crónicas da xávega, torreira (13)


 

o ti américo e a chegada da manga do reçoeiro

o ti américo e a chegada da manga do reçoeiro

 

queria pensar menos
o tempo das máquinas
não é fim do tempo dos homens
é um outro tempo
onde o mesmo homem é outro

queria pensar menos
viver mais à tona dos dias
boiar por aí
sem âncora
nem raízes

que tempo é este
onde o pão para uns
é uma mesa onde milhões se perdem
em condicional
ou domiciliariamente acomodados
enquanto para outros
é arrancado com raiva aos dias
que começam com o sol?

queria pensar menos
– o ti américo, acelera no alar da manga do reçoeiro e todo ele é o instante –

 

(torreira; companha do marco; jun, 2014)

postais da ria (16)


 

josé miguel e doroteia verónica

josé miguel e doroteia verónica

 

 

em 2012 a regata da ria foi cancelada por “alegada” falta de verbas. a organização era de uma associação sediada na ribeira de pardelhas e que dá pelo nome de “amiria” – associação dos amigos da ria.

nesse ano alguns moliceiros organizaram uma simbólica regata de protesto, com bandeira negra e uma tarja onde se podia ler “NÃO MATEM OS MOLICEIROS”.

em 2013, a organização da regata mudou de mãos e …. realizou-se. os pagamentos dos prémios devidos pela regata efectuada em junho de 2012, prolongaram-se até março de 2013, isto para não falar nas peripécias já contadas em tempo.

o facto é que houve regata e este ano ainda volta a a haver.

no registo de hoje vêem-se os moliceiros ” josé miguel” e “doroteia verónica”, num momento de competição renhida, na regata de 2009.

cinco anos passados e nenhum deles estará na regata de amanhã, já que ambos foram vendidos, por os seus proprietários não terem condições, nem apoios, para os manter.

assim se vai escrevendo a história da ria, a de uma morte lenta a que ano, após ano, alguns vão resistindo e outros sorrindo.

amanhã é mais um dia
(ria de aveiro)

crónicas da xávega, torreira (12)


 

o barco de mar maria de fátima, do arrais marco silva

o barco de mar maria de fátima, do arrais marco silva

dos homens

 

não basta crescer no tempo

ser maior no tamanho

contar mais dias

 

o homem

ou cresce por dentro

ou é a desilusão de o não ser

 

que coisa é o homem?”

perguntava drummond

apetece dizer de alguns

nada mais que coisa

nada mais e muito já é

 

estendo os olhos pela areia

sigo rastos efémeros

e pergunto

 

porquê?

 

(deitado na areia, o maria de fátima ouve-me cúmplice e leva-me para longe de tudo isto. estou no meio de um mar, onde só ele sabe levar-me. sonho sem vontade de acordar)

postais da ria (15)


 

a invenção da memória no cais do bico

a invenção da memória no cais do bico

 

ti zé rebeço

 

chama-se josé rendeiro, mas todos o conhecem por “zé rebeço”. nunca anda descalço, mas com os sapatos que a mãe lhe deu quando nasceu.

ontem, enchi-me de coragem e perguntei-lhe:

-ti zé, quantos anos tem?
-oh cravo, quase três quarteirões

filho de moliceiro e pequenos agricultures, foi criado no meio do moliço e nos moliceiros.

dunate 20 anos ganhou a vida no canadá, onde regressa todos os anos para consoar com filhos e netos.

mais que homem da ria, é um homem com uma dimensão humana rara de encontrar: um homem bom.

decano dos moliceiros da ria de aveiro, não perde uma única oportunidade para viver a ria; em 2009 encontrei-o no cais do bico a fazer uma descarga à moda antiga, de uma barcada de “cabelo de cão” – alga que tinha então aparecido na ria. quis reviver o tempo do moliço como adubo natural e fê-lo com o que a ria dava.

não falta a uma regata de moliceiros e de bateiras à vela.

– três quarteirões se chegar ao fim do ano, cravo!

o ti zé rebeço é um tesouro da ria, nasceu rente a tudo, cresceu à custa de muito trabalho e sacrifício, é um dos homens, poucos, com quem merece a pena usar um dia.

 

(ria de aveiro; murtosa; cais do bico)

 

crónicas da xávega, torreira (11)


 

 

a escolha e eu ... ando por aí

a escolha e eu … ando por aí

 

meditação à beira mar

 

olho agora tudo com o desprendimento
de quem nada mais tem a perder
que a si mesmo
e é tão pouco

se da vida esperei muito
dos homens nunca esperei tanto
mas é tão pouco o que deles vejo hoje
que ser mais um
é pedir de menos a mim próprio

não trago a verdade no bolso
nem a história é coisa que dono tenha
olho sinto e não entendo

continuo a gritar
dentro de um pesadelo

quem me roubou o sonho?
(torreira; companha do marco; jun, 2014)

postais da ria (14)


 

na regata de 2010, o "Ricardo e Sérgio" ainda vogava de velas panadas na ria

na regata de 2010, o “Ricardo e Sérgio” ainda vogava de velas panadas na ria

 

segundo as estimativas dos moliceiros com quem falei hoje, não participarão mais de 7 barcos grandes na regata de sábado e 4 pequenos.

se considerarmos a forma desorganizada como a regata foi tratada, até que nem é mau de todo.

fica uma nota: apenas 2 moliceiros têm os painéis pintados de novo, isto quando a intenção da criação das regatas era precisamente a renovação anual das pinturas.

no que diz respeito às bateiras, ninguém sabe quantas são, mas parece que não há muitas inscritas. de qualquer modo, quem teve a “brilhante” ideia da sua inclusão na regata não pensou que elas são incapazes de acompanhar os moliceiros e que, se as houver, irão estar num pelotão atrás….

ou seja. é como se houvesse duas regatas…… mas, quem pode manda.

de qualquer modo, se me é permitido dizer algo sobre o interesse fotográfico da regata, a resposta é:

ESTEJAM PRESENTES, VALE SEMPRE A PENA

mas, não se esqueçam, também, de que se a regata acontece é porque ainda há homens que suportam os custos das festas dos outros: os donos dos moliceiros

 

(o registo é da regata de 2010, e o moliceiro que vai na frente, o “Ricardo e Sérgio”, do arrais marco silva, faz parte daqueles que tiveram de ser vendidos por falta de apoios à sua manutenção.

esta é um pouco a história da ria: cuidar dos mortos e enterrar os vivos)

postais da ria (13)


 

os cisnes ainda vogavam em bando

os cisnes ainda vogavam em bando

 

da beleza

 

pesquisar qual a utilidade da beleza
é procura inútil

a beleza acontece
sem motivo outro
que beleza ser

a bica da proa e a decoração
dos moliceiros
são disso evidência
aconteceram para serem

aconteceram
cada vez mais
para terem sido

sento-me à mesa da ria
cravo nela os cotovelos
à sua roda os meus e todos
os que nela foram um dia

todos
estão aqui agora
mais que nunca

vogando dentro
do mais belo
barco do mundo

 
(ria de aveiro; canal de ovar; 2010)

postais da ria (12)


 

o doroteia verónica na regata de 2010

o doroteia verónica na regata de 2010

 

o princípio do fim

como tinha escrito em postal anterior, realizou-se ontem a reunião que preparou a regata do próximo sábado dia 28.

ficou estabelecido o seguinte

1. embarcações que podem participar

a) moliceiros (15 metros de comprimentos)
b) moliceiros pequenos (menos de 15 metros de comprimento)
c) bateiras à vela (com mais de 7 metros de comprimento)

2. a partida será cerca das 14h30m, da torreira, no sábado dia 28
3. no domingo 29 será o concurso de painéis no canal principal de aveiro e haverá uma exibição no “lago” da cerâmica campos, em aveiro.

pela primeira vez as bateiras vão poder participar, esta “inovação” pretende colmatar a falta de participação de moliceiros (lá estaremos para saber quantos restam), mas são ao mesmo tempo o sinal de que o ano passado se realizou a última regata da ria.

este ano começam as recriações. o que virá a seguir?

o barco que aparece neste registo, o doroteia verónica, na regata de 2010, vi-o há 2 anos em muito mau estado na lama do canal de aveiro. a ele seguiram-se outros.

estar presente na recriação da regata dos moliceiros de 2014, é uma obrigação porque é a primeira das últimas

 

(ria de aveiro)

postais da ria (11)


 

 

regata da ria, 2009. sente-se a nortada

regata da ria, 2009. sente-se a nortada

 

no postal da ria (7), do passado dia 20, alertava para o facto de, apesar de a regata da ria estar prevista para o próximo sábado dia 28, ainda não haver um único moliceiro inscrito.

escrevi ainda que “constava” que além de moliceiros, seriam incluídas na regata, bateiras à vela.

coincidência, das coincidências, a câmara municipal da murtosa, marcou para hoje às 18h30m, uma reunião com eventuais participantes.

não sei de agenda, nem de presenças, nem de decisões, nem tenho de saber. sou apenas um curioso e um amante da ria. e isto é coisa a tratar entre homens da ria e quem nela pensa mandar.

mas, convenhamos, para uma regata marcada pelo turismo do centro há meses, marcar uma reunião com os interessados na segunda feira da semana em que ela se realiza, demonstra uma invulgar capacidade de planeamento, vontade e organização, por parte dos edis da “pátria dos moliceiros”.

será que não sabem que é preciso, pintar, reparar, e preparar os barcos para a regata, que é a primeira do ano?

será que estou mal informado? espero que sim.

espero que ande por aqui enganado, a passar o verão, e só me saiam provocações da cabeça.

afinal, quem sou eu?

espero, espero sempre, que tudo corra pelo melhor. eu quero o melhor para a ria.

acho que já ficou claro, para quem me conhece, que não quero estar de bem com todos, quero estar de bem comigo e quero o melhor para a manutenção das tradições.

mas…. como disse um responsável da terra, a um moliceiro, sobre a sua participação na regata: “você é que sabe”. como é fácil governar, assim.

entretanto aqui fica um registo da regata de 2009

 

(ria de aveiro)

crónicas da xávega, torreira (10)


 

 

 

há quem trabalhe e quem queira mandar no que desconhece

o delmar viola repara o saco da xávega

falta-lhe a cadeira de coiro
recostável com rodinhas
falta-lhe o ar de quem julga saber
e por isso fala do alto da sua ignorância pesporrenta
ditando leis de que ignora
o como e porquê
não é um senhor

sabe que sem redes reparadas
não há peixe
que sem ele não há janta

corpo miúdo franzino
seco e com genica
conhece quase toda a gente
não é de silêncios
uma conversa é sempre bem vinda

chama-se delmar
de alcunha é viola

não sei há quanto tempo
o conheço
(torreira; companha do marco; jun, 2014)