(na mão a ponta da corda a que está presa a muleta)
à memória do arrais zé murta; torreira; 2009
logo pela manhã
depois de ter respirado o ar puro
do jardim fronteiro à vivenda onde morava
na quinta da marinha
o Interesse Nacional
chamou o motorista
sem pressas recostou-se no banco
traseiro
acendeu o primeiro charuto do dia
contemplou o tejo
pressentiu o mundo
chegado ao gabinete de onde comandava
os seus investimentos em países diversos
chamou a secretária pediu
o café
a agenda do dia
a correspondência
a síntese dos mercados e da informação
contactou os seus servos
soube de perdas e ganhos
aceitou sugestões
ponderou decidiu
como ganhar muito
sentado na cadeira de pele modelo executivo
os juros
a dívida
o défice
não lhe facilitavam o negócio
esperava porém que as políticas anunciadas
pelos seus amigos
lhe permitissem multiplicar os ganhos
que diabo
afinal
ele era
o Interesse Nacional
– veio-me à memória uma canção
de tempos idos e que
a dado passo rezava assim:
…. levados, levados sim …
até quando?
assaltaram a palavra
eram homens os que
cheiram a gamela
nela chafurdam
se vendem
compram
mais que homens
a gamela são
saber-lhes o percurso
conhecer o preço por que
o sorriso cínico
o terem sido para não serem já
fraca gente esta
pobre povo este
assaltaram a palavra
para melhor roubar
subiram descendo
essa a sua arte
o seu despudor
a nossa vergonha de
por mais oiro que tenham
não valem uma merda
nevoeiro
perdem-se os olhos
no serem só ali
tão perto
tão quase nada
mar de segredos
mar de medos
ouvem-se as vozes
pressente-se quase tudo
silenciaram o sol
o que vêem estes homens
que eu não ?
sentem o mar
o vento o sal
lêem-nos
desde crianças
o banco da escola
por sobre as ondas
o mestre
o arrais da companha
desaprendi tudo
torreira; companha do marco; 2009
vai até ao fundo
procura os porquês
tu és a eterna questão
sê a pergunta
exige a resposta
não cales
não consintas
não aceites
não desistas
não deixes de ser
provoca a onda
quebra o silêncio
ergue-te ergue
provoca convoca
não és só mais um
exige a resposta
serenas são as águas
onde o espelho
se recria e a gaivota
olha-os e parte
que é diverso o teu destino