à conversa com mestre joaquim raimundo (pai) -1


o trabalho que aqui se vai divulgar, resulta de uma entrevista realizada por sérgio paulo silva e publicada na revista “terras de antuã”, nº7 – cuja divulgação foi autorizada pelo autor-, e fotografias cedidas pela filha natalie serra.

mestre joaquim raimundo

mestre joaquim raimundo

À CONVERSA COM MESTRE RAIMUNDO (entrevista de sérgio paulo silva)

Entrevista feita ao construtor naval Joaquim Maria Henriques, Mestre Joaquim Raimundo, no final de 1995, tendo o Mestre, na altura, 85 ou 86 anos.

Quando bati à porta de sua casa ( situada à direita de quem vai, a seguir à Stª Luzía, Veiros, para a Murtosa e toma a esquerda em direcção ao Bico), o mestre dormia a sesta. Foi acordado por sua mulher que só acedeu porque tinha sido companheira de brincadeira de infância do meu sogro – eram vizinhos, no norte, em Pardilhó – e manteve-se sempre connosco, metendo a sua colherada. No texto é assinalada com (M). As reticências significam suspensão de voz ou palavras imperceptíveis. À data da entrevista já o seu espólio – a vara de pontos, os moldes, etc – tinha sido cedido para o museu marítimo de Ílhavo.

A conversa foi gravada com aparelho rudimentar e acaba abruptamente porque não deu para mais.

– (M) Ele agora está muito esquecido…

– Hã ?

– (M)… de muitas coisas.

– Está muito esquecido mas a gente lembra-o! Mestre Raimundo, olhe cá uma coisa, você quando é que começou a trabalhar?

– De pequeno, de pequeno pois. A gente vinha da escola, naquele tempo não se andava no jogo da bola. Não havia bolas não havia nada. Era casa, fazer algumas coisinhas que a gente trazia da escola, algumas contas, alguma cópia para mostrar ao outro dia ao senhor professor, era o Sr. Alípio Portugal, velhote, mais velho c’ó meu pai ainda…

– O seu pai era desta arte?

– Pois era. Já o meu bisavô. Onde o meu avô trabalhava, o estaleiro era do pai dele já.

– E era aqui neste sítio?

– Não, não. O do meu pai era no fim, daquele lado da Murtosa. O aido tem cem metros de frente aqui. O meu pai comprou a maior parte. Uma pequena parte do lado de lá era da minha…Depois de lá para cá ele comprou. Deu para seis filhos, todos iguais, mil trezentos e tal metros cada um. E esta casa é do meu irmão mais novo, ali. E depois as outras quatro partes ainda não tem casa nenhuma.

– Os seus irmãos não se dedicaram a isto?

-(M) Ninguém, nenhum, nenhum.

– Todos não, menos o Américo.

– O Adelino… O meu José que está no Porto. Também saiu daqui com 24 anos. Depois nunca mais… bem ainda trabalhou na arte, na nossa arte, também mais o meu tio Américo, irmão do meu pai, que era dono do estaleiro que ainda lá está no Bico. Os terrenos do meu ti Américo, o pai do meu pai, do pai do meu pai, ainda lá está no Bico, tocados para dentro assim um bocadinho.

– (M) O irmão do pai dele.

– Sim, irmão do meu pai, que era o meu tio Américo. Esse é que chamou para lá o meu irmão. E tinha o Júlio que já morreu na América, era a seguir a mim dois anos. Eu sou o mais velho. A mais velha era uma irmã. Também já morreu. E já morreu o Júlio e estamos quatro vivos, sou eu e o José no Porto e o Américo e o Adelino na América. E esse Américo atão trabalhava com um cunhado meu, começou com o …foram todos para a mesma arte, foi para carpinteiro. Carpinteiro naquele tempo era carpinteiro e pedreiro. Faziam as duas coisas. Era como o meu cunhado. Ele fazia a casa e fazia o forro, fazia as portas, fazia tudo. Ainda havia pouca carpintaria naquele tempo. E o meu irmão era um artista para madeiras. Isso, cuidado… Esse Américo! Mas também já foi daqui com 24 anos…

– (M) Vinte e dois.

– Também foi para a América. E o meu irmão mais novo, atão esse meu cunhado morreu com trinta e sete anos, morreu muito novo, e o mais novo também andava com ele mas, depois que ele morreu, ficou com o pai em casa, não foi para outro mestre, dedicou-se à nossa arte até ir para a América. Nunca trabalhou por conta dele até. Só eu é que me estabeleci. O meu pai deixou-me fazer aqui o estaleiro onde está agora ali a garagem. Mais tarde deixou-me fazer a casa também. O estaleiro foi o primeiro. Vivi lá dezasseis anos em casa do meu pai. Agora está ali o terreno. A casa ficou para a minha irmã, deitou aquilo tudo abaixo, tinha lá uma casinha pequena que ele mandou fazer para mim quando eu me casei. Ainda vivi lá dezasseis anos, lá é que eu ganhei esta casa. Primeiro o estaleiro, a oficina… naquele tempo, ainda me lembro, gastei cinco contos a fazer o estaleiro, barracão, e depois mais tarde a casa, ao fim de dezasseis anos.

– Portanto você aprendeu a arte com o seu pai…

– Pois, pois, então com quem havia de ser?

– Desde a primeira tábua…

– Pois, pois… nem todos. Eu… o meu pai também já os pintava. Construía os barcos e pintava-os. Vê aquelas pinturas? Ali a ré dos barcos, à popa dos barcos, igual àquilo, mais ou menos. Aquilo foi o meu filho que pintou.

– (M) Ele foi mais o Magalhães, chegou mais um artista de Avanca, também um artista pintor. Esse era lavrador.

– Era o Sueco. Foi a Lisboa pintar um barco que foi para Paris e ganhou o primeiro prémio.

– (M) Esse era um barco de mar.

– Um barco de mar prás conserveiras, representar as coserveiras de Portugal.

– Portanto você tanto fazia bateiras como barcos de mar…

– Não, de mar não cheguei a fazer mas se fosse preciso fazer…A construção era igualzinha. Foi pintá-lo. Foi um barco que eles compraram aqui em S. Jacinto, usado.

– (M) Fizeram uma casa dentro.

– Repararam-no bem, aquilo era um hotel lá dentro! E depois foi pintado de novo. Faz de conta que o barquinho era novo. E foi então inçar um grande artista para pintura, esse homem de Avanca. Não construía mas pintava, só pintava os barcos. Esse até andava ò moliço, sabia andar, apanhava moliço e tudo. Mas era um pintor, um artista, cuidado com ele

– Como é que se chamava esse artista de Avanca?

– Sueco, Manuel António Sueco.

– (M) Era muito velho.

– Ele já era velho e então ele nem me conhecia bem mas via as minhas pinturas nos barcos e assim e disse “ olhe, eu só vou se ….primeiro foram falar com ele, foi um homem aqui de Aveiro

– (M) Foram uns que vieram de Lisboa

– E ele disse “ eu só vou se vocês forem falar com fulano” – se eu fosse com ele, que então que ia. Era assim de certa idade e então lá fui de bicicleta para Pardilhó, deixei a bicicleta em casa do meu sogro, fui a pé por Pardilhó lá chamar por casa dele, combinado e lá fomos para a Estação de Avanca, é verdade, para Lisboa…

– Olhe uma coisa, como é que nasce um barco moliceiro?

– Como é que nasce? Duma tábua, chamam-lhe a tábua da arqueação.

– Primeiro é duma árvore.

– Sim.

– Vocês com que madeira trabalhavam?

– Pinheiro manso.

– Só pinheiro manso?

– Não. Pinheiro manso pró cavername

– Pró cavername…

– E o outro também dá para o cavername e para tábuas. Porque o pinheiro manso não dá para o tabuado.

– Ai o pinheiro manso não dá para o tabuado?

– Pois, porque é cheio de rancas, não sabe o que é?, o pinheiro manso é tudo cheio de rancas. Está ali um na beira da estrada, eu estou ali a vê-lo, é tudo cheio de rancas para um lado e para o outro. Isso é bom é para dar cavernas

– Para dar cavernas…

– Para dar cavernas e braços. Cada caverna leva um braço.

– Cada caverna leva um braço…

– Pois. Pois, por exemplo, isto é o fundo e aquí arranca-se a pinheira e a raiz faz o costado mas falta um braço dacolá para fazer outro cortado. Chama-se um braço.

– Então o pinheiro manso é para fazer o cavername…

– O cavername e o outro também dá cavername mas não é tão bom para cavername. Não dá tanto. Sim e para o tabuado. Eles agora faz os barcos, os poucos que os faz. Tenho um sobrinho em Pardilhó, não sei se a minha mulher já lhe disse que faz barcos moliceiros, um sobrinho, filho dum irmão da minha mulher que já morreu, o Salvador. Mas as tábuas são emendadas, para ser serradas na fábrica, as três tábuas, a da quilha, uns chamam-lhe da quilha, outros a tábua da armação, para armar o barco, que era a do centro que ia da roda da ré à roda da proa, era sempre inteira e dos lados, as duas dos bordos, onde levava os bordos encostados, também as duas inteiras, as três tábuas. Depois as outras levava mais duas por baixo, a encher o costado, nessa fazia ir inteiras como a meio ou mais que meio, uma em três partes, outras só duas ou assim conforme. Isso já não tinha importância nenhuma. As três é que eram sempre inteiras.

– E essas tábuas inteiras eram feitas de que madeira também?

– Pinheiro. Primeiro bravo. Serradas aqui. Eu ia transportá-las às vêzes lá para S. Martinho da Gândara, perto de Oliveira de Azeméis, Loureiro, por aí, Albergaria-a-Velha, Albergaria-a-Nova, a gente comprava pinheiros… era onde os havia.

– Mas tinham que ser pinheiros muito velhos para dar…

– Velhos e sãos, não ser pôdres e depois a transportá-los com carreiros da Póvoa, tinha carreiros da Póvoa aí. Ainda está aí um vivo, acho eu. Só se ele morreu há pouco tempo, Chico Alegria, que é manco, que é logo a primeira casa depois que se passa aquela vilage nova, à esquerda.

– Mas os carros de bois, como é que transportavam assim aqueles pinheiros tão grandes?

– Com dois carros.

– Ah, era com dois carros!

– Pois, um atrás e outro à frente.

– Pois era… Não, quando era um pinheiro só uma junta chegava.

– Uma junta chegava…

– Até havia sítios às vêzes que os que…depois de estar na estrada uma junta trazia um pinheiro mas quando eram mesmo grossos…uma vez eu vinha com um de lá, de Salreu, lá de cima de Albergaria-a-Nova ou Soutelo, eu comprava por aí, por todo o lado, e chegamos ali a Estarreja, também já morreu, coitado, Manuel do Avô, já o avô dele carreava para o meu avô, pr’ó meu pai e chegou a carrear para mim também o pai desse carrego. Tinha duas vacas que agarravam muito bem, puxavam muito bem mas chegou-se ali ao Antuã, aquela subida ali apicada, direito acima…

……..

(continua)

marca do mestre raimundo

divisa do mestre raimundo, segundo ana maria lopes

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