torreira, 2009
Dificuldade de governar
1
Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.
2
E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.
3
Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.
4
Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?
(Bertold Brecht)
fabricamos o tempo
o nosso tempo
com a música dos gestos
suspensos
no exacto instante em que
vindos do silêncio onde habitavam
nos cercearam as vozes
somos ainda o haver amanhã
um dia de sol aberto a todos
não o impossível sonhado
mas o real a que estamos condenados
pelo facto de sermos
estamos
ali onde palavra e gesto se confundem
não temos medos nem donos
mais muitos mais
crescemos a cada dia
somos a afirmação da recusa
todas as fotos têm uma história, todas falam para além do que diz a imagem. esta foi, sem dúvida, a foto que mais trabalho e paciência me pediu.
o joão da calada sem boné!!!!!!!!!!!!!
um pescador da velha escola, como o joão, só se descobre perante deus. para esta foto foi necessária a cumplicidade daqueles que numa tarde de agosto e de nortada, se tinham recolhido na tasca do joão para umas jogatinas de cartas ou dominó e, por brincadeira, conseguiram tirar o boné ao joão. depois, depois foi preciso ser muito rápido, porque a visão foi de segundos. ficaram 2 registos desse momento.
o joão foi, e é ainda, o meu informador, mestre e companheiro na aprendizagem da xávega, na obtenção dos nomes dos homens e mulheres das companhas que fui registando ao longo dos anos. o joão é meu amigo.
homem do mar e da ria, sei dele o pouco que conta. o joão é pescador e as palavras são sempre as necessárias. as minhas primeiras fotos de barcos de mar foram do barco de mar “óscar miguel”, de que era dono e arrais do joão da calada. tenho em minha casa as miniaturas, feitas pelo ti henrique afonso, dos seus 2 últimos barcos.
como arrais à moda antiga, o joão tinha, e tem, uma tasca onde os pescadores da companha compravam o vinho e se juntavam, para convívio.
a tarefa mais difícil, que ainda espero conseguir levar a cabo. é fazer com que o joão me conte a sua história, pelo pouco que sei dele será uma história muito rica sobre a torreira e a pesca da xávega, na segunda metade do século XX.
(torreira, 2005)
trazer abril no peito
senti-lo sorrir
senti-lo chorar
a raiva e a alegria
no mesmo abraço
basta
um cravo ao peito
um cravo no peito
um cravo apenas
olho os peitos
as lapelas
que aos cravos devem
o estarem
e não os vejo não os vejo
na mão de uma criança
um cravo sorri
sorriso puro
de puro abril
primavera de um tempo outro
sorrio também
tenho uma criança dentro de mim
a sorrir abril
não trago novas
não as sei
há muito que caminho
tudo se repete
na ilusão
não trago novas
os nomes fui-os deixando
sobram alguns rostos
olhares mãos
palavras poucas
não trago novas
há muito que caminho
só isso sei
caminhar e perder-me
e é tanto
o pescador subirá para a bateira
onde o camarada o aguarda
partirão ambos a fazer a maré
eu
eu ficarei no cais mais um pouco
e regressarei a casa
são assim os dias
mesmo aqueles em que
não trago novas
(chegado, murtosa)