choveu na ria
há chuva por dentro do verão
por dentro dos olhos
dos dias onde
memórias
pesam
tudo se desvanece
num filme
onde não me queria
onde ninguém
também a ria
também a ria
vai passando
vai
vai
(ria de aveiro; torreira; jul, 2014)
porque amavam o mar
há poucos dias
30 de junho para ser preciso
o poeta joaquim namorado
faria cem anos se vivo
hoje passam dez anos
sobre a morte de sophia
os poetas
os grandes poetas
vão crescendo na memória
o pulsar a vida
em cada verso
o sentir de um povo
em cada poema
serem de carne e sangue
as palavras
o seu legado
estar aqui ainda
é serem eles em nós
a voz necessária
(torreira; companha do marco; jun, 2014)
“NÃO MATEM OS MOLICEIROS”
já perto de s. jacinto, o moliceiro do ti zé rebeço, ultrapassa o do ti abílio carteirista.
desde o protesto de 2012, por não ter havido regata, que o ti abílio mantém a tarja “NÃO MATEM OS MOLICEIROS”, no seu barco.
há mensagens que é preciso manter vivas e esta é muito forte, actual e necessária.
lembrem-se dela os que hoje se limitam a fotografar ou a descrever as regatas.
os moliceiros são homens e barcos, são seres vivos que precisam não só de olhos, mas de braços e mãos, de vozes e sentires, que se unam na sua defesa e preservação.
seja cada um de nós um moliceiro a dizer: assim não! queremos mais e melhor das entidades que mandam directamente nesta região, que são responsáveis pela cultura deste povo.
o ti abílio acabaria a regata em segundo lugar, aos 78 anos de idade, registem bem: aos 78 anos de idade.
será que não merece o nosso respeito esta geração que começou a vida “ao moliço”, na ria e que até ao fim da vida continua a fundir-se com o seu barco?
o ti abílio, fez a sua vida na alemanha, lá deixou a descendência, mas é na ria, a bordo de um moliceiro que se sente vivo.
até quando?
(ria de aveiro; 28, jun, 2014)
fossem de trabalho as mãos
entram e saem
compram vendem
vendem-nos
ganham muito sempre
astronómicas somas
pequeno o défice para tanto
para tão poucos
hoje eu
amanhã tu
sempre a famílias
os amigos
compadres
comparsas
comendo na mesa farta
revezam-se
fossem de trabalho os dias
seriam menos os que
de poleiro cantariam
de saber
que o que gastam e malbaratam
teriam de pagar
haja dinheiro basto
que advogados e padrinhos
não faltarão
a banca de novo
(torreira; companha do marco; jun, 2014)
pinturas dos painéis
característica muito própria dos moliceiros, são as pinturas feitas nos painéis da ré e da proa.
como já escrevi antes um dos objectivos das regatas da ria é, não só, a manutenção dos moliceiros mas, fundamentalmente, a renovação das pinturas.
habitualmente quase todos os moliceiros, vêem as pinturas renovadas por altura das regatas.
para isso os prémios de presença, eram divididos em duas fatias:
– participação
– pintura
este ano, para além da desorganização, havia somente prémio de participação que, embora tenha tido um valor praticamente igual ao valor global anteriormente atribuído, não premiava especificamente a pintura.
os painéis só eram valorados em termos de concurso final.
desorganização e estrutura do apoio levaram a que só dois moliceiros da classe A (mais de 13 metros) tenham sido pintados a tempo:
– A. Rendeiro
– Zé Rito
o moliceiro “Dos Netos” ficou com as pinturas por concluir
neste registo o pai do pintor Zé Oliveira, Manuel Augusto (Necas Lameirão) pinta um dos painéis da proa do moliceiro “Zé Rito”
(ria de aveiro; torreira; estaleiro do mestre Zé Rito)
meditação à beira mar
há os que lutam pelo futuro
os que vivem o presente
e os que choram o passado
há ainda
os que se fazem presente do presente
para ganharem no futuro
um lugar no passado
pode parecer apenas um jogo de
palavras
uma brincadeira em torno da gramática
mas é um retrato de muito boa gente
são tantos
tão pretensamente felizes consigo mesmos
tão tão eus
esquecem-se de uma coisa simples
é que podem
também eles
ser esquecidos
o espelho é de cristal fino
– o carregar do saco na zorra, é tarefa de peso –
(torreira; companha do marco; jun, 2014)
porque nem tudo foi fácil, porque o moliceiro do mestre zé rito quebrou o mastro ao cambar, para entrar no canal de aveiro, é a ele que dedico este registo.
apesar de estar nas condições que se podem ver, a vantagem que levava em relação aos mais afastados da linha da frente era tal, que ainda chegou em quarto lugar.
a classificação final foi a seguinte:
Classe A
1º – A. Rendeiro ( Zé Rendeiro – Rebeço )
2º – Dos Netos ( Abílio Fonseca – Carteirista)
3º – Manuel Silva (Manuel Vieira – Valas)
4º – Zé Rito ( Zé Rito)
5º – Câmara da Murtosa
6º – O Amador (Felisberto Amador – Caçoila)
7º O Marnoto (Domingos Marnoto)
8º Manuel Vieira (Manuel Vieira – Valas)
Classe B
1º Pequenito (Manuel Valente – Vareiro)
2º Cristina e Sara (Ti Virgílio)
(ria de aveiro; 28, jun, 2014)
a agulha
desfazer nós
metáforas baratas de falsos consensos
acender uma vela
por pequena que seja
ver e mostrar
saber e dizer
sem pretensões de longe
sem ilusões de muito
falar e dizer
porque calar
é consentir
sabedoria de povo
quantas vezes calado
fina e diminuta a agulha
a picadela
isso tão só
(torreira; companha do marco; jun, 2014)
fricção e realidade
realizou-se ontem, dia 28 de junho, mais uma regata da ria. quem acompanhou dia a dia o caminho percorrido até à sua realização, só pode dizer uma coisa: grandes são os homens que ainda vão tendo moliceiros, que sem eles, nada se teria realizado.
a desorganização foi total, apesar de anunciada com pompa e circunstância na página do turismo do centro, como o grande evento do “aveiro weekend 2014” e ser a murtosa considerada a “pátria dos moliceiros”, só na segunda-feira dia 23, se realizou a primeira reunião com os proprietários de barcos, e só nessa altura alguns souberam da regata. convocatória? tá na net!
entre o que consta da brochura sobre o “aveiro weekend 2014” e as actividades que envolveram a regata, qualquer semelhança para além da data, é estranha.
na reunião foi proposta, por quem “de direito”, a participação de bateiras com mais de 7 metros, à vela. proposta que já comentei a seu tempo.
na torreira, de onde parte sempre a regata, só um cartaz anuncia há tempos a semana europeia do cicloturismo. sobre a regata, nada!
ao chegarem a aveiro, não havia qualquer representação das entidades oficiais a saudar os participantes. depois de chegarem ao parque da fonte nova, ao lago em frente à antiga cerâmica campos – actual centro de emprego de aveiro – houve que esperar que o presidente da câmara de aveiro, chegasse para que se ouvisse o discurso da praxe e tivesse lugar a entrega de prémios.
um discurso com alma, como é de bom tom, afirmando a disposição de apoiar os moliceiros, como os italianos as gôndolas de veneza, tarefa para “os europeus de aveiro” – cito. elogio ao presidente da câmara da murtosa – onde estava? -, à associação náutica da torreira e a todos os moliceiros.
enquanto proferia o seu discurso, mesmo atrás do palco montado para o efeito, jazia, no lago artificial, um moliceiro em estado lastimável, a apodrecer, na tal praça mais nobre de nobre de aveiro, com um hotel de luxo numa das margens.
volto a citar almada negreiros: “ a pátria onde Camões morreu de fome e onde todos enchem a barriga de Camões”. troque-se pátria por aveiro e camões por moliceiros, e temos um retrato actual do que se passa na ria de aveiro.
a fricção da realidade, é gritante para quem não se limita a fazer “bonitos”, seja em fotografia, seja no que for, mas que queira saber onde vive e esteja atento.
apetece convidar o sr. presidente a participar na próxima regata, no moliceiro que está no largo da fonte nova, jazendo num lago artificial.
(aveiro; regata da ria 2014)
depois de muitas e variadas peripécias: quem vai, quem não vai, as bateiras vão ou não vão, chove ou não chove … que foram tantas e tão conformes à desorganização total do evento, só mesmo na hora da partida se soube tudo.
barcos moliceiros que participaram:
classe A (barcos com mais de 13 metros)
– murtosa : “a. rendeiro”, “dos netos” e o “moliceiro da câmara”
– torreira: “zé rito”, “manuel vieira” e “manuel silva”
– pardilhó: “o amador”
– gafanha: ” o marnoto”
classe B (barcos com menos de 13 metros)
– ovar: “pequenito”
– torreira: “cristina e sara”
em resumo: participaram 8 moliceiros grandes, 2 pequenos e nenhuma bateira, com mais de 7 metros, à vela.
foi uma regata de luxo, com bom vento, bom tempo, boas nuvens e muita competição.
a tripulação vencedora:
todos de parabéns por terem ganho uma regata para a qual arrancaram em último lugar.
(ria de aveiro; 28, jun, 2014)