crónicas da xávega (39)


quando eu chegar

é tempo de mar

é tempo de mar

quando eu chegar
que seja num dia de sol
com cheiro a maresia

trago sede de sal
fome de navegar

vim para ser aqui
haja barco que me leve
possa eu embarcar

trago sede de sal
fome muita de mar

e todos ficaram encharcados

e todos ficaram encharcados

(torreira; companha do marco; 2014)

postais da ria (60)


hora imprópria

(para o josé antónio pereira)

a luz

a luz

fotografar quando?
como?
porquê?

porque me provocaram

hoje fui à murtosa e um amigo
que me viu
por sinais perguntou
se eu tinha ido fotografar

hora de almoço na torreira
em frente à ria
no meu poiso de bem comer
o veleiro

as bateiras poisadas na ria
a ria poisada em si mesma
a luz feria
a hora imprópria
o desafio
irresistível

a fotografia
a possível

não me provoquem

as cores

as cores

(torreira, 3 de janeiro; 13h)

os moliceiros têm vela (27)


são tantos

o timoneiro da ria, zé rebeço cabelo ao vento

o timoneiro da ria, zé rebeço cabelo ao vento

vêm de longe os que partiram
chegam
trazem memórias e uma vida
por viver
trazem-se mais do que quando
daqui foram

vêm de longe e choram e riem
são muitos
são poucos são os que chegaram

lavados os olhos
é na ria e no mar que renascem
para morrer um dia

são os rios desta terra

homem da ria

homem da ria

(torreira; regata do s. paio; 2014)

postais da ria (59)


para o antónio gama

o dia cai e nós

o dia cai e nós . . . 

hoje vi-te quando
abri o jornal
antes não o tivesse
aberto e visto

continuaria na ilusão
de que tu ainda
embora sem te ver

ficámos mais pobres
mais sós em nós
porque tu sim tu

à hora a que escrevo
(e não sei se consigo)
vais pela mão de outros
para uma cova
onde o teu nome
um retrato
não tu

os amigos vão-se
e eu fico mais pequeno ainda

abraço antónio

como em sangue

como em sangue

(murtosa; cais do bico)

os moliceiros têm vela (26)


és tu

(a muitos amigos)

homens e barcos, o mesmo nome, a mesma luta

homens e barcos, o mesmo nome, a mesma luta

escrever com erros
não é ser menos
é não ter tido como

erro é escrever sem sentir
só para mostrar
que se sabe juntar palavras

erro é esperar que escrevam
para escrever
erro é ser “escriba à janela”

escreve meu amigo
diz o que no ser te vai
que és mais muito mais

és tu

ahcravo_DSC_1013
(torreira; regata s.paio; 2013)

os moliceiros têm vela (25)


a (minha) matemática do tempo

ouço-me para te ouvir

ouço-me para te ouvir

somam-se os dias
subtraem-se os anos
multiplicam-se os instantes
dividem-se as horas
o infinito é já ali
onde ontem

quando sou já fui
quando for não sei
de passagem tão só
sou tudo o que deixei

um ano mais
um ano menos

um ano apenas

a beleza é tão frágil nas mãos do homem

a beleza é tão frágil nas mãos do homem

(murtosa; regata do bico; 2012)

a carta


do ricardo para o josé

a protecção do cordão dunar

a protecção do cordão dunar

como está josé? não lhe escrevo por ser seu amigo, mas porque, de certo modo, somos parecidos: eu preparei o meu futuro – desculpe usar o inglês, mas a educação não se esquece e há apalavras que não consigo traduzir – offshore  e você o seu, indoor. já reparou que você inaugurou as obras que agora o acolhem? somos homens de fazer, gostem ou não gostem. você não tem é, desculpe que lhe diga, uma família antiga atrás de si, além de se ter metido em coisa que nós, os que já cá andamos há muito, não metemos as mãos porque pagamos para que o façam: a política. porque é que você não foi para as finanças e quis ser engenheiro, político e depois filósofo e profeta (lembro-lhe que escreveu um livro sobre o que lhe está a acontecer), arranjou, como diz a gentinha, “lenha para se queimar”. tivesse vindo para as finanças e era rico, feliz e livre. olhe para nós, olhe para nós! ainda perguntei aos meus primos se conheciam a sua família ou o seu nome de algum lado, sabe qual foi a resposta que recebi de todos? só sei que nada sei. só uma nota,  nós usamos os motoristas para distribuir bombons, o dinheiro é coisa demasiado perigosa para pôr nas mãos do povo, pelo menos em grandes quantidades. queria desejar-lhe um bom ano e pedir-lhe, por favor, quando sair, tenha ou não tenha razão, nisso não me meto, que atenda o meu telefonema, não se preocupe em saber como sei o número que vai ter, nós financeiros sabemos sempre tudo antes de acontecer. aproveite o tempo em que estiver à sombra para ler alguns manuais sobre funcionamento de mercados e bolsa e deixe-se de filosofias. já viu no que dá? até breve, por aí.

o mar ao fundo à esquerda

o mar ao fundo à esquerda

(praia da torreira; protecção da dunas)