o tractor, a muleta, o barco e o mar
(torreira; companha do marco; 2010)
esgota-se o gesto
no movimento
suspende-se a mão
no instante
a voz
queda-se por onde
os amigos
quem passa
quem sabe
das horas a
largar
alar
safar
arrumar?
feitas
as contas
a paga
não chega
para
partes e
são de mar
do alto
os dias de pão
que trarás
que comerão
(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)
o reçoeiro e a mão de barca são das duas cordas (cordadas) que fazem fixe no calão e através das quais se faz a alagem do aparelho.
cada uma destas “cordadas” é consituída pela união de “rolos de corda” ou “peças de corda” com 220 metros de comprimento.
o arrais marco, chega a utilizar 8 a 9 rolos num lanço, ou seja a rede é largada entre 1760m e 1980m da costa.
o enrolar dos rolos, no momento da alagem e a sua disposição correcta durante o aparelhar do barco, garantem um desenrolar sem problemas durante o “largar” do aparelho.
(torreira; companha do marco; 2010)
a cabrita baixa é uma das artes mais duras da ria de aveiro.
é uma arte mariscadora de arrasto pelo fundo que exige muita força de braço, jogo de cintura e muita resistência.
são frequentes as lesões no músculo do cotovelo, por isso a posição da mão que sobre ele se fecha.
o sofrimento é visível no rosto de ana tripas.
na ria é assim
(torreira; cabrita baixa; 2012)
são estes os momentos mais dramáticos e “fotográficos” da xávega, aqueles em que procuramos um momentâneo equilíbrio entre a amizade e a
admiração dos que dentro do barco vão, e a força do mar a espumar raiva.
é uma divisão entre o espectáculo e a amizade/admiração.
para o que der e vier, com eles e com todos para que saibam como é, o imaginem pelo menos: estou lá e procuro fazer o melhor. isso lhe devo como amigo.
se as faço a eles as devo, se não as faço melhor é porque é muito difícil ser-lhes semelhante na arte.
(torreira; companha do marco; 21010)
espero
espero sempre
mesmo se não
saiba o quando
o como o porquê
é como se
um tempo outro
uma memória presente
pressentida
algo difuso
provocadoramente belo
existo
por entre
sem muitas vezes
saber como
tanto tempo assim
nada é nítido
temo quando o for
(torreira; companha do marco; 2010)