xávega: a escolha do peixe


 

 

o peixe a seus pés

o peixe a seus pés

se o saco traz peixe em quantidade, enchem-se com ele caixas de plástico, que são despejadas no atrelado onde a companha faz a escolha para caixas menores, separando por espécies e tamanhos.

depois as caixas são despejadas para dentro de uma tina cheia de água do mar, lavado da areia, e peixe é finalmente acomodado nas caixas em que irá à lota.

poucas são as praias que têm lota, no caso da torrreira o peixe é vendido na lota de aveiro ou matosinhos, conforme a hora, a quantidade e o preço a que estiver a correr o peixe que foi pescado em maior quantidade.

(torreira; companha do marco; 2010)

tu no centro


 

 

como se formigas

como se formigas

uma frágil linha
ténue
brevíssima
separa o real do real

(confunde-te o que digo
mas escuta)

se longe ou de perto
o mesmo
é muito diferente
como o vires
assim o darás

a beleza longe
é dor se perto
ambas reais
que tu recrias
em coisa única
sem o saberes

não sejas apenas
os teus olhos
(torreira; cabrita de pé)

nem tudo o que luz é prata


nem tudo o que luz é prata

nem tudo o que luz é prata

é peixe do mar

pelas ruas as peixeiras
corriam descalças
canastra à cabeça
quantos quilómetros nos pés
na garganta a cantiga
variava conforme a praia

“é peixe do mar”
“sardinha do nosso mar”

quantas vezes peixe na ida
couves batatas cenouras broa
algumas moedas ou notas
no regresso
o cansaço e o pão
sempre o pão
para a mesa da janta

foi-se a sardinha
do carapau o intermediário
come a carne e deixa a espinha
a cavala devora o carapau
afasta-o da costa
e é de pouca valia quando enche as redes

o jaquinzinho
é perseguido pela europa
e seus sicários nacionais
para ser comido
em manjares recatados
para depois ser vendido como canção

xávega quem te ouve?

(torreira; companha do marco; 2010)

 


 

a senhora

a senhora

 

os saberes são os de sempre

como os barcos e os aparelhos

receberam e dão

pais de filhos

memória são

 

homens e mulheres

jovens e menos jovens

todos

procuram no debaixo das águas

o pão que noutro sítio não sabem

 

porquê agora?

porquê aqui?

porquê?

 

chamam-lhe fé

 

(torreira; porto de abrigo)

bordões e estacadões


 

massa (joaquim rodrigues e gabriel dias

massa (joaquim rodrigues e gabriel dias

quando as mangas chegam à praia é necessário “ampará-las” para que não sejam arrastadas pela força da corrente e se abram, deixando o peixe fugir.

se não se tem este cuidado pode-se dizer que todo o trabalho de um lanço “morre na praia” porque sem peixe.

para amparar as mangas servem os bordões e a força de braços e pés.

aos bordões, chamam os pescadores da praia de mira “estacadões”. este é um dos problemas com que se defrontam os “estudiosos” da artes de pesca: as designações locais para o mesmo apetrecho ou arte. mas isso é outro assunto.

a dar o seu melhor estão o massa (joaquim rodrigues) agarrado ao bordão e o gabriel dias.

(torreira; companha do marco; 2010)

os noivos do mar


 

barco mar maria de fátima

barco mar maria de fátima

 
só sei de dois mares
o dos que ficam com ele
pendurado nos olhos
e o dos que só são se por ele dentro

ter o mar por destino
é ter nascido e crescido a ele igual
tê-lo ouvido rugir no berço
nas noites de nortada invernal
e esperar ansioso o dia

de com ele noivar

 

(torreira; companha do marco; 2010)

os cisnes da ria


regata de moliceiros no bico, murtosa

regata de moliceiros no bico, murtosa

pisam um palco
que sempre foi seu
jardineiros de um jardim
ora submerso
ora flutuante

são os mais belos
barcos do mundo
as mulheres dos barcos
machos do mar

esbeltos oferecem-se
ao casamento manso com
as águas virginais
(em tempo diria)
da ria

são tão belos
quanto usados
e desprezados
pelos que os usam
como emblema
orgulho e amor de quem os tem
por filhos e amantes

os cisnes da ria
já são poucos
precisa-se de homens
com h

(bico; murtosa; regata de moliceiros)

porque ficaste na margem


joão manuel dias

joão manuel dias

o esgar vincado

na beleza deste rosto

fala de uma outra ria

da do sangue

que corre sobre as águas

e mergulha fundo

em busca do pão

 

o pão enterrado na lama

o pão que poucos amassam

que é dura

muita dura a faina

 

sempre que vires o nascer do sol

uma névoa a cobrir tudo

e tudo te surja carregado de beleza

postálica vendável em quiosques

popularizada em páginas de fotografia

lembra-te

 

lembra-te deste rosto

que não viste

porque ficaste na margem

(ria de aveiro; canal de ovar; torreira)