memórias da minha coimbra (V)


(alfredo) soveral martins
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coimbra; praça do comércio; 2008

 
a muitos dos que se darão ao trabalho de ler o que se segue este nome nada dirá.
 
a alguns, os mais calejados pelos anos, o nome “centelha” talvez os remeta para quando tinham pouco mais de 20 anos, ou pouco menos, quem sabe?
 
em 1971, chegado de luanda a fugir de perigos vários, continuo os meus estudos no técnico, e a aventura era comprar os livros proibidos pelo regime, nas bancas da associação de estudantes.
 
aí encontrávamos a preços de estudante uns livros pequenos, com obras de marx, lenine e outros, bem como a poesia de manuel alegre a assis pecheco, entre outros, de uma editora de coimbra chamada “centelha”.
 
(a primeira edição de “praça da canção” e a segunda de “o canto e as armas” foi a centelha que as fez.
 
lembras-te do início, manel? )
 
centelha em russo é “iskra”, nome do jornal do pcus.
 
mal imaginava eu, nessa altura, que viria a ser amigo e, um pouco, companheiro do responsável pela editora.
 
já em coimbra, onde cheguei em 1973, conheci o alfredo soveral martins. marginal dos marginais, não era homem de tertúlias, tinha muito que fazer, dizia, e não podia perder tempo em conversas de café.
 
o seu escritório de advogado, que o era para além de assistente da cadeira de “processo civil” na fduc, era também a sede da centelha, o escritório da centelha…. era a centelha.
 
um homem com uma capacidade de trabalho extraordinária.
 
as reuniões da centelha, de que guardo religiosamente o recibo da minha quota de sócio, eram dominadas pelo seu discurso sempre calmo, em voz baixa, com exposições que podiam demorar, mais de meia hora, em que expunha ao detalhe e com uma lógica irrebatível o seu ponto de vista sobre o assunto em análise.
 
colaborei na montagem da livraria e numa ou outra distribuição pela província.
 
o soveral martins foi das personagens que maior influência teve na formação ideológica de muitos estudantes, de entre os quais alguns, mais tarde, viriam a desempenhar funções de relevo na vida política portuguesa.
 
dele, dele ficou uma campa em chãs de semide, marginal como ele.
 
dele fica aqui um testemunho, também marginal, mas despretensioso.
 
ao mestre pede-se licença e agradece-se.