o lavar do atrelado
onde escolhido o peixe foi
(à memória do arrais zé murta, torreira, 2009)
ser deste país, é ser resistente, ter de o ser.
há nomes que sabem a resistência, que trazem sempre um amigo, venham eles e sejam mais que cinco.
há nomes que só de os dizer nos fazem sentir maiores, capazes de.
um deles é josé fanha, com ele, por ele convocados vêm os que bandeiras são: zeca afonso, francisco fanhais, manuel freire e tantos mais.
com eles crescemos para sermos mais
habitam o silêncio
com a naturalidade das flores
por debaixo do sol
são
abrem caminhos que nunca
percorrerão
fazedores de tanto
com pouco se sabem por aí
deles dizem
“o país profundo”
sem eles pergunto-vos:
que país?
que mundo?
uma nota breve
no jornal da terra
tarja negra
uma sineta pelas ruas
um nome a quem pergunta
isso são
até lá
bebem o sol
habitam o silêncio
Poema de ahcravo
caixas no mar lavadas
leito último do carapau
onde o serem dele rasas
dirá quanto o lanço deu
em peso aproximado
nunca o valor em dinheiro
que esse só na lota
os compradores
quantas vezes combinados
em pouco mudarão o muito
em quase nada o tanto suado
dirás no mercado ao vê-lo
em cima da pedra a brilhar
que o peixe é caro
o preço elevado
e te sentes roubado
serás então igual ao pescador
mais um
na cadeia da exploração
de um outro mercado
(torreira, à memória do arrais zé murta, 2009)