quando o mar trabalha na torreira_ana amaral


ana amaral (mãe do alfredo)

 

são estes os dias
de sol farto que me fazem sorrir
os bois de mansos que são
sem medo acaricio
desta arte irmãos

é verão
estou viva o mar é meu
são minhas areias ondas água
barcos irão ao mar
haverá peixe na praia
comida em casa

todos os recantos das dunas
me contam histórias que só eu
ondas quebram na areia
lançando no vento nomes
que não esquecerão

são estes os dias
em que estou viva
é verão

 

(torreira; século XX)

quando o mar trabalha na torreira_antónio vasques


antónio vasques (falecido)

 

por mais que não queira
é para o mar que os meus olhos
correm

o fascínio das ondas
rebentando da areia
em gritos de agonia
sofrida de tanto mar andado

um barco que parte
outro que chega
as gentes
redes caixas cordas juntas
tudo isso se projecta
na tela imensa azul e verde

é este o meu mundo
feito de sol e vento
areia e mar

redes que remendo
sacos que fecho
à espera de os rasgar

 

(torreira, século XX)

 

quando o mar trabalha na torreira_esmeraldina vasca


esmeraldina vasca (falecida)

 

vejo o peixe
faço contas

quantas canastras dará?
na lota quanto poderá valer?
quando fizerem o leilão até onde posso ir?

pisco o olho ?
baixo a cabeça ?
levanto o dedo ?

tantas maneiras de dizer o meu preço:
não dou mais
compro
não quero
sem dar a saber aos outros

é esta a minha arte
saber comprar
para poder vender

também eu vivo do mar
do mar e do que ele der

vendo peixe
é esse o meu viver

quando o mar trabalha na torreira_homenagem aos bois


o homem ao centro é o manel franciscão

 

história já somos
desta arte

máquinas de músculos
feitas
aqui fizemos diferentes
lavrares

barcos e redes
foram nossos arados
alfaias outras
destes lugares

corremos na areia
entrámos pelo mar
senhores nunca fomos
que doutros era o poder
o mandar

éramos da arte
o diverso
que na memória ficou

 

(torreira; século XX)

xávega_o aparelhar


agostinho trabalhito (canhoto)

neste registo é perfeitamente visível a disposição do “reçoeiro”, junto à caixa do motor, que irá sendo “largado” à medida que o barco se afasta da costa.
sequência de “largar” do lanço: reçoeiro, manga do reçoeiro, saco, manga da mão de barca, mão de barca.

 

 

é este o aparelho da xávega

(torreira; companha do murta; 2007)

quando o mar trabalha na torreira_sónia da fátima da joana


sonia da fatima da joana

 

da xávega filha
irmã do mar
sou na areia
mulher que se faz
cabeça erguida ao vento

as minhas férias de verão
são feitas de castelos de sonho
erguidos sobre cordas e redes
barcos e ondas

abro destinos na areia
pelos caminhos de ir e vir
corro mundo voos infinitos
só o corpo o sente
porque a trabalhar

vou com o vento
visitar as minhas amigas gaivotas
poisadas nas ondas
deixo por momentos os pés voarem
e sou ave

sonhar não mata

 

(torreira; século XX)

o chamado da xávega


henrique bastos

 
uma das características das companhas de xávega, na torreira, é a participação da juventude na faina.
 
começam miúdos, “canalha” ainda, como se diz na praia, e depois continuam nos períodos das férias escolares. alguns, mesmo se arranjam trabalho noutra actividade que não a pesca, é a ela que retornam em período de férias laborais.
 
o chamado da xávega e da ria são muito fortes. do mar para a ria e em sentido inverso, a pesca está no sangue desta comunidade.
 
(torreira, companha do murta, 2007)

quando o mar trabalha na torreira_david carriço


david carriço

a rede chegou
o saco aberto a golpes de navalha
esventrado na areia
pelo volume adivinhava-se
quanto peixe

faltava saber a valia

o caranguejo
encheu o saco
de onde em onde uma sardinha
carapau lula

tudo junto não chega a nada
uma caixa de lulas miúdas
duas de sardinha
uma de carapau
quantas de suor ?

por vezes penso
que só mesmo por teimosia
ou por amor

(torreira; século XX)