sonhar é
acordar os dias
com o sol nos olhos
(murtosa; regata do bico; 2012)
hora imprópria
(para o josé antónio pereira)
fotografar quando?
como?
porquê?
porque me provocaram
hoje fui à murtosa e um amigo
que me viu
por sinais perguntou
se eu tinha ido fotografar
hora de almoço na torreira
em frente à ria
no meu poiso de bem comer
o veleiro
as bateiras poisadas na ria
a ria poisada em si mesma
a luz feria
a hora imprópria
o desafio
irresistível
a fotografia
a possível
não me provoquem
(torreira, 3 de janeiro; 13h)
são tantos
vêm de longe os que partiram
chegam
trazem memórias e uma vida
por viver
trazem-se mais do que quando
daqui foram
vêm de longe e choram e riem
são muitos
são poucos são os que chegaram
lavados os olhos
é na ria e no mar que renascem
para morrer um dia
são os rios desta terra
(torreira; regata do s. paio; 2014)
para o antónio gama
hoje vi-te quando
abri o jornal
antes não o tivesse
aberto e visto
continuaria na ilusão
de que tu ainda
embora sem te ver
ficámos mais pobres
mais sós em nós
porque tu sim tu
à hora a que escrevo
(e não sei se consigo)
vais pela mão de outros
para uma cova
onde o teu nome
um retrato
não tu
os amigos vão-se
e eu fico mais pequeno ainda
abraço antónio
(murtosa; cais do bico)
és tu
(a muitos amigos)
escrever com erros
não é ser menos
é não ter tido como
erro é escrever sem sentir
só para mostrar
que se sabe juntar palavras
erro é esperar que escrevam
para escrever
erro é ser “escriba à janela”
escreve meu amigo
diz o que no ser te vai
que és mais muito mais
és tu
a (minha) matemática do tempo
somam-se os dias
subtraem-se os anos
multiplicam-se os instantes
dividem-se as horas
o infinito é já ali
onde ontem
quando sou já fui
quando for não sei
de passagem tão só
sou tudo o que deixei
um ano mais
um ano menos
um ano apenas
(murtosa; regata do bico; 2012)
do ricardo para o josé
como está josé? não lhe escrevo por ser seu amigo, mas porque, de certo modo, somos parecidos: eu preparei o meu futuro – desculpe usar o inglês, mas a educação não se esquece e há apalavras que não consigo traduzir – offshore e você o seu, indoor. já reparou que você inaugurou as obras que agora o acolhem? somos homens de fazer, gostem ou não gostem. você não tem é, desculpe que lhe diga, uma família antiga atrás de si, além de se ter metido em coisa que nós, os que já cá andamos há muito, não metemos as mãos porque pagamos para que o façam: a política. porque é que você não foi para as finanças e quis ser engenheiro, político e depois filósofo e profeta (lembro-lhe que escreveu um livro sobre o que lhe está a acontecer), arranjou, como diz a gentinha, “lenha para se queimar”. tivesse vindo para as finanças e era rico, feliz e livre. olhe para nós, olhe para nós! ainda perguntei aos meus primos se conheciam a sua família ou o seu nome de algum lado, sabe qual foi a resposta que recebi de todos? só sei que nada sei. só uma nota, nós usamos os motoristas para distribuir bombons, o dinheiro é coisa demasiado perigosa para pôr nas mãos do povo, pelo menos em grandes quantidades. queria desejar-lhe um bom ano e pedir-lhe, por favor, quando sair, tenha ou não tenha razão, nisso não me meto, que atenda o meu telefonema, não se preocupe em saber como sei o número que vai ter, nós financeiros sabemos sempre tudo antes de acontecer. aproveite o tempo em que estiver à sombra para ler alguns manuais sobre funcionamento de mercados e bolsa e deixe-se de filosofias. já viu no que dá? até breve, por aí.
(praia da torreira; protecção da dunas)