do tempo


 

 

 

chuva no vidro

chuva no vidro

 

 

como são cinzentos

estes dias sem sol

húmidos de tantas lágrimas

de olhos nenhuns

caídas

 

é inverno

nenhum inverno

é eterno

 

tempo virá de haver

sol sobre os corpos

e não haverá coelhos

por mais brancos

que escapem vivos

 

falo de estações

e de apeadeiros

 

(torreira; marina dos pescadores)

o carregar do saco na zorra (I)


o saco voa, a zorra é pista

o saco voa, a zorra é pista

braços abertos cega
correu mar
trouxe peixe ou não
na boca imensa
estômago ávido

leve
muito leve
vogou

peixe se o houve
dele cuidaram para a outra fome
e de festa foi o ter havido

esvaído no areal
pesado de tanta areia e mar
espera dos homens os braços
que o libertem
e o levem onde o sol
o tornará de novo ave
para novas viagens

a zorra
a zorro o levará

(torreira; companha do marco; 2010)

a fala da terra


o insuportável peso da palha

o insuportável peso da palha

estão no início e no fim

que à terra volta o que da terra veio

com ela se confundem desde sempre

são o seu rosto o seu corpo vivo

 

o tempo rasgou-lhes na face

os sulcos onde semeou ternura

e amor

pelas coisas simples

água terra fogo

 

amam tudo

que natural é assim ser

o milho os animais o chão

amam-se

 

entre luz e sombra

repartem o dia

porém

tudo iluminam

quando sorriem

 

são ainda a fala da terra

 

(condeixa; eira pedrinha)

sigam-nos


 

ahcravo_DSC_0307_cigano norton de matos

 

deles direi à margem

 

inventaram os centros comerciais

a céu aberto

são senhores do marketing

reinam onde o dinheiro escassa

 

sabem onde e vão

pais do povo a quem estendem

a mão

 

contrafeito

numa terra onde a marca

marca quem a tem

o prazer de enganar a imagem

de desconstruir os símbolos

não enganam é mesmo feito em portugal

aqui onde quase tudo é feito na china

com marca

 

sorriem sempre

sorriem muito

 

de onde vêm para onde vão

é coisa sua

agora

estão aqui e inventam o sonho

a quem só isso resta

 

sigam-nos

 

 

(coimbra; bairro norton de matos)