a fala silenciosa dos bois


 

 

mansa força bruta

mansa força bruta

 

somos agora outros
não tantos
não tão possantes
marinhões ainda
força
mansa e bruta
bois juntos
juntas de

memória de ter sido
nos genes tão só
cuidai disso quando
de nós quiserdes
o que fomos
sem o sermos

reviver não tem de ser
sofrer

(recriação da xávega, torreira, setembro 2013)

a lição


 

o fernando nuno a repara as redes da solheira

o fernando nuno a repara as redes da solheira

 

(o drama do redeiro

“quanto mais malhas faço
mais buracos ficam”)

 

sabe-te aqui
um aprendiz da vida
das coisas simples
que não carecem de escola outra

em cada dia
comer o pão
suado
é lição bastante
de sabedoria

ouve

(torreira; porto de abrigo)

escuta-te


 

 lentos, os moliceiros aproximam-se, deslumbramento de

                                                                                    lentos, os moliceiros aproximam-se, deslumbramento de

raiva de não poder
prender o tempo
permanecer por dentro
dos instantes em que
o deslumbramento
cresce para mim

escuto de novo o silêncio
a isso te convido também

o que ouves
não é som
é imagem
é música

escuta-te

 

(ria de aveiro; torreira)

o chegar do saco e a calima


 

lá ao fundo a calima(e)

lá ao fundo a calima(e)

 

 

o lanço está quase terminado, falta só ver o que deu.

o saco chega à praia, ao fundo vê-se a bóia, “arinque” que assinala o fundo do saco e que aqui, como na antiga xávega da costa algarvia, se chama “calima” ou “calime”

 

(torreira; companha do marco; 2010)

a imagem é a mensagem


 

 

a apanha de bivalves nos secos da ria

a apanha de bivalves nos secos da ria

 
busca a essência dos dias
nas coisas mais simples
que não as mais evidentes
muitas vezes sequer as visíveis
abre os dias por dentro

não são de oiro o suor
as dores no corpo vergado

mostra o sentir
mesmo se tiveres de mostrar
o que não se vê

a imagem é a mensagem

 

 

(ria de aveiro; torreira; mariscar)

barrancos na praia


 

 

agostinho trabalhito

agostinho trabalhito

com as marés vivas de s. bartolomeu, muitas vezes criam-se na praia autênticos barrancos.

os tractores têm de ficar no cimo enquanto as redes vêm pelo areal, rente ao mar. os homens, então crescem, esticam-se e cumprem as suas tarefas.

neste registo o agostinho está a amarrar a corda de alar antes do calão para que este não passe pelo alador.

força, agostinho!

 

(torreira; companha do marco; 2010)

vive


são dois moliceiros e vêm à vara, o vento adormeceu

são dois moliceiros e vêm à vara, o vento adormeceu

 

escuta de novo

o silêncio

a beleza adivinha-se

senta-te dentro de ti

espera

 

deixa que os teus sentidos

se resumam a um só

a visão

vê tudo como se nunca mais

é único

és único

 

nada se repete

e tu

tu estás aqui agora

 

sorri apenas

 

 

(ria de aveiro; torreira)

 

 

pancada de mar na praia


 

barco de mar, maria de fátima

barco de mar, maria de fátima

o movimento lento do barco para entrar na água faz-se quando acontece um “liso”, entra o que pode e aguenta as pancadas necessárias até que surja novo “liso” que lhe permita avançar mais, ou a largar definitivamente.

as ordens do arrais são para terra – tractor e regeira – e para os homens do barco, todos têm de “aguentar” e manter o barco firme e perpendicular às ondas.

tudo se tornará mais rápido e fácil com alteração da muleta. a seu tempo veremos como.

até lá: “aguenta!!!!!!!!”

 

(torreira; companha do marco; 2010)

os putos da ria (1): léo brandão


 

léo brandão

léo brandão

 
desde pequeno que o léo é um amante da ria, o pai, o joão padas, só o deixa “trabalhar” na ria durante as férias e se passar de ano.

tem tudo à sua medida, fato de borracha, cabrita alta e baixa.

é um verdadeiro homem da ria, de uma timidez e capacidade de ajuda fabulosas.

este registo é de 2011

 

(ria de aveiro; torreira; porto de abrigo)