depois vieram outros
outras gentes com outros viveres
só elas ficam
as janelas
mudas de tantos saberes
a muleta é o instrumento utilizado para empurrar a barca até ao mar, movida pela força dos bois no seu tempo e agora pelo tractor.
para além desta função ajuda também a que o barco se mantenha perpendicular à praia, proa feita ao quebrar das ondas, evitando que dê de “querena”. Empurra o barco até este ganhar calado para o motor.
A muleta tradicional é esta, de madeira, no entanto podem ser observadas outras variações, produto da criatividade dos pescadores, quer na praia de mira, quer na torreira, quer ainda a sua ausência quando são usados barcos mais pequenos, até com rodas, em praias com perfil de maior declive, que são empurrados directamente pelo tractor.
escrevam em todas
as paredes
em todos os muros
das cidades
e das aldeias mais perdidas
no fundo das serras
escrevam em todos
as folhas de papel
seja ele qual for
soltas ou em caderno
brancas, de cores ou mesmo
sujas
mas escrevam
escrevam tudo o que
ainda não disseram
o que eles ainda não
ouviram
as palavras com pedras
com gente, com fome
com injustiça, com desespero
as palavras que virem
nos rostos cansados
consumidos e cerrados
no cansaço deste estar aqui assim
escrevam
foi para isso que aprenderam
o que os outros não
se não o fizerem
de nada servirá o que sabem
não
isto não é um poema
não sei sequer o que é isso
é um vómito
sobre esta corja toda
e eu quero vomitar hoje
nos palácios
nas mansões
nas administrações
nas governações
escrevam
escrevam muito
que nunca é tudo
ao espectáculo da azáfama da xávega: homens, mulheres, máquinas, redes, cordas, barco, tractores, movimento, sons e vozes, nada nem ninguém fica indiferente.
até um cão, pára para olhar.
será que é preciso mais para que aqueles que deveriam ajudar na preservação desta arte centenária, atentem na necessidade de a apoiar para além do que até agora têm feito? (nada….)
até um cão, senhores, até um cão não fica indiferente à xávega.
(torreira, 2006)