crónicas da xávega (618)


dezembro começou com sol
dia bom para lavar e secar o natal

fiz máquina com todos os ingredientes
anticalcário detergente amaciador
programa longo
dupla centrifugação à rotação máxima

estendi na varanda coberta
não fosse a chuva tecê-las
esperei que secasse

quando o tirei da corda estava na mesma
manchas de sangue nódoas de lágrimas
aquele vermelho berrante de refrigerante
enlatado entranhado

depois de tanto trabalho o resultado
foi levá-lo para o contentor de reciclagem
e esquecer mais um investimento familiar

(xávega; dar o porfio; torreira; 2012)

crónicas da xávega (608)


este é o meu tempo
o meu mundo é aqui
se quero ser é aqui e agora

recuso-me a ficar sentado
à soleira da porta a falar
com as árvores e as flores
ou contigo amor que invento
costas viradas ao coração da casa
não ouvindo não vendo
a desumanidade dentro dela

é aqui e agora
com as parcas armas que tenho
palavras palavras tão pobres
mas que mordem ferem cortam
denunciam

é aqui e agora
ou amanhã não sei onde
terei vergonha de não ter sido

por isso escrevo
porque a realidade ultrapassa
é o genocídio em gaza

(xávega; dar o porfio; torreira; 2011)

crónicas da xávega (366)


dar o porfio

xávega; dar o porfio; torreira; 2011
olho as palavras
que foram minhas
com o espanto
de o terem sido
 
quem fui
para as ter escrito
 
quem sou
quando as escrevo

quem serei
quando as lerem
  
indiferente o agostinho
dá o porfio ao saco

essencial para o pescador
é um bom laço de carapau