansável, o ti zé rebeço ajuda a erguer o mastro do s. salvador. todos os moliceiros são o moliceiro
torreira; estaleiro do mestre zé rito; 26 junho, 2015)