ahcravo_gorim
postais da ria (499)
“mulheres ajoelhadas lavam roupa” de al berto
“Um lugar para o silêncio” de raquel patriarca
“Mulher de outono” de rita taborda duarte
crónicas da xávega (550)
“Filhas de seu pai” de beatriz hierro lopes
ti abílio carteirista
“são todos uns insurrectos, cravo!”
só ele sabia dizer esta frase que passou a ser minha saudação provocatória: “você é um insurrecto, ti abílio!”
se existe a “brejeirice da beira ria” como forma de expressão, era no ti abílio que ela encarnava, na malandrice , no sorriso, na ingenuidade sábia, no ser amigo.
o ano passado falei com ele duas vezes pelo telefone, uma das vezes liguei-lhe eu a dar-lhe os parabéns, como era costume, a outra foi ele que me ligou e me deixou preocupado e triste. o ti abílio tinha vendido o moliceiro “Dos Netos” porque já não se sentia em condições de navegar e ao telefone disse-me mais ou menos isto:
- que faço eu aqui cravo? vou todos os dias ao bico ver a ria e choro
havia dois moliceiros de velha cepa na murtosa: o ti zé rebeço e o ti abílio carteirista. mas bastava dizer “ti zé” ou “ti abílio” e todos sabíamos, sabemos, quem eram.
ambos morreram
ambos estão vivos, o ti zé e o ti abílio são para sempre
morreu tanta memória com eles, só não pode morrer o dever que temos para com a sua memória: continuar com a tradição dos moliceiros – os verdadeiros, com vela.
o ti abílio morreu ontem dia 10 de janeiro de 2024
(torreira; regata da ria; 2017)


