joão da calada
joão da calada
nunca lhe soube o apelido, só a alcunha.
muito do que sei, devo-o a ele. técnicas de pesca de xávega, identificação de pescadores …. sei lá.
dono e arrais do barco que foi o primeiro amor, o “óscar miguel”, que infelizmente veio a ser queimado. era um belíssimo barco, feito pelo mestre gadelhas de mira.
antes disso tinha trabalhado com a robaleira “srª da conceição”.
arrais de velha cepa, mantinha a tradição antiga de cada dono de barco ter uma “tasca” onde os pescadores se aviavam, ainda hoje a tasca existe, na rua mais ao sul da torreira e é ponto de encontro de antigos pescadores. ir à torreira e não visitar o joão da calada é perder o que de mais tradicional ainda existe no ramo.
hoje o joão divide-se entre a tasca e o reparar das redes da companha do pepolim, que trabalha ao sul do molhe sul da torreira e de que é arrais o chico “de ovar” como é conhecido na torreira.
um abraço joão
(torreira_anos 90)
manuel da fonseca_aldeia
as palavras estão vivas
as palavras estão vivas
partirei com o sol e a minha loucura
para quê dizer adeus?
o regresso
o eterno regresso
é aquilo que resta
sempre que partimos
e eu não volto
partirei com o mar
clandestino
embarcarei em todos os navios
que cedo ou tarde se afundam
em praias longínquas
deixando os destroços
encontrarás então nas areias brancas
brancos os meus ossos
e lembrar-te-ás de mim
e do regresso
e da loucura
agora bebo no mar
as forças
para a grande viagem
agostinho trabalhito
eugénio de andrade_cardos
memórias do além tejo (do baú)
não vos dou palavras
dou-vos pernas, braços e um coração naufragado
não vos dou palavras
dou-me a mim todo transubstanciado em poema
aceitem, se quiserem, as palavras que não vos dou
mas não aplaudam
o vosso espectáculo
são as minhas lágrimas, angústias e desesperos
não vos dou palavras
dou-vos bofetadas que, por vezes, aceitais com um sorriso
porque o sorriso é a vossa reacção típica
e se eu não escrevesse ?
e se eu não vivesse de olhos abertos sobre cada dia
em cada dia suportando estar vivo
inventando searas e papoilas no deserto dos vossos olhos ?
e se eu pudesse dormir como vós descansadamente
com um policial ou um romance à cabeceira
e se eu me sentisse satisfeito com a telenovela
e me bastasse o mau gosto de um jantar num restaurante de três estrelas
“em boa companhia”
para ser feliz ?
e se eu fosse como vós
que tudo tendes
e mesmo quando não tendes fechais os olhos e tendes tudo ?
e se eu não pensasse ?
se eu fosse como vós
não haveria mais palavras
porque não haveria mais chaparros solitários
as estações estariam sempre certas e eu seria sempre feliz
à vossa maneira, é certo, mas feliz
mas não
continuo a dar-vos palavras que não o são
continuo à procura de não sei bem o quê
mas continuo sempre
dou-vos este corpo
que escorre sangue, sonho, amor e ódio
a quem por vezes apetece ser como o vosso
só para não ter nada que escrever
ahcravo_virás
boi
as juntas
nome:
boi
assim sem apelido
nem bilhete de identidade
força bruta
em bruto manso sou
reconheço as palavras suficientes
para obedecer
nada mais me ensinaram
os meus olhos grandes
fazem o mar ainda maior
o homem agiganta-se ante mim
e assim nada mais sou
que
boi para toda a obra
e a obra não fim




