vivelinda bastos


a ria não dá para camaradas

a encomenda

a encomenda

um saco de 20 kg ao ombro
depois de várias horas curvada
na apanha no cirandar na escolha

a maior fábrica do distrito
emprega homens e mulheres
da murtosa e arredores

mariscadores desempregados
legais e clandestinos
ganham na apanha dos bivalves
o amargo pão que levam à boca

a ria não dá para camaradas

e elas deixam a casa e vão
na bateira ao lado do homem
mais dois braços duas pernas

o corpo depressa se desgasta
no rosto os traços fundos
cavados pelo sal o sol a dor

são as  mulheres da ria

o esgar do esforço

o esgar do esforço

(torreira; marina dos pescadores)

o ciclomoliceiro


o cartaz do encontro

o cartaz do encontro

de 6 a 12 de julho, de 2014, decorreu, na murtosa a “X Semana  Europeia do Cicloturismo”.

segundo os dados fornecidos pelo município estiveram presentes 1300 cicloturistas de 12 países, instalados em tendas e roulotes num “mega centro logístico, na Torreira, com mais de 65.000 metros quadrados, que englobou o parque de campismo da Torreira e a área localizada a poente deste.

todos os dias os cicloturistas saíam da torreira, pela rotunda norte, quem vem do mar, para efectuarem o programado para esse dia. houve somente um dia livre.

como se pode ver no cartaz do evento, mesmo ao cimo, um moliceiro. Importante notar que foi o único que os cicloturistas viram durante a sua estadia.

todas as manhãs passei na rotunda, olhei para a ria e …. não havia um moliceiro sequer, varado ou a navegar, para “cicloturista ver”.  nem no dia livre, em que muitos vi a passearem de bicicleta na torreira e em torno da ria, houve qualquer evento com moliceiros.

penso que não foi por não ter havido intenção, mas sim por falta de verbas, outra justificação não encontro, mas mesmo essa difícil de compreender.

é assim na pátria do moliceiro.

ainda hei-de ver um moliceiro com duas rodas e pedais a circular no alcatrão e, então sim, veremos o ciclomoliceiro, inventado na murtosa, a espreitar para a ria com saudades do tempo em que tinha vela e navegava.

os moliceiros têm vela (49)


da praça

a luta é dura

a luta é dura

no centro da praça
não navegam barcos
correm papéis por sobre
secretárias modernas
onde escribas ocupam cadeiras
e fabricam o tempo à medida
dos senhores da terra

do centro da praça
partem emissários e ordens
encomendas e despachos
fabricam-se realidades
emitem-se pagamentos
decide-se o quê
quando como para quem

ao centro da praça
exactamente ao centro
uma coroa de flores
espera os fiéis

defuntos

mais dura é a razão

mais dura é a razão

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)