o meu amigo ti antónio acabou


uma incógnita sempre o seu olhar

uma incógnita sempre o seu olhar

homem de mar
de poucas falas e muito saber
não lhe sei a idade
conheci-o no mar
na faina das companhas

anda agora apoiado
num cajado improvisado
em passeios curtos
com os olhos presos nas ondas
perdidos de já não

paramos conversamos
dizemos palavras poucas
silêncios que se dizem
nos olhos

família antiga na torreira
gerações muitas
com registo nas companhas
os acabou não acabam
diz

leio-lhes os nomes nos livros
em séculos que lá vão

o ti antónio caminha e parte
eu fico com a memória
e algo mais que aprendi

a vida não é mais que isto
ouvir e arrancar um sorriso
palavras mesmo se poucas
onde só a saudade
enche os olhos de sal

até já ti antónio

uma vida de mar

uma vida de mar

(torreira; 2013)

os moliceiros têm vela (46)


contigo quantos?

mais que barcos são homens e a sua história

mais que barcos são homens e a sua história

jamais negarei
o silêncio
as vozes por dentro
o clamor

não sei se algures
um homem poderá ainda
afastar as nuvens
num grito de sol ardente

as palavras que não digo
serão poucas
não procuro a perfeição
o meu tempo é hoje
o meu lugar aqui

sou mais um
mais um
um

contigo quantos?

se quisermos ser mais que silêncio e consentimento, seremos povo

se quisermos ser mais que silêncio e consentimento, seremos povo

(ria de aveiro; regata da ria; 2010)