o dia


todos os hoje
são uma semana que começa
os dias são dias e nada mais
o tempo passa simplesmente
sem necessidades de calendário

por debaixo das pedras
na sombra fria
um raio de sol procura os vermes
sentados em cadeiras almofadadas
de onde lançam compridas línguas
para lamber a luz

amanhã
porque vai sempre haver um amanhã
lembrar-nos-emos de terem sido
tempo demais
culpa nossa a de gritarmos apenas
debaixo de outras pedras

haverá um hoje
em que a sua semana não se iniciará
por ser só nossa

nesse dia
o sol quebrará as pedras
o ventre dos vermes inchará e rebentará

por esse dia
lutaremos

(condeixa; eira pedrinha)

somos a afirmação


 

 

fabricamos o tempo

o nosso tempo

com a música dos gestos

suspensos

no exacto instante em que

vindos do silêncio onde habitavam

nos cercearam as vozes

 

somos ainda o haver amanhã

um dia de sol aberto a todos

não o impossível sonhado

mas o real a que estamos condenados

pelo facto de sermos

 

estamos

ali onde palavra e gesto se confundem

não temos medos nem donos

mais muitos mais

crescemos a cada dia

 

somos a afirmação da recusa

 

a laura e ele


gansos mudos

gansos mudos

 

a laura e ele

 

 

os dois

são muitos

ainda

 

não digo

burros

dos que com

ele

sagradas vacas

estarão

comendo o pasto

por ele semeado

reis

que não os magos

enchem a barriga

 

não digo

inocentes

dos que com

ele

interrogo-me

porquê

mas sei

que sabem

o que querem

não sabendo o como

 

a laura e ele

isso sei

festejaram o natal

num manjar de laranjas

será que todos

os que com ele

também?

 

perdoai-lhes senhor

que o tempo não

da raiva


 

ahcravo_DSC_0957_janelas_arganil bw

talhar a pedra

erguer a casa

afeiçoar-se

das pequenas

coisas dentro

 

ser a casa

o mundo onde

acolher-se

dos agrestes dias

chuva, vento, frio

pedras outras

 

lugar onde

famílias, amigos

abraços

estar e ser

 

que fazer sem ela?

 

pedra a pedra

de novo

agora não a casa

o arremesso da raiva

aos senhores

da terra

onde erguida

e perdida

foi

 

assim

hoje, aqui

urge

 

sufocar o terror


 

terra de gente até quando?

 

anos muitos serão noventa

inocência pureza

olham-me para além de

mãos céleres nas résteas

um povo uma história um desejo

 

o país que sonhei para ti

não é este

muito menos o que te querem

ofertar

insónia fome dor

 

beijar-te os olhos

pedir desculpa

se não for capaz de resistir

tu mereces tudo o que te

querem retirar

e é tão pouco o que te tens

 

os modelos não têm povo dentro

têm fórmulas concebidas por gente

que desconheces

criadoras de mundos outros

não aquele

que sonhei para ti

 

não é este o país

que te queria ofertar

nem é este o país

que tu gostarias de deixar

 

roubados somos

espoliados de nós

resta-nos ser a réstea

a sufocar o terror