postais da ria (56)


falo de ti

os árduos caminhos do pão

os árduos caminhos do pão

admito que penses
sei que existes
e por isso deves

admito que tenhas opinião
sei que existes
e por isso deves

admito que deves
admito que penses
até admito que admitas
que eu pense que tu existes
e a tua opinião
é escrava dos teus

interesses

pesados os passos, perdidos

pesados os passos, perdidos

(ria de aveiro; torreira; cabrita de pé)

os moliceiros têm vela (19)


amor longe

só o vento os leva, na memória ficam

só o vento os leva, na memória ficam

é de longe
que a terra se sente
mais íntima
mais nossa

não estranhes pois
este amor
que se estende por um tempo
onde não habitas
porque

foste dos que ficaram

serão sempre belos e muitos, assim queiramos

serão sempre belos e muitos, assim queiramos

(ria de aveiro; murtosa; bico)

postais da ria (55)


meditação à beira ria

sempre em frente

sempre em frente

vou por onde
caminhos houver por
de água serão se
necessário for
não os temo

foi tempo de subir
e recusei
foi tempo de voar alto
dobrando-me

“vê se sobes na vida filho”
e eu
“não quero subir quero ficar ao lado”

ficou-me hirta a coluna
abertos os olhos atentos
pronta a palavra necessária

não subi
verdade se diga
mas fiz alguns

ficarem
ao nível do chão

(ria de aveiro; murtosa; bestida)

os moliceiros têm vela (18)


haja janelas

há um barco que nos espera para partir

há um barco que nos espera para partir

falo agora de um tempo cansado
curvado ao peso dos dias
o meu tempo
eu

é duro neste tempo onde o meu por dentro
olhar e ver
sentir
ser irmão do irmão
e irmão de ainda mais

solidão não é estar só
é estar mal acompanhado

falo de mim e digo
amanhã serei o mesmo
doa o que doer
a quem doer

haja janelas

não partas antes de mim

não partas antes de mim

(murtosa; regata do bico; 2007)

postais da ria (54)


eis a questão

o silêncio da ria convida

o silêncio da ria convida

ser ou não ser
não é a questão
ambos são

fazer ou não fazer
essa sim
a grande questão

faz-se o homem como caminho
fazendo-se
fazendo

o silêncio que a ria respira
é uma forma de ser
o silêncio que do homem transpira
é o seu não ser

eis a questão

a beleza da ria surpreende

a beleza da ria surpreende

(ria de aveiro; torreira)

os moliceiros têm vela (17)


os moliceiros têm vela (17)

voa meu barco voa

o sermar já nas mãos do zé papa-lamas

o sermar já nas mãos do zé papa-lamas

há um barco menina
vogando nas águas da ria
cabelo ao vento
corpo aberto ao sal

voa meu barco voa
não deixes que te cortem as asas
és belo demais

de bica erguida
corta o tempo a direito
que mais não é que outro vento

deixa os homens não o serem
e sê tu mesmo se contra eles

ahcravo_DSC_5881_sermar zé papa-lamas
(ria de aveiro; regata da ria; junho, 2014)

os moliceiros têm vela (16)


da fotografia

a dança dos cisnes

a dança dos cisnes

onde andam agora os que
da terra a memória serão
de tantos olhares gravados

máquinas muitas prontas
a registar a festa da ria
o bailado dos moliceiros
voando como nunca
porque  sem carga

onde andam agora as imagens
roubadas ao tempo
para nos serem ofertadas um dia?

fotografar não é
procurar a beleza e guardá-la
para concursos negócio ou
gozo próprio narcísico

fotografar é um comprometimento
com o sentir de um tempo
com as gentes que nos olharam e pensaram

amanhã vou lembrar-me de hoje

enchem-se os olhos e a memória sorri

enchem-se os olhos e a memória sorri

(murtosa;regata do bico; 2012)