postais da ria (63)


do sonho

o povoamento da ria

o povoamento da ria

afundaram-se as ilhas
de cansaço
apagaram-se estrelas

sorriu uma ave
suspirou uma flor
chorou uma pedra

sonhei tudo isto
e tudo foi verdade
porque o sonhei

isso me basta

onde as formigas não ouvem os olhares das cigarras

onde as formigas não ouvem os olhares das cigarras

(ria de aveiro; mariscar)

à conversa com mestre joaquim raimundo (pai) 2


mestre joaquim raimundo, foto de natalie serra, editada por ahcravo gorim

mestre joaquim raimundo, foto de natalie serra, editada por ahcravo gorim

À CONVERSA COM MESTRE RAIMUNDO (entrevista de sérgio paulo silva)

continuação

…………..

– A costeira da Espanhola.

– Pois, lá atrás, a gente parou ali um bocado à sombra, nas árvores, arrumadinhos até vir pessoal…vinha muito pessoal de Salreu naquele tempo buscar o moliço ò cais de Estarreja. Agora aquilo não custou nada, foi mais uma voltinha. Mas eu pagava, mas o homem não quiz nada. Vi lá vir um lavrador e eu fui disse “ fazia favor”, pedia, a gente trazia sempre uma corda a mais, dava-me aqui um esticãozinho lá até cima. Engatou-se-lhe a corda ò cabeçalho do nosso pinheiro, do nosso lado, à traseira do carro dele, as quatro sempre a andar por ali a cima. Aquilo também era… elas chegavam a arrancar com pinheiros também grandes mas aquele era demais, era pesado a mais. O mais, depois de estar na estrada, depois para cá, não havia mais subidas, não havia mais nada, era sempre a andar por aí abaixo. E de lá de Salreu, de Soutelo também era sempre a descer para baixo, não havia novidade. E quando ia buscar dois pinheiros, dois bordos, também era sempre só uma junta porque p’rós bordos do barco do barco é preciso sempre dois pinheiros, um pr’ás cintas, uns chamavam cintas, outros bordos, do lado, que é onde se caminha por cima deles, não é verdade?, e um para o lado de dentro rachado ao meio dava as duas dragas, chamavam-se dragas e os de fora chamavam-se bordos. Também rachado ao meio. Levavam três fios certos de alto a baixo, de cada lado, porque as pontinhas começavam só com esta grossura e quando chegasse ao meio já tinham esta grossura porque você vê andar a fazer uma estrada para andar a passear por cima a botar à vara. Ia engrossando, engrossando e depois começava outra vez a diminuir.

– E esses pinheiros, como não havia moto-serras, como é que vocês os serravam?

– Nada, nada. Eram serradores de Pardilhó. Havia lá muitos serradores, muitos. Não era só para Pardilhó. Havia lá muitos, muitos nem serravam porque a construção naval, naquele tempo os artistas de Pardilhó iam lá muito pr’ó Barreiro, lá para aqueles lados que era para…esquece-me agora o nome…

– Setúbal?…

– Não. Também Setúbal. Porque o transporte dos vinhos e lenha era tudo exactamente como aqui. Não havia camionetas. Era tudo transportado em barcos. Aqui eram os barcos mercanteis, sal, lenha e… lá para cima, para a Ponte da Rata, Àgueda, carregavam lenha e vinham descarregar aqui aos cais e de depois os carros das vacas a carregar um carro de cada vez para os armazéns, achas mais ou menos deste tamanho. Depois cada um ia comprar as suas achas. Naquele tempo não havia gaz, era tudo a lenha, não havia gaz, já está a ver a lenha que se gastava e depois, o que eu ia para dizer, e lá eram os tais varinos e fragatas, chamava-se varinos e fragatas que rem desenhados para ser um barco de mar, eram então construídos por essa gente de Pardilhó. Eles faziam-se muitos em Pardilhó também. E depois saiam pela barra e iam pelo mar, sempre, até entrar na barra de Lisboa. Também iam daqui muitos feitos…

– Feitos aqui em Pardilhó?

– Em Pardilhó, muitos…

– Tanto Varinos como Fragatas?

– …Como Fragatas. Muitos!…

– Quantos estaleiros é que havia em Pardilhó?

– Ai disso é que eu não sou capaz de dizer, de Fragatas, agora assim dos estaleiros mais piquenos, dos nossos, havia poucos. Para barcos moliceiros e mercanteis a Murtosa é que era o fixe…

– Era o forte.

– Era o forte. Lá era fragatas, navios, varinos… Fazia-se muita coisa lá.

– E depois, esses serradores serravam as tábuas…

– As tábuas… Ainda tenho três serras. Tinha cinco mas duas também já foram, também para Ílhavo, para o museu. Eu também serrava. Cavername. Eu sei serrar. Cavacar de toda a maneira, enxó, plaina, tudo. Ainda aí tenho ferramenta. Empranchava-o, tínhamos uma prancha grande para o homem andar de pé a puxar pela serra, tinha macaco para levar os paus, os pinheiros lá para cima, tinha umas forcadas muito seguras, pranchão, a prancha era muito segura, firme, não corria nem para um lado nem para o outro…..trilhada com um cadeado, uma panca…

– Depois as tábuas tinham que secar quanto tempo?

– Era conforme. De verão secavam muito menos tempo. É…

– Mas deixavam-nas a secar dum ano para o outro?

– Não. A gente ia secando e….olhe, eram postas assim, para se segurar em arco assim, você põe isto assim, não põe?, você faz um arco nisto, nem para um lado, nem para o outro.

– Pois. Estando direito, cai. Estando em arco já não cai…

– Está a ver aqui do muro da minha eira sempre ao comprido, sempre com o estaleiro até lá…

– Mas depois ficavam com essa arqueação ao sol…

– Não! Não! Ui, depois de secas era uma pilha dentro do estaleiro que às vêzes… a gente acautelava-se, serrava-se bastante material para depois de inverno ter material para trabalhar. Era cada pilha delas assim depois punha-se como eu explico. Ficavam todas direitinhas. Só se fosse vigas, por exemplo, uma coisa grossa. Mas se fosse grossa já num arcavam. Eram dezoito milímetros pr’ós barcos, moliceiros e mercanteis, e centímetro e meio pr’ás bateiras, finas.

– Eucalipto não levavam, nem carvalho, nada disso…

– Não. Não. Carvalho ainda cheguei, mas também esse era raro encontrar-se. Para cavername também ainda dava.

– Só para cavername?

– Só para cavername. Agora eucalipto… isso torcia tudo, isso não presta.

– Os barcos moliceiros tinham todos o mesmo tamanho?

– Tinham. Agora são mais piquenos. Vinte e uma caverna, todos mais ou menos do mesmo tamanho.

– E o que é isso da vara de pontos?

– Ah o pau de pontos! Aí é que estava o barco!

– Quem é que inventou isso?

– Já era desde sempre. Aí é que estava o barco, naquela medição toda. Aí é que estava o barco, num pauzinho aí com metro e meio, nem tinha, nem tinha metro e meio. O dos moliceiros e mercanteis e os outros mais pequenos, eram mais pequeninos ainda. Para caçadeiras pequeninas, da caça, calhei de fazer caçadeiras só para uma pessoa, muito levezinhas, com pauzinho assim, aí está a medição toda, da altura, da largura do fundo, tudo, está a perceber? A tal tábua da armação, assim ao comprido, com uma linha recta no centro e depois já se media os espaços das cavernas, lá estava um sinalzinho que a gente media, vinte e uma cavernas, depois o forcado da ré, o forcado da proa, uns cortesinhos…e depois a largura começava, por exemplo, a aumentar, por exemplo aqui um sinalzinho, um cortezinho aqui, e outro aqui, ia-se andando assim, compreende?, comparação: isto era a caverna, a primeira caverna da pro……já tinha lá o traçozinho das cavernas. Media-se isto. Passava-se outro sinalzinho, segunda caverna, passava-se a outro, terceira, isto é uma comparação, quarta, até meio do barco mais ou menos. Assim que chegasse, já não tinha mais risco nenhum, virava-se o pauzinho, começava, outro, a diminuir, a diminuir, a diminuir, ia-se a fazer isto, quer à proa quer à ré. E a altura do bordo à mesma.

– A altura do bordo também era o pau?

– Pois, lá está, as marquinhas todas, as duas da ré que era as duas cavernas da ré, começava sempre às duas, era o forcado, tinha uma altura, o forcado que é donde a gente se assenta, a guiar o leme, chamo o forcado…tem dois, tem um pequenino e tem o grande. E depois as duas da ré, ainda me lembro…..assim o pau, depois às seis, depois às dez, a contar da ré a eito, depois às dez e depois às seis, da proa, contando da proa, não, às oito, às oito, da proa e depois às cinco, que era a última, que é donde tem o batente da proa, o batente onde tem a porta, aí é que era a última altura, que daí a gente já tinha…bem, eu ainda não disse tudo, não era só o pau dos pontos. O Pau dos pontos tinha as medidas do coiso mas depois as formas, as formas, os moldes, tinha o molde das cavernas, tinha a roda da proa, da roda da ré, tinha dos forcados, tinha…tinha do batente, como eu disse agora até ao forcado da proa, uma forma como daqui quase acolá ao canto, e depois do forcado da proa o resto acolá, sempre a revirar para ir ligar à proa, aquele bocadinho, outra forma pequenina, parece que ainda…..Estava, o barco, a embarcação estava no pau dos pontos e nas formas. Assim como as outras bateiras e tudo. Cada um tinha as suas formas. Dos mercanteis já não serviam para os moliceiros, nem os moliceiros serviam para os mercanteis.

– O moliceiro já não obedecia ao pau dos pontos; obedecia então a outras medidas?

– Igualzinho. Cada barco ou cada bateira tinha o seu pau dos pontos e as suas formas, os seus moldes, como quiser chamar.

– Mas o pau dos pontos dos moliceiros não era igual…

– Todos diferentes, todos. Uma caçadeira da caça outro, uma bateira solheira outro, uma bateira para Lisboa outro, uma bateira pr’ó Carregado, fazia-se muito, o meu pai, eu cheguei lá ir, a primeira vez tinha quatorze anos fazia-se muita bateira pr’ó Carregado, pr’ó sal, naquele tempo, antes de Vila Franca, sabe onde é o Carregado mais ou menos? P’ra Salvaterra, pr’a Setúbal, fez-se muita bateira pr’a Setúbal também, aqui. Todas diferentes conforme a pesca. Tanto no tamanho como no feitio, umas mais altas da ré do que da proa. As de Setúbal eram mais altas da ré do que da proa, está a ver?, muito largas e muito altas, levavam muita aparelhagem, muito pesada, e depois que lhe pusesse a aparelhagem dentro elas já ficavam logo natural. A roda andava para cima, a proa andava para cima porque, se não fosse assim tão altas da ré e tão largas, punham-lhe as redes dentro e ela ficava logo com a ré metida pela água dentro e proa muito arrebitada. Era conforme as artes. Até só aqui para a ria de Aveiro já………era a solheira, era a peixeira, era não sei quê mais, tudo diferente.

– Tudo diferente conforme a pesca…

– Pois conforme a arte. Quem vinha encomendar é que dizia “ quero uma bateira prá solheira ou prá peixeira ou prá branqueira “ , três pelo menos…

– Olhe lá uma coisa: a pintura. Depois vocês pichavam o barco todo? Era todo coberto a piche?

– Não! Não! Nada de piche! O breu, o breu fino, pez louro dos lados e preto na cinta, era o que lhe dava na cinta, cá no bordo do lado, são bordos dos lados e ia acolá até ao golfião, até às pinturas, ia até às pinturas.

….. a continuar

postais da ria (62)


gente da torreira

da ria, naturalmente

da ria, naturalmente

crescem com a ria
conhecem cedo o sal do pão
que comem

há um sorriso para a fotografia
há trabalho que se confunde com recreio
só vais para a ria se tiveres boas notas

não é trabalho infantil
é começar cedo a viver a ria
sem saber de amanhã

é a gente da torreira

ahcravo_DSC_1614_fim de dia

(torreira; marina dos pescadores)

à conversa com mestre joaquim raimundo (pai) -1


o trabalho que aqui se vai divulgar, resulta de uma entrevista realizada por sérgio paulo silva e publicada na revista “terras de antuã”, nº7 – cuja divulgação foi autorizada pelo autor-, e fotografias cedidas pela filha natalie serra.

mestre joaquim raimundo

mestre joaquim raimundo

À CONVERSA COM MESTRE RAIMUNDO (entrevista de sérgio paulo silva)

Entrevista feita ao construtor naval Joaquim Maria Henriques, Mestre Joaquim Raimundo, no final de 1995, tendo o Mestre, na altura, 85 ou 86 anos.

Quando bati à porta de sua casa ( situada à direita de quem vai, a seguir à Stª Luzía, Veiros, para a Murtosa e toma a esquerda em direcção ao Bico), o mestre dormia a sesta. Foi acordado por sua mulher que só acedeu porque tinha sido companheira de brincadeira de infância do meu sogro – eram vizinhos, no norte, em Pardilhó – e manteve-se sempre connosco, metendo a sua colherada. No texto é assinalada com (M). As reticências significam suspensão de voz ou palavras imperceptíveis. À data da entrevista já o seu espólio – a vara de pontos, os moldes, etc – tinha sido cedido para o museu marítimo de Ílhavo.

A conversa foi gravada com aparelho rudimentar e acaba abruptamente porque não deu para mais.

– (M) Ele agora está muito esquecido…

– Hã ?

– (M)… de muitas coisas.

– Está muito esquecido mas a gente lembra-o! Mestre Raimundo, olhe cá uma coisa, você quando é que começou a trabalhar?

– De pequeno, de pequeno pois. A gente vinha da escola, naquele tempo não se andava no jogo da bola. Não havia bolas não havia nada. Era casa, fazer algumas coisinhas que a gente trazia da escola, algumas contas, alguma cópia para mostrar ao outro dia ao senhor professor, era o Sr. Alípio Portugal, velhote, mais velho c’ó meu pai ainda…

– O seu pai era desta arte?

– Pois era. Já o meu bisavô. Onde o meu avô trabalhava, o estaleiro era do pai dele já.

– E era aqui neste sítio?

– Não, não. O do meu pai era no fim, daquele lado da Murtosa. O aido tem cem metros de frente aqui. O meu pai comprou a maior parte. Uma pequena parte do lado de lá era da minha…Depois de lá para cá ele comprou. Deu para seis filhos, todos iguais, mil trezentos e tal metros cada um. E esta casa é do meu irmão mais novo, ali. E depois as outras quatro partes ainda não tem casa nenhuma.

– Os seus irmãos não se dedicaram a isto?

-(M) Ninguém, nenhum, nenhum.

– Todos não, menos o Américo.

– O Adelino… O meu José que está no Porto. Também saiu daqui com 24 anos. Depois nunca mais… bem ainda trabalhou na arte, na nossa arte, também mais o meu tio Américo, irmão do meu pai, que era dono do estaleiro que ainda lá está no Bico. Os terrenos do meu ti Américo, o pai do meu pai, do pai do meu pai, ainda lá está no Bico, tocados para dentro assim um bocadinho.

– (M) O irmão do pai dele.

– Sim, irmão do meu pai, que era o meu tio Américo. Esse é que chamou para lá o meu irmão. E tinha o Júlio que já morreu na América, era a seguir a mim dois anos. Eu sou o mais velho. A mais velha era uma irmã. Também já morreu. E já morreu o Júlio e estamos quatro vivos, sou eu e o José no Porto e o Américo e o Adelino na América. E esse Américo atão trabalhava com um cunhado meu, começou com o …foram todos para a mesma arte, foi para carpinteiro. Carpinteiro naquele tempo era carpinteiro e pedreiro. Faziam as duas coisas. Era como o meu cunhado. Ele fazia a casa e fazia o forro, fazia as portas, fazia tudo. Ainda havia pouca carpintaria naquele tempo. E o meu irmão era um artista para madeiras. Isso, cuidado… Esse Américo! Mas também já foi daqui com 24 anos…

– (M) Vinte e dois.

– Também foi para a América. E o meu irmão mais novo, atão esse meu cunhado morreu com trinta e sete anos, morreu muito novo, e o mais novo também andava com ele mas, depois que ele morreu, ficou com o pai em casa, não foi para outro mestre, dedicou-se à nossa arte até ir para a América. Nunca trabalhou por conta dele até. Só eu é que me estabeleci. O meu pai deixou-me fazer aqui o estaleiro onde está agora ali a garagem. Mais tarde deixou-me fazer a casa também. O estaleiro foi o primeiro. Vivi lá dezasseis anos em casa do meu pai. Agora está ali o terreno. A casa ficou para a minha irmã, deitou aquilo tudo abaixo, tinha lá uma casinha pequena que ele mandou fazer para mim quando eu me casei. Ainda vivi lá dezasseis anos, lá é que eu ganhei esta casa. Primeiro o estaleiro, a oficina… naquele tempo, ainda me lembro, gastei cinco contos a fazer o estaleiro, barracão, e depois mais tarde a casa, ao fim de dezasseis anos.

– Portanto você aprendeu a arte com o seu pai…

– Pois, pois, então com quem havia de ser?

– Desde a primeira tábua…

– Pois, pois… nem todos. Eu… o meu pai também já os pintava. Construía os barcos e pintava-os. Vê aquelas pinturas? Ali a ré dos barcos, à popa dos barcos, igual àquilo, mais ou menos. Aquilo foi o meu filho que pintou.

– (M) Ele foi mais o Magalhães, chegou mais um artista de Avanca, também um artista pintor. Esse era lavrador.

– Era o Sueco. Foi a Lisboa pintar um barco que foi para Paris e ganhou o primeiro prémio.

– (M) Esse era um barco de mar.

– Um barco de mar prás conserveiras, representar as coserveiras de Portugal.

– Portanto você tanto fazia bateiras como barcos de mar…

– Não, de mar não cheguei a fazer mas se fosse preciso fazer…A construção era igualzinha. Foi pintá-lo. Foi um barco que eles compraram aqui em S. Jacinto, usado.

– (M) Fizeram uma casa dentro.

– Repararam-no bem, aquilo era um hotel lá dentro! E depois foi pintado de novo. Faz de conta que o barquinho era novo. E foi então inçar um grande artista para pintura, esse homem de Avanca. Não construía mas pintava, só pintava os barcos. Esse até andava ò moliço, sabia andar, apanhava moliço e tudo. Mas era um pintor, um artista, cuidado com ele

– Como é que se chamava esse artista de Avanca?

– Sueco, Manuel António Sueco.

– (M) Era muito velho.

– Ele já era velho e então ele nem me conhecia bem mas via as minhas pinturas nos barcos e assim e disse “ olhe, eu só vou se ….primeiro foram falar com ele, foi um homem aqui de Aveiro

– (M) Foram uns que vieram de Lisboa

– E ele disse “ eu só vou se vocês forem falar com fulano” – se eu fosse com ele, que então que ia. Era assim de certa idade e então lá fui de bicicleta para Pardilhó, deixei a bicicleta em casa do meu sogro, fui a pé por Pardilhó lá chamar por casa dele, combinado e lá fomos para a Estação de Avanca, é verdade, para Lisboa…

– Olhe uma coisa, como é que nasce um barco moliceiro?

– Como é que nasce? Duma tábua, chamam-lhe a tábua da arqueação.

– Primeiro é duma árvore.

– Sim.

– Vocês com que madeira trabalhavam?

– Pinheiro manso.

– Só pinheiro manso?

– Não. Pinheiro manso pró cavername

– Pró cavername…

– E o outro também dá para o cavername e para tábuas. Porque o pinheiro manso não dá para o tabuado.

– Ai o pinheiro manso não dá para o tabuado?

– Pois, porque é cheio de rancas, não sabe o que é?, o pinheiro manso é tudo cheio de rancas. Está ali um na beira da estrada, eu estou ali a vê-lo, é tudo cheio de rancas para um lado e para o outro. Isso é bom é para dar cavernas

– Para dar cavernas…

– Para dar cavernas e braços. Cada caverna leva um braço.

– Cada caverna leva um braço…

– Pois. Pois, por exemplo, isto é o fundo e aquí arranca-se a pinheira e a raiz faz o costado mas falta um braço dacolá para fazer outro cortado. Chama-se um braço.

– Então o pinheiro manso é para fazer o cavername…

– O cavername e o outro também dá cavername mas não é tão bom para cavername. Não dá tanto. Sim e para o tabuado. Eles agora faz os barcos, os poucos que os faz. Tenho um sobrinho em Pardilhó, não sei se a minha mulher já lhe disse que faz barcos moliceiros, um sobrinho, filho dum irmão da minha mulher que já morreu, o Salvador. Mas as tábuas são emendadas, para ser serradas na fábrica, as três tábuas, a da quilha, uns chamam-lhe da quilha, outros a tábua da armação, para armar o barco, que era a do centro que ia da roda da ré à roda da proa, era sempre inteira e dos lados, as duas dos bordos, onde levava os bordos encostados, também as duas inteiras, as três tábuas. Depois as outras levava mais duas por baixo, a encher o costado, nessa fazia ir inteiras como a meio ou mais que meio, uma em três partes, outras só duas ou assim conforme. Isso já não tinha importância nenhuma. As três é que eram sempre inteiras.

– E essas tábuas inteiras eram feitas de que madeira também?

– Pinheiro. Primeiro bravo. Serradas aqui. Eu ia transportá-las às vêzes lá para S. Martinho da Gândara, perto de Oliveira de Azeméis, Loureiro, por aí, Albergaria-a-Velha, Albergaria-a-Nova, a gente comprava pinheiros… era onde os havia.

– Mas tinham que ser pinheiros muito velhos para dar…

– Velhos e sãos, não ser pôdres e depois a transportá-los com carreiros da Póvoa, tinha carreiros da Póvoa aí. Ainda está aí um vivo, acho eu. Só se ele morreu há pouco tempo, Chico Alegria, que é manco, que é logo a primeira casa depois que se passa aquela vilage nova, à esquerda.

– Mas os carros de bois, como é que transportavam assim aqueles pinheiros tão grandes?

– Com dois carros.

– Ah, era com dois carros!

– Pois, um atrás e outro à frente.

– Pois era… Não, quando era um pinheiro só uma junta chegava.

– Uma junta chegava…

– Até havia sítios às vêzes que os que…depois de estar na estrada uma junta trazia um pinheiro mas quando eram mesmo grossos…uma vez eu vinha com um de lá, de Salreu, lá de cima de Albergaria-a-Nova ou Soutelo, eu comprava por aí, por todo o lado, e chegamos ali a Estarreja, também já morreu, coitado, Manuel do Avô, já o avô dele carreava para o meu avô, pr’ó meu pai e chegou a carrear para mim também o pai desse carrego. Tinha duas vacas que agarravam muito bem, puxavam muito bem mas chegou-se ali ao Antuã, aquela subida ali apicada, direito acima…

……..

(continua)

marca do mestre raimundo

divisa do mestre raimundo, segundo ana maria lopes

os moliceiros têm vela (32)


dos dias

sucedem-se no tempo e ...

sucedem-se no tempo e …

amanhã outro dia será
comigo ou sem
o tempo seguirá o seu curso
sereno e ridente

uma flor abrirá algures
as pétalas ao sol
uma criança beijará a mãe
e muitos terão partido

hoje sou e canto

e o vento?

e o vento?

(ria de aveiro; regata da ria; 2011)

joaquim henriques (raimundo) mestre construtor de moliceiros e outros barcos


mestre joaquim henriques (raimundo) na torreira, verão de 2012

mestre joaquim henriques (raimundo) na torreira, verão de 2012

sejam os registos, que agora se iniciam, um simples e despretensioso contributo para a história de uma família de mestres construtores de barcos.

biografia de

JOAQUIM HENRIQUES (RAIMUNDO)

No dia 7 de Julho de 1933 nasceu Joaquim Maria Henriques, mais conhecido por Joaquim Raimundo, apelido por que era conhecida esta família de construtores navais durante várias gerações.

Joaquim Henriques continuou a tradição do seu trisavô, bisavô, avô e pai; logo de muito novo aprendeu a arte de construir barcos, usados nas fainas da apanha de moliço e pesca na Ria de Aveiro.

Em 1959 Joaquim Henriques emigrou para os Estados Unidos, mas a paixão de construir barcos foi com ele e cedo começou a trabalhar para um construtor naval. Mais tarde, o seu pai (Mestre Raimundo) também emigrou, em 1960, e começou a trabalhar com ele. Juntos usaram seus vastos conhecimentos que tinham em trabalhar com madeira. Foi aí que aprenderam não só a trabalhar com fibra de vidro, uma inovação na construção de barcos, como também Joaquim Henriques aprendeu as técnicas de desenhador naval, mais tarde usadas para desenhar os seus iates.

Em 1977 concretizou o seu sonho e fundou a sua própria companhia “Henriques Yachts” no estado de Nova Jersey, Estados Unidos. Tal foi o sucesso, que actualmente os iates da marca “Henriques” estão espalhados pelo mundo e são conhecidos nos Estados Unidos pela sua alta qualidade, a mesma fama que tinham os barcos moliceiros feitos na Murtosa pelo seu pai.

No entanto, ainda lhe faltava prestar homenagem à Ria de Aveiro e à Murtosa, terra que ele nunca esqueceu e tanto ama, e decidiu construir um barco moliceiro em fibra de vidro usando os planos e medidas exactas dos barcos que o pai, Mestre Raimundo, construia. Baptizou-o de “O Rei da Ria.” O “bota abaixo”deste barco moliceiro foi um grande evento não só com a presença de entidades americanas mas também portuguesas, entre elas a consulesa de Portugal em Nova Jersey, Dra. Maria Amélia Paiva.

Este lindo barco, “O Rei da Ria”, continua a navegar nas aguas da Barnegat Bay em Nova Jersey, Estados Unidos, orgulhoso pelas suas origens Murtoseiras e sempre admirado pelos americanos que não se cansam de tirar fotografias deste imponente barco com a sua vela ao vento.

(escrito por Natalie Serra, irmã do mestre)”

primeira conversa

O REI DA RIA

"O Reia da Ria", foto de Natalie Serra

“O Rei da Ria”, foto de Natalie Serra