o nosso mar


(torreira; 2007)

cumpriram-se os dias
plenos de sal
séculos escritos sobre as ondas
um povo à beira mar
se fez e aí cresceu

aqui todo o destino tem sabor a espuma
escamas recobrem os homens
mulheres outras estas
as que o mar fez
 
restam poucos
restam muitos
restam os que são e sabem ser
pescadores
apanhados
nas malhas de uma europa
que não a sua
 
afogar-se-ão
ou não?

quem se faz ao mar e o vence
será que vai morrer a ver o mar crescer
sem o poder galgar?
 
falo de homens
não de burocratas
falo do nosso mar

quem vence o mar vence sempre

as medidas do tempo


(torreira; 2011; o descanso da guerreira)

contas o tempo
em máquinas
e outros artefactos

acaso pensaste
no tempo de ser?

quantas horas
tem um minuto de dor?
quantos meses
um dia de fome?
quantos anos
um sorriso de uma criança?

quantos séculos
se inscrevem
nos rostos crestados
pela terra e o sal?

são de gente
os ponteiros
do meu relógio

diverso tempo
este
onde a morte
espreita

alfredo amaral


"sou feio mas sou moderno"
alfredo amaral
aqui te digo amigo
que me orgulho de te ter como
saber a tua história
o que foste  o que és
de pequenino aos pés da tua mãe
a ver trabalhar o mar
agora já homem
a dar duro no pão

o mar que ela agora não vê
a tua mãe alfredo
a ana
é agora tua filha
onde o mar é teu irmão
e pai

saber como és mais que tu
sabendo-te
sorrindo
jamais exigindo
quem conhecendo-te
te poderá dizer não?

que todos os filhos
sejam como tu
sem serem como tu
é desejo que fica
é palavra que deixo
é desejo

abraço-te
e sorrio
porque tu és feio
mas és moderno

quando há tantos modernos
horrorosos

(torreira; 2011)

mais eu que nunca


companha do marco, 14 de junho de 2012
estou muito longe
de tudo
muito perto
de mim
encho-me de mar
e não há palavras
que digam sequer parte
do que sinto

quem sou
é outro
sendo o mesmo que fui
mas muito maior que eu
lavei todo o meu corpo no mar
limpei-me das impurezas urbanas
reencontrei o vernáculo
dos homens que não viram as costas
às ondas

pesco neles o pão
para estas palavras poucas
e ofereço-vos
do muito que sou agora
o tanto que me ofertaram

estou muito longe
de tudo
mais eu que nunca

(torreira; 14 de junho de 2012)

barco de mar


SONY DSC
sábias mãos
do mar conhecedoras
foram concebendo o barco
a pedido
que é o mar que pede o barco
que o homem pede ao mestre

de mestre a aprendiz
de geração em geração
do diálogo entre mar e homem
homem e mar
o barco cresceu e diminuiu
transformou e se faz
 
engenharia esta de mestrança
onde o cálculo não de régua
mas de pau de pontos
e as peças de moldes herdados
 
que o mar pede o barco
que o homem o sente e o ajusta
que o diálogo o fez
 
barco de mar
do mar da nossa costa ocidental
da pancada
da onda
da mão

(torreira, 2009)

há mulheres aqui


ti miguel bitaolra e rui rapina
dão-se as mãos
dão-se as gerações
no amor ao mar
cresce-se com ele
dentro

atado aos pulsos
marcado nos rostos
salgando os pés
gatinhando na areia
 
no mar se fazem homens
no barco a iniciação das ondas
baptismo a pedido
há mulheres aqui
há mulheres aqui

no esticar da corda
no esforço conjunto
há mulheres aqui
onde a terra acaba
mas os homens não
 
há mulheres aqui

(torreira, 2007)

ganhar o pão


ti alfredo fareja (falecido)

 

chega o saco à praia

com ele a esperança

de um bom lanço

farto de carapau

paga de tantas horas

de suor duas vezes salgado

 

chega o saco à praia

mas a mais das vezes

só rede

que peixe

as traineiras de noite

tomaram de assalto

invasoras da costa onde

outrora piratas

também

 

é este o momento

em que o mar

pagará ou não

a quem no mar tentou

mais uma vez

ganhar o pão

 

(torreira; 2007)