à conversa com mestre joaquim raimundo (pai) 2


mestre joaquim raimundo, foto de natalie serra, editada por ahcravo gorim

mestre joaquim raimundo, foto de natalie serra, editada por ahcravo gorim

À CONVERSA COM MESTRE RAIMUNDO (entrevista de sérgio paulo silva)

continuação

…………..

– A costeira da Espanhola.

– Pois, lá atrás, a gente parou ali um bocado à sombra, nas árvores, arrumadinhos até vir pessoal…vinha muito pessoal de Salreu naquele tempo buscar o moliço ò cais de Estarreja. Agora aquilo não custou nada, foi mais uma voltinha. Mas eu pagava, mas o homem não quiz nada. Vi lá vir um lavrador e eu fui disse “ fazia favor”, pedia, a gente trazia sempre uma corda a mais, dava-me aqui um esticãozinho lá até cima. Engatou-se-lhe a corda ò cabeçalho do nosso pinheiro, do nosso lado, à traseira do carro dele, as quatro sempre a andar por ali a cima. Aquilo também era… elas chegavam a arrancar com pinheiros também grandes mas aquele era demais, era pesado a mais. O mais, depois de estar na estrada, depois para cá, não havia mais subidas, não havia mais nada, era sempre a andar por aí abaixo. E de lá de Salreu, de Soutelo também era sempre a descer para baixo, não havia novidade. E quando ia buscar dois pinheiros, dois bordos, também era sempre só uma junta porque p’rós bordos do barco do barco é preciso sempre dois pinheiros, um pr’ás cintas, uns chamavam cintas, outros bordos, do lado, que é onde se caminha por cima deles, não é verdade?, e um para o lado de dentro rachado ao meio dava as duas dragas, chamavam-se dragas e os de fora chamavam-se bordos. Também rachado ao meio. Levavam três fios certos de alto a baixo, de cada lado, porque as pontinhas começavam só com esta grossura e quando chegasse ao meio já tinham esta grossura porque você vê andar a fazer uma estrada para andar a passear por cima a botar à vara. Ia engrossando, engrossando e depois começava outra vez a diminuir.

– E esses pinheiros, como não havia moto-serras, como é que vocês os serravam?

– Nada, nada. Eram serradores de Pardilhó. Havia lá muitos serradores, muitos. Não era só para Pardilhó. Havia lá muitos, muitos nem serravam porque a construção naval, naquele tempo os artistas de Pardilhó iam lá muito pr’ó Barreiro, lá para aqueles lados que era para…esquece-me agora o nome…

– Setúbal?…

– Não. Também Setúbal. Porque o transporte dos vinhos e lenha era tudo exactamente como aqui. Não havia camionetas. Era tudo transportado em barcos. Aqui eram os barcos mercanteis, sal, lenha e… lá para cima, para a Ponte da Rata, Àgueda, carregavam lenha e vinham descarregar aqui aos cais e de depois os carros das vacas a carregar um carro de cada vez para os armazéns, achas mais ou menos deste tamanho. Depois cada um ia comprar as suas achas. Naquele tempo não havia gaz, era tudo a lenha, não havia gaz, já está a ver a lenha que se gastava e depois, o que eu ia para dizer, e lá eram os tais varinos e fragatas, chamava-se varinos e fragatas que rem desenhados para ser um barco de mar, eram então construídos por essa gente de Pardilhó. Eles faziam-se muitos em Pardilhó também. E depois saiam pela barra e iam pelo mar, sempre, até entrar na barra de Lisboa. Também iam daqui muitos feitos…

– Feitos aqui em Pardilhó?

– Em Pardilhó, muitos…

– Tanto Varinos como Fragatas?

– …Como Fragatas. Muitos!…

– Quantos estaleiros é que havia em Pardilhó?

– Ai disso é que eu não sou capaz de dizer, de Fragatas, agora assim dos estaleiros mais piquenos, dos nossos, havia poucos. Para barcos moliceiros e mercanteis a Murtosa é que era o fixe…

– Era o forte.

– Era o forte. Lá era fragatas, navios, varinos… Fazia-se muita coisa lá.

– E depois, esses serradores serravam as tábuas…

– As tábuas… Ainda tenho três serras. Tinha cinco mas duas também já foram, também para Ílhavo, para o museu. Eu também serrava. Cavername. Eu sei serrar. Cavacar de toda a maneira, enxó, plaina, tudo. Ainda aí tenho ferramenta. Empranchava-o, tínhamos uma prancha grande para o homem andar de pé a puxar pela serra, tinha macaco para levar os paus, os pinheiros lá para cima, tinha umas forcadas muito seguras, pranchão, a prancha era muito segura, firme, não corria nem para um lado nem para o outro…..trilhada com um cadeado, uma panca…

– Depois as tábuas tinham que secar quanto tempo?

– Era conforme. De verão secavam muito menos tempo. É…

– Mas deixavam-nas a secar dum ano para o outro?

– Não. A gente ia secando e….olhe, eram postas assim, para se segurar em arco assim, você põe isto assim, não põe?, você faz um arco nisto, nem para um lado, nem para o outro.

– Pois. Estando direito, cai. Estando em arco já não cai…

– Está a ver aqui do muro da minha eira sempre ao comprido, sempre com o estaleiro até lá…

– Mas depois ficavam com essa arqueação ao sol…

– Não! Não! Ui, depois de secas era uma pilha dentro do estaleiro que às vêzes… a gente acautelava-se, serrava-se bastante material para depois de inverno ter material para trabalhar. Era cada pilha delas assim depois punha-se como eu explico. Ficavam todas direitinhas. Só se fosse vigas, por exemplo, uma coisa grossa. Mas se fosse grossa já num arcavam. Eram dezoito milímetros pr’ós barcos, moliceiros e mercanteis, e centímetro e meio pr’ás bateiras, finas.

– Eucalipto não levavam, nem carvalho, nada disso…

– Não. Não. Carvalho ainda cheguei, mas também esse era raro encontrar-se. Para cavername também ainda dava.

– Só para cavername?

– Só para cavername. Agora eucalipto… isso torcia tudo, isso não presta.

– Os barcos moliceiros tinham todos o mesmo tamanho?

– Tinham. Agora são mais piquenos. Vinte e uma caverna, todos mais ou menos do mesmo tamanho.

– E o que é isso da vara de pontos?

– Ah o pau de pontos! Aí é que estava o barco!

– Quem é que inventou isso?

– Já era desde sempre. Aí é que estava o barco, naquela medição toda. Aí é que estava o barco, num pauzinho aí com metro e meio, nem tinha, nem tinha metro e meio. O dos moliceiros e mercanteis e os outros mais pequenos, eram mais pequeninos ainda. Para caçadeiras pequeninas, da caça, calhei de fazer caçadeiras só para uma pessoa, muito levezinhas, com pauzinho assim, aí está a medição toda, da altura, da largura do fundo, tudo, está a perceber? A tal tábua da armação, assim ao comprido, com uma linha recta no centro e depois já se media os espaços das cavernas, lá estava um sinalzinho que a gente media, vinte e uma cavernas, depois o forcado da ré, o forcado da proa, uns cortesinhos…e depois a largura começava, por exemplo, a aumentar, por exemplo aqui um sinalzinho, um cortezinho aqui, e outro aqui, ia-se andando assim, compreende?, comparação: isto era a caverna, a primeira caverna da pro……já tinha lá o traçozinho das cavernas. Media-se isto. Passava-se outro sinalzinho, segunda caverna, passava-se a outro, terceira, isto é uma comparação, quarta, até meio do barco mais ou menos. Assim que chegasse, já não tinha mais risco nenhum, virava-se o pauzinho, começava, outro, a diminuir, a diminuir, a diminuir, ia-se a fazer isto, quer à proa quer à ré. E a altura do bordo à mesma.

– A altura do bordo também era o pau?

– Pois, lá está, as marquinhas todas, as duas da ré que era as duas cavernas da ré, começava sempre às duas, era o forcado, tinha uma altura, o forcado que é donde a gente se assenta, a guiar o leme, chamo o forcado…tem dois, tem um pequenino e tem o grande. E depois as duas da ré, ainda me lembro…..assim o pau, depois às seis, depois às dez, a contar da ré a eito, depois às dez e depois às seis, da proa, contando da proa, não, às oito, às oito, da proa e depois às cinco, que era a última, que é donde tem o batente da proa, o batente onde tem a porta, aí é que era a última altura, que daí a gente já tinha…bem, eu ainda não disse tudo, não era só o pau dos pontos. O Pau dos pontos tinha as medidas do coiso mas depois as formas, as formas, os moldes, tinha o molde das cavernas, tinha a roda da proa, da roda da ré, tinha dos forcados, tinha…tinha do batente, como eu disse agora até ao forcado da proa, uma forma como daqui quase acolá ao canto, e depois do forcado da proa o resto acolá, sempre a revirar para ir ligar à proa, aquele bocadinho, outra forma pequenina, parece que ainda…..Estava, o barco, a embarcação estava no pau dos pontos e nas formas. Assim como as outras bateiras e tudo. Cada um tinha as suas formas. Dos mercanteis já não serviam para os moliceiros, nem os moliceiros serviam para os mercanteis.

– O moliceiro já não obedecia ao pau dos pontos; obedecia então a outras medidas?

– Igualzinho. Cada barco ou cada bateira tinha o seu pau dos pontos e as suas formas, os seus moldes, como quiser chamar.

– Mas o pau dos pontos dos moliceiros não era igual…

– Todos diferentes, todos. Uma caçadeira da caça outro, uma bateira solheira outro, uma bateira para Lisboa outro, uma bateira pr’ó Carregado, fazia-se muito, o meu pai, eu cheguei lá ir, a primeira vez tinha quatorze anos fazia-se muita bateira pr’ó Carregado, pr’ó sal, naquele tempo, antes de Vila Franca, sabe onde é o Carregado mais ou menos? P’ra Salvaterra, pr’a Setúbal, fez-se muita bateira pr’a Setúbal também, aqui. Todas diferentes conforme a pesca. Tanto no tamanho como no feitio, umas mais altas da ré do que da proa. As de Setúbal eram mais altas da ré do que da proa, está a ver?, muito largas e muito altas, levavam muita aparelhagem, muito pesada, e depois que lhe pusesse a aparelhagem dentro elas já ficavam logo natural. A roda andava para cima, a proa andava para cima porque, se não fosse assim tão altas da ré e tão largas, punham-lhe as redes dentro e ela ficava logo com a ré metida pela água dentro e proa muito arrebitada. Era conforme as artes. Até só aqui para a ria de Aveiro já………era a solheira, era a peixeira, era não sei quê mais, tudo diferente.

– Tudo diferente conforme a pesca…

– Pois conforme a arte. Quem vinha encomendar é que dizia “ quero uma bateira prá solheira ou prá peixeira ou prá branqueira “ , três pelo menos…

– Olhe lá uma coisa: a pintura. Depois vocês pichavam o barco todo? Era todo coberto a piche?

– Não! Não! Nada de piche! O breu, o breu fino, pez louro dos lados e preto na cinta, era o que lhe dava na cinta, cá no bordo do lado, são bordos dos lados e ia acolá até ao golfião, até às pinturas, ia até às pinturas.

….. a continuar

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